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sábado, 29 de novembro de 2014

O PORQUÊ DAS DIFERENÇAS ENTRE OS EVANGELHOS

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Comentário sobre relato bíblico

Os estudos bíblicos se constituem numa vibrante área de pesquisa que publica de forma intensa. Isso se deve ao fascínio que os textos antigos exercem sobre os leitores contemporâneos, seja como texto de saber histórico, seja como texto que sempre se mostra aos leitores de forma renovada.

Por isso, a Bíblia é estudada numa riqueza de perspectivas, abordagens, métodos  e hermenêuticas. Ao interesse pelo texto bíblico soma-se a busca por sua origem, da mesma forma que pelos textos que lhe são vizinhos: os apócrifos, pseudepígrafos  e  os Manuscritos do Mar Morto. Comentário de Gabrielle Boccaccini, Departamento de Estudos do Oriente Próximo da  Universidade de Michigan, E.U.A

 
 
O porquê das diferenças entre os evangelhos
 
 Edmilson Schinelo

 

Os evangelhos não são biografia de Jesus. Quando foram escritos, não tinham a intenção de narrar nos detalhes o que se passou com o Nazareno. Com certo grau de humor, costumamos dizer o seguinte: se quisermos saber direitinho como foi a vida de Jesus, teremos que esperar nossa ressurreição e perguntar a ele. Mas é possível que a pergunta não faça mais sentido. Agora, se desejamos conhecer a experiência que as primeiras comunidades fizeram à luz do que Jesus disse e fez, aí sim podemos ler os evangelhos. E como as comunidades eram diferentes entre si, é normal que um mesmo fato a respeito da vida de Jesus tenha sido registrado de forma diferente por cada comunidade.

Para nosso olhar de fé, sabemos que a inspiração divina permitiu essa multiplicidade de relatos exatamente para que pudéssemos seguir aprendendo que as diferenças nos enriquecem e nos complementam. Se assim não fosse apenas um evangelho teria sido suficiente.

 

As diferenças entre os evangelhos, portanto, são fruto em primeiro lugar da vontade divina. Mas também de outras condições. Vejamos algumas.

1. Diferentes maneiras de se contar um mesmo fato

Em sua vida pública, Jesus constituiu um movimento itinerante, formado de mulheres e homens (veja Lc 8,1-3) e andou por cidades e povoados anunciando o Reino, curando as pessoas e propondo um jeito novo de viver. As coisas que disse e fez não foram anotadas de imediato, foram gravadas na mente e no coração das pessoas, que passaram a contar para seus filhos e filhas, na catequese, nas celebrações, na vida das primeiras comunidades. A isso nós chamamos de tradição oral. Somente mais tarde teve início o processo de redação dos textos, incialmente em forma de pequenas coleções (ditos de Jesus, relatos da paixão, coleção de parábolas, coleção de milagres etc). Ora, é evidente que um mesmo fato ou uma fala que tivessem um núcleo comum adquirissem “caminhos” e tradições diferentes na medida em que eram transmitidos “de boca em boca” por diferentes grupos. Na Bíblia também funciona o famoso “quem conta um conto aumenta um ponto”.

 

Esta é uma das razões porque um relato difere do outro (confira, a título de curiosidade, o relato do episódio de Jesus caminhando sobre as águas na versão de Mc 6,45-52 e na versão de Jo 6,16-21; se quiser, confira também com Mt 14,22-33). Veja também como a oração do Pai Nosso é diferente em Lc 11,1-4 e em Mt 6,9-13.

 

2. Épocas e contextos diferentes

Tomemos o seguinte exemplo: por defender a floresta e o povo empobrecido da Amazônia, contrariando os interesses das elites e do capital internacional, Chico Mendes foi assassinado em 22 de 1988, em Xapuri, no Acre. Seu testemunho repercute até hoje. Imaginemos o quanto seriam diferentes as histórias de sua vida se escritas nos anos que sucederem sua morte por gente ainda sofrendo ameaças, das histórias contadas por seus familiares e escritas por um neto seu que não o conheceu pessoalmente, 30 anos depois, já vivendo no Rio de Janeiro. Bem diferente seria também uma versão escrita por uma pessoa de algum país europeu que apenas escutou relatos orais. É impossível que a situação de quem escreve não se reflita no texto.

O mesmo aconteceu com os evangelhos. Ao escreverem os textos, as comunidades também foram influenciadas pelo contexto em que viviam.  Por volta do ano 70, época da destruição de Jerusalém pelos romanos, deve ter surgido o evangelho de Marcos, o primeiro dos quatro. Em várias passagens texto de Marcos é bastante marcado pelo silêncio e pelo medo. Em Marcos, Jesus morre em situação de abandono (compare Mc 15,33-39 com Jo 19,28-30). É como se a comunidade cristã, enfrentando a guerra e o massacre, estivesse repetindo o salmo: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste! (Sl 21,2). Cerca de 30 anos mais tarde, quando a comunidade de Joao relata o mesmo fato, já quer destacar um Jesus senhor da história e vencedor da morte, em condições de ele mesmo entregar o seu espírito, dizendo que tudo está consumado (Jo 19,30). Diferença de contextos.

3. Destinatários diferentes

Nos dias de hoje os evangelhos se destinam às nossas comunidades de fé. Mas à época em que foram escritos, tiveram destinatários diferentes. O evangelho de Mateus foi escrito para comunidades judaico-cristãs. É comum que acentue aspectos importantes para o judaísmo, como, por exemplo, o pleno cumprimento da lei (Mt 5,17-18). Enquanto em João o próprio Jesus viaja pela Samaria com seus discípulos (Jo 4), em Mateus ele diz que os discípulos não devem entrar em terras de samaritanos (Mt 10,5). O evangelho de Lucas tem como destinatárias as comunidades cristãs do mundo greco-romano, menos presas às tradições judaicas. O texto de Mt 10,5 não caberia no evangelho de Lucas. 

4. Diferentes acentos teológicos

No essencial os evangelhos coincidem: Deus envia se filho ao mundo, ele forma um grupo de seguidoras/es e vive servindo os pobres; sua forma de agir acaba desagradando as autoridades judaicas e romanas e por esse motivo é assassinado na cruz; mas ressuscita e as primeiras anunciadoras do novo são as mulheres. Esse fio comum perpassa os quatro relatos: Marcos, Mateus, Lucas e João.

Entretanto, cada evangelho tem sua especificidade teológica. Marcos apresenta Jesus como um curador da vida, alguém que passa a maior parte do tempo curando as pessoas e expulsando demônios. Mateus, por sua vez, insiste nos longos discursos de Jesus, apresentando-o como um rabino, um mestre da justiça. A dimensão do perdão e da salvação universal e mais destacada em Lucas do que em Mateus e Marcos. Para João, Jesus é o verbo que sempre existiu, mas ao se encarnar, ensina-nos a viver um discipulado de iguais.

Outro exemplo: na genealogia de Mateus, Jesus é descendente de Abraão (Mt 1,2). Como Abraão é pai do povo de Israel, Jesus é, portanto, um bom judeu. Já em Lucas, Jesus não é descendente apenas de Abraão, mas de Adão (Lc 3,38). Em sua visão mais universalista, Lucas apresenta Jesus não como filho do povo judeu, mas de toda a humanidade.

5. Uso diferente de textos do Primeiro Testamento

Dado o seu interesse teológico diferente ou mesmo a diferente tradição que preservou o fato, as comunidades também recorrem a diferentes textos que teriam sido ditos por Jesus em momentos específicos. No episódio da expulsão dos vendilhões do templo, de acordo com Marcos, Jesus teria dito: Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos, mas vocês fizeram dela um covil de ladrões. Já de acordo com o texto de João, as palavras de Jesus teriam sido outras: Não façam da casa de meu pai uma casa de comércio. Na verdade, enquanto o texto de Marcos recorre a Is 56,7 e a Jr 711, João faz uso de Zc 14,21. Ainda conforme João, os discípulos teriam se lembrado do Sl 69,10:O zelo por tua casa me devovará.

