Mostrando postagens com marcador Origem do Evangelho de Mateus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Origem do Evangelho de Mateus. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de novembro de 2014

O PORQUÊ DAS DIFERENÇAS ENTRE OS EVANGELHOS

____________________________________
 


Comentário sobre relato bíblico

Os estudos bíblicos se constituem numa vibrante área de pesquisa que publica de forma intensa. Isso se deve ao fascínio que os textos antigos exercem sobre os leitores contemporâneos, seja como texto de saber histórico, seja como texto que sempre se mostra aos leitores de forma renovada.

Por isso, a Bíblia é estudada numa riqueza de perspectivas, abordagens, métodos  e hermenêuticas. Ao interesse pelo texto bíblico soma-se a busca por sua origem, da mesma forma que pelos textos que lhe são vizinhos: os apócrifos, pseudepígrafos  e  os Manuscritos do Mar Morto. Comentário de Gabrielle Boccaccini, Departamento de Estudos do Oriente Próximo da  Universidade de Michigan, E.U.A

 
 
O porquê das diferenças entre os evangelhos
 
 Edmilson Schinelo

 

Os evangelhos não são biografia de Jesus. Quando foram escritos, não tinham a intenção de narrar nos detalhes o que se passou com o Nazareno. Com certo grau de humor, costumamos dizer o seguinte: se quisermos saber direitinho como foi a vida de Jesus, teremos que esperar nossa ressurreição e perguntar a ele. Mas é possível que a pergunta não faça mais sentido. Agora, se desejamos conhecer a experiência que as primeiras comunidades fizeram à luz do que Jesus disse e fez, aí sim podemos ler os evangelhos. E como as comunidades eram diferentes entre si, é normal que um mesmo fato a respeito da vida de Jesus tenha sido registrado de forma diferente por cada comunidade.

Para nosso olhar de fé, sabemos que a inspiração divina permitiu essa multiplicidade de relatos exatamente para que pudéssemos seguir aprendendo que as diferenças nos enriquecem e nos complementam. Se assim não fosse apenas um evangelho teria sido suficiente.

 

As diferenças entre os evangelhos, portanto, são fruto em primeiro lugar da vontade divina. Mas também de outras condições. Vejamos algumas.

1. Diferentes maneiras de se contar um mesmo fato

Em sua vida pública, Jesus constituiu um movimento itinerante, formado de mulheres e homens (veja Lc 8,1-3) e andou por cidades e povoados anunciando o Reino, curando as pessoas e propondo um jeito novo de viver. As coisas que disse e fez não foram anotadas de imediato, foram gravadas na mente e no coração das pessoas, que passaram a contar para seus filhos e filhas, na catequese, nas celebrações, na vida das primeiras comunidades. A isso nós chamamos de tradição oral. Somente mais tarde teve início o processo de redação dos textos, incialmente em forma de pequenas coleções (ditos de Jesus, relatos da paixão, coleção de parábolas, coleção de milagres etc). Ora, é evidente que um mesmo fato ou uma fala que tivessem um núcleo comum adquirissem “caminhos” e tradições diferentes na medida em que eram transmitidos “de boca em boca” por diferentes grupos. Na Bíblia também funciona o famoso “quem conta um conto aumenta um ponto”.

 

Esta é uma das razões porque um relato difere do outro (confira, a título de curiosidade, o relato do episódio de Jesus caminhando sobre as águas na versão de Mc 6,45-52 e na versão de Jo 6,16-21; se quiser, confira também com Mt 14,22-33). Veja também como a oração do Pai Nosso é diferente em Lc 11,1-4 e em Mt 6,9-13.

 

2. Épocas e contextos diferentes

Tomemos o seguinte exemplo: por defender a floresta e o povo empobrecido da Amazônia, contrariando os interesses das elites e do capital internacional, Chico Mendes foi assassinado em 22 de 1988, em Xapuri, no Acre. Seu testemunho repercute até hoje. Imaginemos o quanto seriam diferentes as histórias de sua vida se escritas nos anos que sucederem sua morte por gente ainda sofrendo ameaças, das histórias contadas por seus familiares e escritas por um neto seu que não o conheceu pessoalmente, 30 anos depois, já vivendo no Rio de Janeiro. Bem diferente seria também uma versão escrita por uma pessoa de algum país europeu que apenas escutou relatos orais. É impossível que a situação de quem escreve não se reflita no texto.