Outro exemplo é a última frase que Jesus teria dito na cruz, antes da morte. Enquanto Marcos cita o Salmo 22,2 (Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!), Lucas cita o Salmo 31,6: Em tuas mãos entrego o meu espírito!

No relato da infância de Lucas, depois de nascer, Jesus volta de Jerusalém para a Galileia, não teria ido morar no Egito (cf Lc 2,39-40). Em Mateus, como Jesus e comparado a Moisés, ele vai morar no Egito, é perseguido por um novo faraó (Herodes), tem a ajuda dos magos (como Moisés teve das parteiras) e proclama, no monte a nova Lei, as Bem-aventuranças (Mt 5.1-12). Trata-se, na versão de Mateus de uma releitura do êxodo, como Oseias já havia feito: Do Egito chamei o meu filho (Os 11,2).

6. Um exercício prático

Tomemos o relato das mulheres indo ao túmulo na madrugada da ressurreição, presente nos quatro evangelhos: Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-11 e Jo 20,1-18. Muitas diferenças podem ser observadas entre os relatos. Propomos aqui que identifiquemos apenas algumas, com base na resposta às seguintes perguntas: a) quem são as mulheres que vão ao túmulo na madrugada da ressurreição? Quem está lá para avisar as mulheres que Jesus está vivo ou para dirigir-lhes alguma palavra? Qual a reação das mulheres?

Comecemos pela segunda pergunta: em Marcos, encontramos um jovem de branco. A versão de Mateus se inspira em Marcos, mas no lugar do jovem aparece um anjo. Lucas também se inspira em Marcos, mas fala de dois homens com vestes resplandecentes. Tanto em Mateus como em Lucas funcionou o “quem conta um conto aumenta um ponto”. João menciona dois anjos, possivelmente por fazer referência ao novo jardim não manchado pela morte (Jo 19,41). Se no antigo jardim Deus colocou os querubins para impedir que o ser humano chegasse à árvore da vida (Gn 3,24), em Jo 20,12-13 os anjos são os primeiros a confortar a mulher, com a pergunta carinhosa depois repetida por Jesus: Por que choras?

Observemos a diferença quanto à reação das mulheres. Em Marcos, elas fogem em silêncio: não contaram nada a ninguém porque tinham medo (Mc 16,8). Já vimos que o contexto em que se escreveu o evangelho de Marcos é marcado pelo medo da perseguição romana. Nos demais textos, elas contam aos discípulos. O medo ainda permanece, mas elas contam. O texto de Mateus acrescenta que apesar do medo, elas estavam alegres (Mt 28,8). Sabemos que o texto de Mateus foi escrito cerca de 15 a 20 anos depois do texto de Marcos. As comunidades ainda experimentavam o medo, mas eram capazes de anunciar com mais alegria a ressurreição

 

Em relação à primeira pergunta, notemos que o nome de Maria Madalena está em todos os textos, o que nos permite concluir que ela foi a grande apóstola da ressurreição. Mas não há coincidência em relação aos nomes das demais mulheres. Por que? É muito possível que as comunidades tenham se recordado de mulheres que foram lideranças marcantes à sua própria tradição. Ou seja, para a comunidade de Marcos, além de Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé ficaram na memória da comunidade. Já de acordo com Lucas, o nome de Joana foi mais mencionado e ficou gravado (Lucas fala também de outras mulheres).

No caso de João, Maria Madalena vai só ao túmulo. E a narrativa tem um sentido bastante especial, baseando-se em dois textos do Primeiro Testamento. Por um lado, o texto refaz a trajetória da amada em busca do seu amado, conforme os belos poemas do Cântico dos Cânticos: Encontraram-me os guardas que rondavam a cidade: vocês viram o amado da minha vida? Passando por eles, contudo, encontrei o amado da minha vida. Agarrei-o e não vou soltá-lo (Ct 3,3-4). Por outro lado, Jo 20,1-18 apresenta-nos uma releitura da criação: trata-se de uma nova semana, um novo jardim e uma nova humanidade, representada em Jesus e em Maria Madalena. Relato de um encontro que transforma e que permitiria a ela dizer, quase parafraseando Gabriel García Marques: “Gosto de você pelo que você é, mas também pelo que sou quando estou com você!”

 

Fonte: CEBI - Centro de Estudos Bíblicos.

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

“O ESPÍRITO DO SENHOR ME UNGIU PARA ANUNCIAR A BOA-NOVA AOS POBRES” (Lc 4,16-21)

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“O Espírito do Senhor me ungiu para anunciar
a boa-nova aos pobres”
(Lc 4,16-21)

Ildo Bohn Gass

 

 

Movido pelo Espírito de Deus...

Na sequência, o evangelho deste domingo apresenta um resumo da prática de Jesus de Nazaré (Lucas 4,14-15). Ele vivia em meio a seu povo, participando de sua vida de fé. Ensinava nas sinagogas da Galileia, na periferia da Palestina.

Jesus Pregando na Sinagoga no sábado

 

Toda sua missão é movida pelo dinamismo do Espírito (Lucas 3,22; 4,1.14.18). Para as comunidades de Lucas, a ação de Jesus é inseparável do Espírito profético, o Espírito de Deus. Convém que tenhamos presente que a força do Espírito do Senhor também conduziu João Batista e Maria, Isabel e Zacarias, Simeão e Ana (Lucas 1,15.35.41.67; 2,25-27.36).

Apresentando a missão de Jesus dinamizada pela força do Espírito, a comunidade lucana nos desafia a que também nós abramos nosso coração ao Espírito Santo e nos coloquemos a seu serviço, a serviço da libertação de todas as formas de opressão, promovendo a vida.

 

... para libertar os pobres...

A narrativa a respeito da leitura de trechos do profeta Isaías feita por Jesus na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,16-21) insere-se numa narrativa mais ampla, pois, na sequência, Lucas descreve a reação diante do anúncio desse evangelho (boa-nova) aos pobres. Uns aprovam. Outros têm dúvidas (Lucas 4,22-23). E há quem rejeita o projeto de salvação para os mais desamparados (Lucas 4,23-30). O que não é possível é ficar indiferente.

A boa-nova para uns é uma má notícia para quem deseja continuar vivendo à custa dos pobres. Essa é a razão por que se enfureceram, o expulsaram e queriam precipitá-lo do cimo da colina (Lucas 4,28-29).

Como ontem, ainda hoje se repete a mesma situação. Qualquer liderança que assume a promoção dos mais pobres, de modo que possam ter pelo menos três refeições por dia e viver com dignidade, continua sendo caluniada e perseguida. E isso não somente pela mídia comprometida com o poder econômico, mas também por políticos e até por setores de igrejas e tribunais. Não é por acaso que Jesus vê motivo de alegria para as pessoas perseguidas por lutarem pela justiça (Mt 5,10-12).

 

 

Em Lucas 4,16-21, temos a apresentação do programa de Jesus num dia de sábado na sinagoga de Nazaré, sua terra natal. É o projeto do reinado Deus. Na sinagoga, era costume rezar alguns Salmos, ler e comentar um trecho de algum livro da lei (Pentateuco) e outro de algum livro profético. Jesus escolhe três fragmentos do livro de Isaías para anunciar o coração do projeto de Deus.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos (Isaías 61,1) e, aos cegos, a recuperação da vista (Isaías 35,5); para dar liberdade aos oprimidos (Isaías 58,6) e proclamar um ano de graça do Senhor” (Isaías 61,2).

Essa missão libertadora vem do Deus da vida, pois é conferida a Jesus pelo próprio Espírito do Senhor, por quem já fora ungido como o messias por ocasião do seu batismo (Lucas 3,22).

A missão do messias é de esperança de vida digna, certamente para todas as pessoas, mas especialmente para quem está excluído da cidadania. Em quatro afirmações, Jesus faz memória da profecia de Isaías para descrever em que consiste a sua missão de “anunciar uma boa-nova aos pobres”.

Primeiro, “anunciar uma boa-nova aos pobres” é “proclamar a libertação aos presos”. Por um lado, é a libertação de quem sobrevive em condições subumanas nos presídios, onde a grande maioria está em consequência dessa sociedade desigual, injusta e de exclusão. E, no tempo de Jesus, a maioria das pessoas que se encontrava na prisão eram presos políticos que resistiam contra a opressão e a violência do império romano.

Por outro lado, a proposta de Jesus é libertar-nos de todas as formas de prisão, de tudo aquilo que nos impede de sermos nós mesmos, de sermos livres, sem deixar-nos guiar pelo egoísmo, por vícios, pelo individualismo, pela ganância, pelo consumismo, pela ambição, etc. Senhor, liberta-nos de tudo o que nos aprisiona e impede de sermos radicalmente livres.

Foto feita  em 2002,  exposta na Mostra “A eloquência do sangue”, de Rogério Ferrari, apresenta a realidade nua e crua da Palestina sob ocupação.

 

Em segundo lugar, “anunciar uma boa-nova aos pobres” é levar “aos cegos a recuperação da vista”. É, sim, curar a cegueira física, mas é muito mais. É também curar a nossa ‘cegueira’ quando não enxergamos a realidade por estarmos com a visão embaciada ou com ‘viseiras’ que impedem vermos a realidade em toda a sua amplitude.

É curar a nossa ‘cegueira’ quando não vemos com nossos próprios olhos, não pensamos com nossa própria mente, não escutamos com nossos próprios ouvidos e, por isso mesmo, não dizemos nossa própria palavra, mas reproduzimos as ideias do pensamento dominante na sociedade.

Senhor, recupera as nossas vistas. Dá-nos forças para alcançarmos clareza em nossas mentes e corações, a fim de ampliar o nosso discernimento conduzido por seu Espírito.

Em terceiro lugar, “anunciar uma boa-nova aos pobres” também é “dar liberdade aos oprimidos”, seja diante da opressão social, mental, econômica, psicológica, política, afetiva ou religiosa. Senhor, que teu amor mova nossos desejos, possibilitando-nos a graça de sermos pessoas próximas, solidárias com quem vive na opressão.

Por fim, “anunciar uma boa-nova aos pobres” é “proclamar um ano de graça do Senhor”. Anunciar o ano de graça do Senhor é proclamar o ano jubilar que fazia parte da tradição do Antigo Israel. Nos livros do Deuteronômio e do Levítico fala-se desse jubileu. Primeiro, era uma reforma feita a cada sete anos (Deuteronômio 15,1-18). Mais tarde, passou para cada 50 anos (Levítico 25,8-55).

Era o ano do perdão das dívidas que, muitas vezes, levavam à perda da terra, das casas e da própria liberdade. Por isso, ao anunciar o ano jubilar, além do perdão das dívidas, o Espírito do Senhor move Jesus para anunciar vida plena, o que também inclui terra para quem está sem terra, moradia para quem está sem teto e liberdade para quem sofre trabalho escravo.

 

... ontem e hoje

No passado, o Espírito animava a profecia na proclamação da boa-nova da libertação para os pobres (Isaías 61,1). Fiel à missão que o Espírito lhe confiara no batismo (Lucas 3,22), Jesus atualiza essa profecia, igualmente movido pela força do Espírito (Lucas 4,18). É por isso que diz: “Hoje, se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” (Lucas 4,21).

No nosso batismo, também somos ungidos pelo mesmo Espírito Santo e assumimos o mesmo programa de Jesus. Por isso, podemos dizer com ele que, em nós, “hoje, se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura”. Que a graça de Deus nos ajude a colocar-nos no mesmo caminho da profecia, no caminho do Espírito do Senhor.

 

 Nota:  “O ESPÍRITO DO SENHOR ME UNGIU PARA ANUNCIAR A BOA-NOVA AOS POBRES” (Lc 4,16-21) não representa necessariamente a opinião deste blog, nem de nenhuma das igrejas, sociedade ou grupos de estudos do Movimento da Ciência Cristã. Foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico, como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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Para refletir:

ESPÍRITO.  A substância divina; Mente; o Princípio divino; tudo o que é bom; Deus; só aquilo que é perfeito, sempiterno, onipresente, onipotente, infinito.”    CS pp. 594: 19 

BATISMO. Purificação pelo Espírito; submersão no Espírito.”  CS = Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras de Mary Baker Eddy, pp. 581:24.

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domingo, 20 de janeiro de 2013

AS DUAS VOZES MAIS ANTIGAS DA TRADIÇÃO DE JESUS

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As duas vozes mais antigas

da tradição de Jesus

 

John Dominic Crossan

DePaul University, Chicago, EUA.

 

Há duas duas vozes muito importantes e muito antigas ainda discerníveis [em meio aos textos do Novo Testamento]: a proclamação do Reino a partir de Jesus, que é  continuada na proclamação do Cristo sobre Jesus. Em ambas as vozes carregam em si nuvens de controvérsias, mas, nesta apresentação, meu propósito não será debater tais controvérsias,  e assim tomar uma posição em relação a cada uma delas de maneira a compreender como tais vozes divergentes se desenvolveram dentro da mesma matriz do movimento do Reino. 

 

Primeira seção:

I. A tradição dos ditos originais

 Os eruditos do século XIX que estudaram as conexões textuais evidentes entre os três primeiros Evangelhos – os assim chamados Evangelhos sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas – concluíram muito consensualmente que Marcos foi a primeira fonte utilizada – e utilizada independentemente – por Mateus e Lucas. A minha própria pesquisa tem consistentemente confirmado essa conclusão.

 

A existência do EVANGELHO Q

Após a decisão geral sobre a prioridade marcana, os eruditos perceberam um corpo de material não marcano comum a Mateus e a Lucas com sequências, conteúdos e teologias comuns em número suficiente a ponto de indicar não unidades aleatórias da tradição, mas uma outra fonte escrita muito importante. Os especialistas alemães a denominaram Q, abreviação para die Quelle (alemão para “a  fonte”).

O Evangelho Q é um escrito em grego, mas não guardado em nenhum museu ou biblioteca. Trata-se de uma hipótese necessária – necessária para explicar os dados não marcanos em Mateus e em Lucas. Mais uma vez, minha pesquisa confirmou a validade da segunda conclusão dos eruditos alemães e ela é meu primeiro pressuposto para esta seção.

Prefiro, por falar nisso, chamá-la de Evangelho Q em vez  de fonte Q, com o objetivo de e  enfatizar a sua integridade e não apenas o seu uso. Esse Evangelho Q não tem referencia clara à destruição real de Jerusalém ou de seu templo – como acontece, por exemplo, em Mc 13 – por isso é normalmente datado dos anos 50 do século I.

Nesta apresentação, assim, aceito e assumo a validade da teoria das duas fontes, nomeadamente, que Mateus e Lucas usaram, independentemente, duas fontes independentes – o Evangelho de Marcos e o  Evangelho Q. Obviamente, a única forma de confirmar tais hipóteses é aceitá-las temporariamente e testá-las incansavelmente.

 

A independência do EVANGELHO DE TOMÉ

Há um outro texto importante a ser considerado além do Evangelho Q. Trata-se do Evangelho de Tomé, que não constitui uma hipótese alemã do fim do século XIX, mas um documento copta   de meados do século XX. Desde a sua descoberta em 1945, numa das margens do rio Nilo, a controvérsia Nag Hammadi tem-se  centrado em uma importante questão. Trata-se de uma coleção redigida dos ditos de Jesus extraídos dos três Evangelhos sinóticos – ou mesmo do  Evangelho Q – ou é um texto independente em relação aos outros dois documento?