O mesmo aconteceu com os evangelhos. Ao escreverem os textos, as comunidades também foram influenciadas pelo contexto em que viviam.  Por volta do ano 70, época da destruição de Jerusalém pelos romanos, deve ter surgido o evangelho de Marcos, o primeiro dos quatro. Em várias passagens texto de Marcos é bastante marcado pelo silêncio e pelo medo. Em Marcos, Jesus morre em situação de abandono (compare Mc 15,33-39 com Jo 19,28-30). É como se a comunidade cristã, enfrentando a guerra e o massacre, estivesse repetindo o salmo: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste! (Sl 21,2). Cerca de 30 anos mais tarde, quando a comunidade de Joao relata o mesmo fato, já quer destacar um Jesus senhor da história e vencedor da morte, em condições de ele mesmo entregar o seu espírito, dizendo que tudo está consumado (Jo 19,30). Diferença de contextos.

3. Destinatários diferentes

Nos dias de hoje os evangelhos se destinam às nossas comunidades de fé. Mas à época em que foram escritos, tiveram destinatários diferentes. O evangelho de Mateus foi escrito para comunidades judaico-cristãs. É comum que acentue aspectos importantes para o judaísmo, como, por exemplo, o pleno cumprimento da lei (Mt 5,17-18). Enquanto em João o próprio Jesus viaja pela Samaria com seus discípulos (Jo 4), em Mateus ele diz que os discípulos não devem entrar em terras de samaritanos (Mt 10,5). O evangelho de Lucas tem como destinatárias as comunidades cristãs do mundo greco-romano, menos presas às tradições judaicas. O texto de Mt 10,5 não caberia no evangelho de Lucas. 

4. Diferentes acentos teológicos

No essencial os evangelhos coincidem: Deus envia se filho ao mundo, ele forma um grupo de seguidoras/es e vive servindo os pobres; sua forma de agir acaba desagradando as autoridades judaicas e romanas e por esse motivo é assassinado na cruz; mas ressuscita e as primeiras anunciadoras do novo são as mulheres. Esse fio comum perpassa os quatro relatos: Marcos, Mateus, Lucas e João.

Entretanto, cada evangelho tem sua especificidade teológica. Marcos apresenta Jesus como um curador da vida, alguém que passa a maior parte do tempo curando as pessoas e expulsando demônios. Mateus, por sua vez, insiste nos longos discursos de Jesus, apresentando-o como um rabino, um mestre da justiça. A dimensão do perdão e da salvação universal e mais destacada em Lucas do que em Mateus e Marcos. Para João, Jesus é o verbo que sempre existiu, mas ao se encarnar, ensina-nos a viver um discipulado de iguais.

Outro exemplo: na genealogia de Mateus, Jesus é descendente de Abraão (Mt 1,2). Como Abraão é pai do povo de Israel, Jesus é, portanto, um bom judeu. Já em Lucas, Jesus não é descendente apenas de Abraão, mas de Adão (Lc 3,38). Em sua visão mais universalista, Lucas apresenta Jesus não como filho do povo judeu, mas de toda a humanidade.

5. Uso diferente de textos do Primeiro Testamento

Dado o seu interesse teológico diferente ou mesmo a diferente tradição que preservou o fato, as comunidades também recorrem a diferentes textos que teriam sido ditos por Jesus em momentos específicos. No episódio da expulsão dos vendilhões do templo, de acordo com Marcos, Jesus teria dito: Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos, mas vocês fizeram dela um covil de ladrões. Já de acordo com o texto de João, as palavras de Jesus teriam sido outras: Não façam da casa de meu pai uma casa de comércio. Na verdade, enquanto o texto de Marcos recorre a Is 56,7 e a Jr 711, João faz uso de Zc 14,21. Ainda conforme João, os discípulos teriam se lembrado do Sl 69,10:O zelo por tua casa me devovará.

Outro exemplo é a última frase que Jesus teria dito na cruz, antes da morte. Enquanto Marcos cita o Salmo 22,2 (Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!), Lucas cita o Salmo 31,6: Em tuas mãos entrego o meu espírito!