Ficheiro:Eg-NagHamadi-map.png

O local da descoberta, Nag Hammadi no mapa do Egito

 

Desde o princípio, há eruditos eminentes que se posicionam de ambos os lados do debate. No entanto, a minha própria pesquisa me convenceu a posicionar-me  ao lado daqueles que defendem a questão da independência das fontes. O que me convence é,  primeiramente, o argumento da ordem e, apenas secundariamente, o argumento do conteúdo.

  O Evangelho de Tomé não possui uma narrativa ou uma estrutura temática. Simplesmente, é um apanhado de ditos de Jesus com palavras que unem alguns desses ditos aqui e ali. Se o autor fosse dependente de precedentes intracanônicos – seja copiando-os, seja recordando-os –, não haveria razão para separa tais derivações tão completamente e espalhá-las tão profundamente da maneira como aparecem na composição que chegou até nós.

Aqui está um exemplo do argumento da ordem e da sequência. Imagine alguém ler as séries de nove bem-aventuranças interligá-las em Mt 5,3-11  -  que têm por sequência os pobres, os famintos, os perseguidos –, ou ler as quatro bem-aventuranças em Lc 6,20b-23 – que também têm por sequência os pobres, os famintos, os perseguidos – e, então, em vez de aceitar a óbvia ordem das palavras de “bem-aventurados” e mantê-las juntas, este alguém resolver espalhá-las pelo seu documento da seguinte maneira:

Bem-aventurados os pobres

Evangelho de Tomé 54

Evangelho Q: Lc 6,20 = Mt 5,3

Bem-aventurados os famintos

Evangelho de Tomé 69,2

Evangelho Q: Lc 6,21a = Mt 5,6

Bem-aventurados os perseguidos

Evangelho de Tomé 68 = 69,1

Evangelho Q: Lc 6,22-23 = Mt 5,11-12

 Não teria a preferência do Evangelho de Tomé, pela ordem de palavras, servido para manter a tríade unida – com o grego “bem-aventurado” sendo utilizado como uma palavra emprestada no copta?

 

Os coptas ou coptos em copta, ou.Remenkīmi en.Ekhristianos [literalmente: "cristão egípcio"] são egípcios cujos ancestrais abraçaram o cristianismo no século I. Formam um dos principais grupos etno-religiosos do país.

A língua copta  que floresceu por volta do século III século no Egito Antigo, da família linguística camito-semítica ou afro-asiática.  O alfabeto copta é uma versão modificada do alfabeto grego,  com algumas letras demóticas  utilizadas para representar alguns sons não existentes no alfabeto grego. Como língua cotidiana teve seu apogeu entre o século III e o século VI.  Ainda hoje permanece como língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Copta e da  Igreja Católica Copta. 

O copta é um estágio final da língua  egípcia clássica, e foi falado até o século XVII. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Ficheiro:Coptic Bible.JPG

      Bíblia escrita em copta

 

Nesse sentido, em termos de conclusão, acredito que a tal falta de semelhança em termos de ordem entre a sequência do Evangelho de Tomé e aquela dos evangelhos intracanônicos ou, por assim dizer, do Evangelho Q reconstruído, me forneçe a hipótese de trabalho de que o Evangelho de Tomé é completamente independente em relação a eles.

A propósito, “independência” significa, apenas  e tão somente, o que foi agora proposto. Não se trata de um argumento velado para afirmar nada além deste caso. Enfatizo que a constatação da independência não quer dizer, por exemplo, que o Evangelho de Tomé contenha citaçõesnão redigidas de Jesus carentes de comentários ou contenha recordações sem nenhuma edição teológica posterior. A constatação da independência também não resolve o problema da data original  do texto.

Se o Evangelho de Tomé fosse dependente em relação a um ou mais de um dos Evangelhos sinóticos, ele seria, necessariamente, posterior a eles. No entanto, como se trata de um texto independente, pode ser mais antigo, contemporâneo ou posterior a eles.

Ficheiro:Antonius Kloster BW 7.jpg

Mosteiro copta de Santo Antão, Egito

 

 O desafio da TRADIÇÃO DOS DITOS COMUNS

Uma vez aceita a existência do Evangelho Q e a independência do Evangelho de Tomé, percebe-se que a aproximadamente um terço dos dois Evangelhos é composto das mesmas unidades:

  • 37 dentre as 132 unidades [28%] do Evangelho de Tomé têm paralelo no Evangelho Q.
  • 37 dentre as 101 [37%] do Evangelho Q tem paralelo no Evangelho de Tomé.

Denomino tais 37 unidades de tradição de ditos comuns e, já que não há evidencia de nenhuma sequência comum na distribuição delas por entre os dois Evangelhos, considero que a fonte seja oral e não escrita (ver o Anexo). [previsto para ser postado futuramente neste blog, juntamente com a segunda seção deste texo: A tradição Paulina  X  a tradição de ditos comuns]

Porém, para o meu objetivo presente, a questão mais importante diz respeito à teologia da tradição dos ditos comuns e, em função dos constrangimentos de tempo desta apresentação, respondo à pergunta enfocando estas quatro unidades comuns:

 A semente de mostarda

Evangelho de Tomé  20

Evangelho Q:  Lc 13,18-19 = Mt 13,31-32

Maior que João

Evangelho de Tomé  46

Evangelho Q: Lc 7,28  = Mt 11,11

Bem-aventurados  os pobres

Evangelho de Tomé  54

Evangelho Q: Lc 6,20 = Mt 5,3

 O fermento

Evangelho de Tomé  96,1-2

Evangelho Q:  Lc 13,20-2 =  Mt 13,33

 

O Reino

Embora o Reino seja especificado de forma divergente quadro ditos, todos eles concernem ao Reino divino e transcendental como um conceito escatológico e todos eles se referem à grande limpeza a ser feita por Deus no mundo – aqui embaixo, na terra (respectivamente):

Evangelho de Tomé

Lucas

Mateus

O Reino dos Céus

O Reino

O Reino dos Céus

O Reino do Pai

O Reino de Deus

O Reino de Deus

O Reino de Deus

O Reino de Deus

O Reino dos Céus

O Reino dos Céus

O Reino dos Céus

O Reino dos Céus

 Uma vez que há um consenso historiográfico de que a mensagem e a missão de Jesus diziam respeito ao Reino de Deus, isto coloca a tradição dos ditos comuns em continuação direta com o Jesus histórico.

 

Presença

Mas o Reino é já presente ou será num futuro iminente para a tradição de ditos comuns? Atentemos, por exemplo, ao segundo dito sobre João Batista:

Evangelho de Tomé 46

Lucas 7,28

Mateus 11,11

“Jesus disse: De Adão a João Batista, entre os nascidos de mulher, nenhum foi maior do que João Batista, de modo que seus olhos não serão destruídos. Eu, porém disse que, quem dentre vós se tornar uma criança, reconhecerá o Reino e será maior do que João”.

“Eu vos digo: entre todos os nascidos de mulher não há ninguém maior do que João. No entanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele.”

“Em verdade, eu vos digo, entre todos os nascidos de mulher não surgiu quem fosse maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele.”

 Apesar das diferentes rendições e diferentes redações, a tradição de ditos comuns deve ter contrastado o grande valor de João ao valor ainda maior de estar no Reino. Enquanto João proclamou o advento de Deus como algo num futuro iminente, ao menos temporariamente, a tradição dos ditos comuns permaneceu em continuidade com o Reino já presente de Jesus.

 

Pobreza

Isto também aparece no terceiro dito, onde o Reino já é presente para os pobres e oprimidos deste mundo:

Evangelho de Tomé 54

Lucas 6,20

Mateus 5,3

“Jesus disse: Benditos vós, os pobres, porque a vós pertence o Reino dos Céus.”

“Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”

“Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus.”

Eles não são bem-aventurados agora em razão de um advento futuro, mas podem perceber esse advento aqui e agora.

 

Parábolas

Tanto a primeira quanto a última unidade dos quatro ditos são parábolas e para sublinhar o eschaton presente como um evento participativo, interativo e colaborativo. Não se trata de Deus sem auxílio daqueles que acreditam e nem daqueles que acreditam sem auxílio de Deus.

Como um gênero de discurso, as parábolas atraem e desafiam o ouvinte ou o leitor a fazer uma interpretação. Por isso atraem e desafiam à participação no processo da presença do Reino. De que forma as metáforas como “mostarda” ou “fermento” proclamam o Reino? A parábola é mais precisamente o gênero linguístico apropriado para o eschalon participativo.

Em termos de conclusão, e aos menos a partir deste exame preliminar, a tradição dos ditos comuns se mostra em continuidade muito próxima, tanto em termos do conteúdo quanto da forma, com a proclamação, por parte de Jesus histórico, do desafio participativo de um eschaton movido pela colaboração entre Deus e aqueles que creem.

 

“A continuidade estava no mimetismo, não na mnemônica,

em imitar a vida, não em lembrar palavras.”

John Dominic Crossan, O nascimento do cristianismo, p.441.

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Este texto é parte da versão traduzida da segunda conferência ministrada por John Dominic Crossan em 18.10. 2007 no I Seminário Internacional do Jesus Histórico. Tradução de Monica Selvatici.

Artigo tem por base os seguintes livros: [1] O nascimento do cristianismo. O que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.    [2] Em busca de Paulo. Como o apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao império romano. São Paulo: Paulinas, 2007 (em co-autoria com Jonathan L. Reed).

Também se apoia na conferência proferida pelo autor neste simpósio, na qual proponha que Jesus proclamou não uma limpeza escatológica do mundo num futuro iminente somente por intervenção de Deus, mas uma limpeza escatológica do mundo já presente por meio da colaboração entre os seres humanos e Deus.

Fonte: A descoberta do Jesus histórico. André L. Chevitarese, Gabriele Cornelli, (organizadores), 1ª Edição, São Paulo: Paulinas, 2009. (Coleção quem dizem que sou?).

Amplie seus conhecimentos lendo “As três gerações do cristianismo primitivo” e “O Evangelho segundo Mateus” da postagem “Festejos de Reis” de 03 de janeiro de 2012.

 

Nota: “As duas vozes mais antigas da tradição de Jesus”  foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia no contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica em que seus relatos foram escritos. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e a opinião de estudiosos do texto bíblico, com o objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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 Para refletir:

 

“Venha o Teu reino,

O Teu reino já veio; Tu estás sempre presente.”

[O sentido espiritual da Oração do Senhor – do livro Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, de Mary Baker Eddy, pp. 16-17.]

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

AS TRÊS GERAÇÕES DO CRISTIANISMO PRIMITIVO

 

 

As três gerações

do Cristianismo primitivo

 

As três gerações cristãs primitivas, referem-se  às primeiras comunidades desde sua origem após a paixão, morte e ressureição de Jesus até a redação do último escrito do Segundo Testamento, em torno do ano 140. Todo esse tempo pode ser dividido em três etapas.

 

A primeira é conhecida como época apostólica. É a primeira geração de seguidoras e seguidores de Jesus de Nazaré. São aqueles que conheceram Jesus ou que aderiram a ele ainda nos primeiros anos do movimento cristão. A época apostólica vai  desde o ano 30 até em torno de 67, quando provavelmente os primeiros seguidores de Jesus já haviam morrido ou haviam sido mortos.

Esse período apostólico(entre 30 e 67) pode ser dividido em dois momentos claramente distintos. O primeiro é anterior à assembleia de Jerusalém em 49, também  conhecida por concílio de Jerusalém. Tal como do tempo de Jesus, não temos nenhum escrito bíblico desse período. O que sabemos, além das informações do historiador judeu Flávio Josefo, vem de escritos posteriores.

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O lavatório – Tintoretto

 

O segundo momento da época apostólica vai desde o concílio de Jerusalém até em torno de 67. É o tempo áureo da missão de Paulo e sua equipe pastoral.

O segundo período das comunidades primitivas é a chamada época subapostólica. É o tempo da segunda geração de cristãos. Esse tempo corresponde aos anos que vão desde, mais ou menos, 67 até por volta de 97, quando então inicia o período pós-apostólico, isto é, a terceira geração de comunidades cristãs.

A primeira geração de cristãos pertencentes às comunidades    que mais tarde deram origem ao Evangelho de Mateus certamente viveram inicialmente na Judéia. Entre os apóstolos, Pedro é seu grande protagonista.

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Anthonis van Dyck - Die Ausgießung des Heiligen Geistes

 

Entre os evangelhos, é  Mateus quem mais importância dá à figura de Pedro (Mt 16:17-19).  Ao copiar de Marcos a profissão de fé de Pedro (Mc 8:27-30), Mateus acrescentou os versículos 17-19. De fato, Mateus é o  Evangelho das comunidades de herança dos apóstolos e familiares de Jesus.

Chamados de comunidades de Tiago aquelas que foram fundadas pelos apóstolos como Pedro, ou que atribuem sua origem a eles. Um dos líderes importantes dessas igrejas foi Tiago, irmão de Jesus (Gl 1:18-19; 2:9; At 15:6-21). Quando ele foi martirizado em 62, seu irmão Judas o substituiu na direção das igrejas de Jerusalém.

Diferentemente das comunidades de herança paulina, eram igrejas em que as pessoas vindas do Judaísmo eram a grande maioria. A tradição judaica ainda ocupava um lugar central. Estavam ainda muito ligadas à observância da Lei.

Podemos classificar como herança das igrejas dos apóstolos e de Tiago o Evangelho segundo Mateus, a Carta de Tiago e a Carta de Judas. Tanto Tiago como Judas além de  familiares de Jesus(Mc 6:3) dirigiam as comunidades de Jerusalém.

 

O Evangelho Segundo Mateus

Cada  evangelho teve sua   redação a partir da compreensão sobre a pessoa de Jesus de quem o escreveu. Mateus vê Jesus como Emanuel, o Deus-conosco no mundo e na história para nos ensinar o caminho da justiça. É, junto com o mestre da justiça, que podemos construir um mundo melhor.

 

Data, local e destinatários

O Evangelho de Mateus foi escrito no final dos anos 80 d.C. Certamente, as comunidades que o editaram viviam na Palestina, talvez na Galileia, numa região em que predominavam igrejas formadas por pessoas de origem judaica.

Com a guerra judaico romana, muitos membros  dessas comunidades da Judéia mudaram-se para a direção da Galileia, Síria ou outros lugares. Essa imigração se intensificou com a perseguição sofrida por parte de lideranças das sinagogas nos anos 80 e 90.  Nessa época, os judeus-cristãos foram expulsos das sinagogas pelos rabinos fariseus que passaram a liderar o Judaísmo a partir de 70. Muitos cristãos da Judéia devem ter se estabelecido na Galileia e na Síria.

Observa-se também  no Evangelho de Mateus, além do conflito com a sinagoga, tensão com cristãos vindo de outras  culturas. Como no caso das comunidades paulinas que defendiam uma nova justiça divina, dada gratuitamente por Deus a quem crê em Jesus.

Confira ainda algumas das seguintes citações e perceba como as comunidades destinatárias de Mateus são formadas por pessoas sem terra (5:1-5), desempregadas(20:1-16), migrantes(2:13-23; 4:13-16 , 24-25; 19:1), perseguidas(5:10-12; 23:13-32) e pobres(11:25-26; 6:25-34; 15:32; 25:31-46).

 

Autores e fontes

Seus autores devem ser escribas judeus-cristãos, convertidos ao cristianismo (Mt3:52).  Em meados do segundo século, os pais da Igreja homenagearam Mateus(Mt 9:9; 10:3), atribuindo a ele este evangelho. Ao agirem desta forma, queriam colocar a obra sob a autoria de um discípulo de Jesus.

Os autores deste Evangelho, isto é, a escola dos rabinos cristãos, naturalmente eram profundos conhecedores das Escrituras judaicas. O texto que usaram para fazer transcrições para seu escrito é da versão grega das Escrituras, a Septuaginta. Além  do Evangelho de Lucas e Marcos, como texto-base. Bem como a fonte “Q”, inserindo 230 versículos desta obra.

 

Fonte “Q”

Na pesquisa bíblica, existe uma hipótese de que houve na Galiléia uma corrente cristã que apresentava Jesus como um Messias sábio e mestre. Essa tendência valorizava seus ditos, suas palavras e seu ensino. Não davam tanto valor à sua paixão, morte e ressureição. Seria um movimento ligado a círculos sapienciais que, apesar de seu radicalismo em seguir de perto o mestre, apresentam um Jesus que não incomoda as instituições opressivas da época. 

Segundo a hopótese, e há evidencias literárias para isso, essa corrente cristã teria produzido o documento “Q”. É assim chamado, porque esta é a primeira letra da palavra alemã Quelle (fonte).

Até hoje, pelo menos, nada a respeito foi encontrado. Se existiu, está perdido. Essa fonte seria o segundo documento usado por Mateus e Lucas  ao escreverem nos anos 80  d.C. O primeiro foi o Evangelho de Marcos cujo material já era conhecido há uns 15 anos antes. O conteúdo da fonte “Q” seriam os textos comuns a Mateus e Lucas, porém ausentes em Marcos.

 

Comentário final

Convém destacar, que um dos objetivos de Mateus é deixar claro que o Evangelho é para todos os povos na medida em que o centro dessa universalidade seja o Judaísmo. Os demais povos devem “vir do oriente e do ocidente e se assentar à mesa do Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó” (Mt 8:11).

As igrejas mateanas estão abertas as pessoas de outras culturas, apresentando Jesus como Emanuel - “Deus  conosco” (Mt1:23).

 

Fonte:

1. BOCCACCINI, Gagriele. Além da hipótese essênica: a separação dos caminhos entre Qumran e o judaísmo enóquico. São Paulus, 2010.

2. STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus. São Paulo: Paulus. (Série “Como ler a Bíblia”).

3. GASS, Ildo Bohn. As comunidades da segunda geração cristã. São Leopoldo: CBEI (Curso Bíblico por Correspondência: Módulo 12).

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

MARIA VAI COM AS OUTRAS

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1ª Oficina Bíblica de Férias – Garuva, SC, Brasil -

janeiro de 2011

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Os estudos bíblicos se constituem numa vibrante área de pesquisa que publica de forma intensa. Isso deve-se ao facínio que os textos antigos exercem sobre os leitores contemporâneos, seja como texto de saber histórico, seja como texto que sempre se mostra aos leitores de forma renovada.

Por isso, a Bíblia é estudada numa riqueza de perspectivas, abordagens, métodos  e hermenêuticas. Ao interesse pelo texto bíblico soma-se a busca por sua origem, da mesma forma que pelos textos que lhe são vizinhos: os apócrifos, pseudepígrafos, os Manuscritos do Mar Morto. Gabrielle Boccaccini - leciona no Departamento de Estudos do Oriente Próximo da  Universidade de Michigan, E.U.A..

 

Comentários sobre relatos bíblicos:

 

MARIA VAI COM AS OUTRAS

do livro escrito por Nancy Cardoso Pereira

 

Normalmente, quando se pergunta a uma pessoa quem foi Maria Madalena, ela responde quase sem pensar: “uma pecadora arrependida”. No entanto, nenhum texto do evangelho diz que Maria Madalena foi pecadora pública.

Que dizem os evangelhos sobre ela?

Nos evangelhos, Maria Madalena é a mulher mais citada pelo nome. Além disso, ela aparece sempre realizando funções muito importantes para as origens do Cristianismo:

▪ como discípula de Jesus (Lc 8,1-3).
▪ como testemunha da sua crucifixão (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49; Jo 19,25).
▪ como testemunha do seu sepultamento (Mc 15,47; Mt 27,61).
▪ como testemunha da sua ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1;20,11-8).
▪ como enviada aos Onze com uma mensagem de Jesus (Mt 28,10; Jo 20,17-18).

 

Chama a atenção o fato de Maria Madalena ser citada em primeiro lugar em todos estes textos. A única exceção é Jo 19,25, onde a mãe de Jesus aparece em primeiro lugar. A citação de Maria Madalena em primeiro lugar, parece indicar sua liderança no grupo das discípulas de Jesus.

Além disso, o Evangelho de Marcos deixa claro que ela e suas companheiras eram modelo para as pessoas da comunidade que buscavam seguir Jesus: Elas o seguiam e serviam quando estava na Galiléia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém” (Mc 14,40-41).

Sabemos que o serviço amoroso é uma das características que marcava a identidade dos discípulos e discípulas de Jesus, segundo a comunidade de João: “Vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (Jo 13,14-15).

Na comunidade de Marcos, a pessoa mais importante é aquela que se coloca a serviço de todos (Mc 9,35). Então, como foi que transformaram a discípula modelo em pecadora arrependida?

ícone moderno da Madalena e Yeshua, pintado por Christina Miller de IconFusion.com.

Ícone moderno da Madalena e Yeshua,

pintado por Christina Miller

 

Que horror, ela tinha sete demônios!

Teriam interpretado mal a expressão “Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios”? (Lc 8,2) Esta expressão, que aparece somente em Lucas e no apêndice de Marcos (Lc 8,2; Mc 16,9), criou uma série de preconceitos contra Maria Madalena.

Mas para o Evangelho de Lucas, a possessão não significa pecado e, sim, doença. O número 7, sempre simbólico, parece indicar a gravidade da situação. Dentro do contexto de Lucas, podemos interpretar que Maria Madalena padecia de uma grave doença nervosa ou psicossomática. No encontro com Jesus, ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.

 

Seu gesto era de arrependimento e muito amor

Teriam confundido Maria Madalena com a pecadora anônima que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os secou com seus cabelos? (Lc 7,36-50)

Porém, não há neste texto de Lucas nenhuma relação entre a moça do perfume e Maria Madalena. Segundo o texto de Marcos, que já citamos, Maria Madalena seguia Jesus desde a Galiléia. Portanto, ela devia ser conhecida na tradição por seu nome: Maria, e sua procedência: Magdala.

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Magdala ("torre") foi uma pequena aldeia, aparentemente situada na Galiléia. O nome que aparece na Versão Revista de Mateus 15:39 para Magdala é Magadan. É provavelmente outro nome para o mesmo lugar, ou então era outra aldeia tão próxima que a costa a que Jesus acostou poderia ter pertencido a qualquer uma das duas terras.

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O Talmude menciona dois lugares com o nome de Magdala. Um deles situava-se no leste, no Yarmuk perto de Gadara (na Jadar medieval, hoje Mukes), recebendo assim o nome de Magdala Gadar. Existia outra Magdala, mais conhecida, perto de Tiberíades Magdala Nunayya ("Magdala dos Peixes"), o que a colocaria na costa do lago. Flávio Josefo menciona uma cida,de Galileia destruída pelos romanos na Guerra Judaica. (III, x) com o nome grego de Taricheæ (Josefo não fornece o nome hebraico), rica devido às suas prósperas pescarias. (Wikipédia, a enciclopédia livre)______________

A mulher que é apresentada neste texto de Lc 7,37 parece que não pertencia à comunidade dos discípulos e discípulas. É uma mulher marginalizada, anônima, corajosa e decidida, que toma a iniciativa de entrar na casa de Simão, o fariseu, e fazer com Jesus o rito de acolhida que seu anfitrião havia omitido. Rito que era muito importante para as pessoas que percorriam longas distâncias a pé, pelas estradas poeirentas da Palestina.

 

Quanta confusão!

E a confusão continua, pois aquela mulher anônima do episódio narrado por Lc 7,36-50 passou a ser identificada com as mulheres anônimas que ungiram Jesus para a sepultura (Mc 14,3-9 e Mt 26,6-13). Uma leitura atenta destes textos vai mostrar que os ritos que realizam são diferentes.

No texto de Lucas, o próprio narrador trata de esclarecer que se trata de um rito de acolhida e coloca esta explicação no diálogo de Jesus com Simão. Nos Evangelhos de Marcos e de Mateus, o rito está situado no contexto da Páscoa. Marcos faz questão de informar que faltavam apenas dois dias para a Páscoa e os Ázimos (Mc 14,1). Mostra que o contexto era conflitivo, pois a execução de Jesus já estava decidida: “os chefes dos sacerdotes e os fariseus apenas procuravam um ardil para matá-lo” (Mc 14,1b).

É justamente neste contexto que está a unção de Jesus, feita por uma mulher anônima (Mc 14,3-9). O texto de Marcos está muito próximo do texto de João 12,1-8. Tanto Marcos como João nos contam que o perfume derramado pela mulher no corpo de Jesus era nardo puro (Mc 14,3 e Jo 12,3).

Marcos nos informa ainda que este episódio da unção para a sepultura se passou em Betânia (Mc 14,3). Tudo isso parece ligar os textos de Marcos, Mateus e João (Mc 14,3-9; Mt 26,6-13 e Jo 12,1-8) e ajuda a compreender a importância desde ritual. Sua protagonista parece ser Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro. O gesto de unção de Jesus para a sepultura é ao mesmo tempo profético e solidário com seu projeto e sua entrega sem limites.

Maria Madalena em ícone da Igreja Ortodoxa Russa, carregando mirra para ungir o corpo morto de Jesus

Maria Madalena em ícone da Igreja Ortodoxa Russa,

carregando mirra para ungir o corpo morto de Jesus

 

Mulher chorona, de cabelos compridos e perfumados

A imagem de Maria Madalena está ligada a cabelos compridos, perfume e lágrimas. Sabemos que a tradição das lágrimas está relacionada à sua angustiosa busca do corpo de Jesus, naquela madrugada do primeiro dia da semana (Jo 20,1.11-18). Mas perfume e cabelos longos expressam a identificação de Maria Madalena com Maria de Betânia, a irmã de Marta, que segundo o Evangelho de João foi quem ungiu Jesus para o sepultamento (Jo 12,1-8).

E aqui vale a pena falar um pouco mais de Maria de Betânia, a discípula que gostava de ficar sentada aos pés de Jesus, escutando-o (Lc 10,39). Discípula amada (Jo 11,5), que consegue encher a casa (comunidade) de perfume (Jo 12,3). Seu gesto amoroso será repetido por Jesus na celebração da Ceia (Jo 13,2-5). Segundo Jesus, em memória dela, seu gesto seria contado onde quer que fosse proclamado o evangelho (Mc 14,9).

Ícone Ortodoxo mostrando Madalena com o Red Eg

Ícone Ortodoxo mostrando Madalena com o Red Eg

 

Ela foi investida de autoridade

Maria permaneceu no jardim, procurando Jesus, depois que Pedro e o outro discípulo foram embora. Ela chorava angustiada e confundiu Jesus com o jardineiro. No entanto, ela o reconhece imediatamente quando Jesus a chama pelo nome. Em toda a Bíblia, chamar pelo nome faz parte dos relatos de missão.

Às vezes, acontece mudar o nome, para indicar a missão que a pessoa vai realizar. Mas, em Jo 20,16, Jesus a chama pelo nome com que sempre a havia chamado - talvez do mesmo jeito e com o mesmo tom de voz. E provavelmente Maria responde também da maneira como sempre o tratou: Rabuni.

Sem pretender ser fundamentalista, quero mostrar como neste relato simbólico se revela a importância da missão de Maria Madalena nas primeiras comunidades cristãs: Maria é chamada pelo nome; reconhece imediatamente a voz de Jesus; chama-o de Mestre em aramaico; depois, é enviada por Jesus com uma mensagem para os outros discípulos. Da maneira como este episódio é descrito, parece um evento de fundação, no qual Maria Madalena foi investida de autoridade.

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De onde vem a confusão?

Esta confusão a respeito de Maria Madalena pode ter muitas causas. Uma delas pode ser uma leitura muito rápida dos textos bíblicos, ou mesmo um exemplo da pouca importância que se dá à memória do discipulado das mulheres. Até pode ser que a intenção tenha sido a de buscar na figura de Madalena como uma pecadora arrependida um apelo à conversão, mostrando como todos os pecados podem ser perdoados quando a pessoa se arrepende.

No entanto, parece haver uma intenção menos explícita, parecida com estas propagandas que hoje se faz através das novelas. De maneira sutil, a deturpação da figura de Maria Madalena mantém uma velha atitude de suspeita em relação às mulheres, passando a ideia de que sua natureza e seus corpos são espaços perigosos, de possessão demoníaca, identificada com pecado. Os corpos inferiorizados e culpabilizados são mais facilmente submetidos.

Desta maneira, a discípula fiel, que acompanhou Jesus durante sua vida pública, a amiga e companheira que esteve presente na crucifixão e que permaneceu diante do túmulo; aquela que fez a maravilhosa experiência da ressurreição, podendo afirmar com toda a convicção: “Vi o Senhor!”, foi transformada em pecadora arrependida.

Mesmo que esta deturpação da figura de Maria Madalena não fosse muito consciente, ela é um desvelamento do medo que o androcentrismo tem de perder o poder. Se a tradição da discípula e apóstola permanecesse, haveria o perigo de que as mulheres descobrissem a sua importância nas origens do Cristianismo e se sentissem animadas a assumir com autoridade, dignidade e pleno direito seus espaços de reflexão, decisão e também no ministério ordenado das igrejas cristãs. Estariam lado a lado com os homens, mantendo a memória fiel de Jesus de Nazaré, fazendo circular o amor pleno e sem medo, exercendo o poder de defender e fortalecer a vida.

 

Nota: O  texto  MARIA VAI COM AS OUTRAS de Nancy Cardoso Pereira   não representa necessariamente a opinião deste blog nem de nenhuma das igrejas do Movimento da Ciência Cristã. Foi publicado para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

JESUS SEMPRE COMEÇA A CURAR LIBERTANDO DE UM DEUS OPRESSOR

 

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 Fotos: banho no rio Três Barras e brincadeira na chuva – atividades de lazer da

 

1ª Oficina Bíblica de Férias: “Como estudo a Lição-Sermão”

Janeiro de 2011 -  Garuva, SC, Brasil. _____________________________    

Conteúdo desta postagem:

 I. Comentários sobre relatos bíblicos:  

 

- Nos Evangelhos não se aprende doutrina mas sim uma forma de

estar no mundo (Entrevista com José Antonio Pagola)

- Jesus sempre começa a curar libertando de um Deus      opressor:  Aquele que cura (José Antonio Pagola)

 II. Para pensar: citação do livro Ciência e Saúde com a Chave das

                               Escrituras de Mary Baker Eddy. )

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I. Comentários sobre relatos bíblicos

 

Os estudos bíblicos se constituem numa vibrante área de pesquisa que publica de forma intensa. Isso deve-se ao facínio que os textos antigos exercem sobre os leitores contemporâneos, seja como texto de saber histórico, seja como texto que sempre se mostra aos leitores de forma renovada.

Por isso, a Bíblia é estudada numa riqueza de perspectivas, abordagens, métodos  e hermenêuticas. Ao interesse pelo texto bíblico soma-se a busca por sua origem, da mesma forma que pelos textos que lhe são vizinhos: os apócrifos, pseudepígrafos, os Manuscritos do Mar Morto.(Gabrielle Boccaccini - leciona no Departamento de Estudos do Oriente Próximo da  Universidade de Michigan, EUA.)

 

Nos Evangelhos não se aprende doutrina mas sim uma forma de estar no mundo

 

Parte final da entrevista com José Antonio Pagola, da reportagem de Cristina Turrau, publicada no sítio “Diario Vasco”, 26-01-2012, tradução de Moisés Sbardelotto:

 

Não são poucas pessoas que vivem o seu interior com imagens falsas de Deus que lhes faz viver sem dignidade e sem verdade. Sentem-No, não como uma presença amistosa que convida a viver de forma criativa, mas como uma sombra ameaçadora que controla a sua existência.

 

[...] A mensagem de Jesus é de plena atualidade, o senhor defende.

Eu me dou conta de que as pessoas, nesta sociedade que parece superficial, sentem a necessidade de viver de uma maneira diferente, sem saber exatamente como. Buscamos uma vida mais digna, saudável e feliz, algo que não é fácil. E o que eu tento demonstrar é que Jesus oferece um horizonte mais humano e uma esperança. Assim perceberam os primeiros cristãos.

 

Com seus livros, o senhor busca ser um mediador?

Trabalho com grupos distintos, falo com as pessoas e observo que não se busca mais técnica, nem mais ciência, nem mais doutrina religiosa. Buscamos algo, mas não sabemos como formular essas questões que levamos dentro.

 

Quais são as diferenças entre os quatro Evangelhos?

Os Evangelhos são quatro pequenos escritos. O primeiro é o de Marcos, que aparece em torno do ano 70, provavelmente depois da destruição de Jerusalém. Depois vêm os de Mateus e de Lucas, entre os anos 70 a 90. E, por último, já passado o ano 100, aparece o de João. Mas podemos dizer que os autores não são apóstolos. A elaboração dos textos é muito complexa. Eu analiso a vida de Jesus a partir de quatro relatos que nasceram da sua recordação. E cada um deles tem sua própria maneira de ressaltar, sublinhar e ordenar essas recordações.

 

Dê-nos uma pincelada de especialista:

 

Marcos.

É o Evangelho mais breve. Pode ser lido em uma hora. Ocupou um lugar muito discreto ao longo da história. E, no entanto, há um interesse crescente nele, porque nos oferece a figura de Jesus com mais frescor. Ele remonta a tradições antigas, e Mateus e Lucas o utilizaram para os seus evangelho.

JESUS NO TEMPLO 2

 

Mateus.

É o evangelho mais longo e, em boa parte, segue Marcos, mas acima de tudo se caracteriza por seus grandes discursos. É o do Sermão da Montanha, das Bem-aventuranças ou das parábolas de Jesus, inesquecíveis. É o mais rabínico, provavelmente obra de um judeu que se tornou cristão.

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Lucas.

Eu o recomendo para quem queira ler um evangelho inteiro e de uma vez só para ter uma ideia de como Jesus foi lembrado. Tem o evangelho da infância, muito poético. E é onde se destaca a bondade de Deus, sua compaixão e misericórdia, por exemplo, na parábola do filho pródigo.

 Christ in the House of His Parents<br />Sir. John Everett Millais  Cristo na casa de seus parentes – Sir. John Everett Millais

 

João.

É um evangelho mais complexo, com uma cristologia muito elaborada. É mais teológico do que os demais.

 

Por que o lado humano de Jesus assusta?

Jesus atrai, mas é perigoso, porque é muito radical. Se você se aprofundar na ideia de que os últimos serão os primeiros, ou que você não pode servir a Deus e ao dinheiro, a vida muda. Jesus é muito sedutor, mas arriscado. Como disse algum agnóstico, é difícil dizer que ele não tem razão. [...]

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JESUS SEMPRE COMEÇA A CURAR  LIBERTANDO DE UM DEUS OPRESSOR

 

Aquele que cura

 

José Antonio Pagola

por IHU - Instituto Humanitas Unisinos

 

Segundo Marcos, a primeira aparição pública de Jesus foi a cura de um homem possuído por um espírito maligno na sinagoga de Cafarnaum. É uma cena impressionante, narrada para que, desde o início, os leitores descubram a força de Jesus que cura e que liberta.

É sábado e o povo encontra-se reunido na sinagoga para escutar o comentário da Lei explicada pelos escribas. Pela primeira vez Jesus vai proclamar a Boa Nova de Deus precisamente no lugar onde se ensina oficialmente ao povo as tradições religiosas de Israel.

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As pessoas ficam surpreendidas ao escutá-lo. Têm a impressão de que até agora estiveram a escutar notícias velhas, ditas sem autoridade. Jesus é diferente. Não repete o que ouviu a outros. Fala com autoridade. Anuncia com liberdade e sem medos de um Deus Bom.

De repente um homem «põe-se a gritar: Vieste acabar conosco?». Ao escutar a mensagem de Jesus, sentiu-se ameaçado. O seu mundo religioso derruba-se. Diz-nos que está possesso por um «espírito imundo», hostil a Deus. Que forças estranhas o impedem de continuar a escutar Jesus? Que experiências más e perversas lhe bloqueiam o caminho até o Deus Bom que lhe anunciam?

Jesus não se acovarda. Vê o pobre homem oprimido pelo mal, e grita: «Cala-te e sai dele». Ordena que se calem essas vozes malignas que não o deixam encontrar-se com Deus nem consigo mesmo. Que recupere o silêncio que cura o mais profundo do ser humano.

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O narrador descreve a cura de forma dramática. Num último esforço para destruí-lo, o espírito «retorceu-o e, dando um grito muito forte, saiu». Jesus conseguiu libertar o homem da sua violência interior. Pôs fim às trevas e ao medo a Deus. Daí em diante poderá escutar a Boa Nova de Jesus.

Não são poucas pessoas que vivem o seu interior com imagens falsas de Deus que lhes faz viver sem dignidade e sem verdade. Sentem-No, não como uma presença amistosa que convida a viver de forma criativa, mas como uma sombra ameaçadora que controla a sua existência. Jesus sempre começa a curar libertando de um Deus opressor.

As Suas palavras despertam a confiança e fazem desaparecer os medos. As Suas parábolas atraem para o amor à Deus, e não para a sustentação cega da lei. A Sua presença faz crescer a liberdade, não os servilismos; suscita o amor à vida, não o ressentimento. Jesus cura, porque ensina a viver apenas da bondade, do perdão e do amor que não exclui ninguém. Cura porque liberta do poder das coisas, do autoengano e da egolatria.

 

José Antonio Pagola, teólogo e ex-vigário geral da diocese de San Sebastián, na Espanha, apresentou nesta quarta-feira, 25 de janeiro de 2012, em Donostia, seu livro El camino abierto por Jesús: Marcos (Ed. Desclée de Brouwer). Tornou-se um best-seller que está sendo publicado nestes dias em croata, francês e russo.

 

Nota: Os  textos postados (Entrevista: Evangelhos não se aprende doutrina mas sim uma forma de estar no mundo; Jesus sempre começa a curar libertando de um Deus opressor -  Aquele que cura de José Antonio Pagola)  não representam necessariamente a opinião deste blog nem de nenhuma das igrejas do Movimento da Ciência Cristã. Foram publicados para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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II. Para pensar:

“Igreja, mais do que qualquer outra instituição, é, no momento, o cimento da sociedade, e deveria ser o baluarte  da liberdade civil e religiosa”. (Miscellaneous Writings 1883-1896, pág.144 - Mary Baker Eddy)

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