No relato da infância de Lucas, depois de nascer, Jesus volta de Jerusalém para a Galileia, não teria ido morar no Egito (cf Lc 2,39-40). Em Mateus, como Jesus e comparado a Moisés, ele vai morar no Egito, é perseguido por um novo faraó (Herodes), tem a ajuda dos magos (como Moisés teve das parteiras) e proclama, no monte a nova Lei, as Bem-aventuranças (Mt 5.1-12). Trata-se, na versão de Mateus de uma releitura do êxodo, como Oseias já havia feito: Do Egito chamei o meu filho (Os 11,2).

6. Um exercício prático

Tomemos o relato das mulheres indo ao túmulo na madrugada da ressurreição, presente nos quatro evangelhos: Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-11 e Jo 20,1-18. Muitas diferenças podem ser observadas entre os relatos. Propomos aqui que identifiquemos apenas algumas, com base na resposta às seguintes perguntas: a) quem são as mulheres que vão ao túmulo na madrugada da ressurreição? Quem está lá para avisar as mulheres que Jesus está vivo ou para dirigir-lhes alguma palavra? Qual a reação das mulheres?

Comecemos pela segunda pergunta: em Marcos, encontramos um jovem de branco. A versão de Mateus se inspira em Marcos, mas no lugar do jovem aparece um anjo. Lucas também se inspira em Marcos, mas fala de dois homens com vestes resplandecentes. Tanto em Mateus como em Lucas funcionou o “quem conta um conto aumenta um ponto”. João menciona dois anjos, possivelmente por fazer referência ao novo jardim não manchado pela morte (Jo 19,41). Se no antigo jardim Deus colocou os querubins para impedir que o ser humano chegasse à árvore da vida (Gn 3,24), em Jo 20,12-13 os anjos são os primeiros a confortar a mulher, com a pergunta carinhosa depois repetida por Jesus: Por que choras?

Observemos a diferença quanto à reação das mulheres. Em Marcos, elas fogem em silêncio: não contaram nada a ninguém porque tinham medo (Mc 16,8). Já vimos que o contexto em que se escreveu o evangelho de Marcos é marcado pelo medo da perseguição romana. Nos demais textos, elas contam aos discípulos. O medo ainda permanece, mas elas contam. O texto de Mateus acrescenta que apesar do medo, elas estavam alegres (Mt 28,8). Sabemos que o texto de Mateus foi escrito cerca de 15 a 20 anos depois do texto de Marcos. As comunidades ainda experimentavam o medo, mas eram capazes de anunciar com mais alegria a ressurreição

 

Em relação à primeira pergunta, notemos que o nome de Maria Madalena está em todos os textos, o que nos permite concluir que ela foi a grande apóstola da ressurreição. Mas não há coincidência em relação aos nomes das demais mulheres. Por que? É muito possível que as comunidades tenham se recordado de mulheres que foram lideranças marcantes à sua própria tradição. Ou seja, para a comunidade de Marcos, além de Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé ficaram na memória da comunidade. Já de acordo com Lucas, o nome de Joana foi mais mencionado e ficou gravado (Lucas fala também de outras mulheres).

No caso de João, Maria Madalena vai só ao túmulo. E a narrativa tem um sentido bastante especial, baseando-se em dois textos do Primeiro Testamento. Por um lado, o texto refaz a trajetória da amada em busca do seu amado, conforme os belos poemas do Cântico dos Cânticos: Encontraram-me os guardas que rondavam a cidade: vocês viram o amado da minha vida? Passando por eles, contudo, encontrei o amado da minha vida. Agarrei-o e não vou soltá-lo (Ct 3,3-4). Por outro lado, Jo 20,1-18 apresenta-nos uma releitura da criação: trata-se de uma nova semana, um novo jardim e uma nova humanidade, representada em Jesus e em Maria Madalena. Relato de um encontro que transforma e que permitiria a ela dizer, quase parafraseando Gabriel García Marques: “Gosto de você pelo que você é, mas também pelo que sou quando estou com você!”

 

Fonte: CEBI - Centro de Estudos Bíblicos.

___________________________________________________________

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

FESTEJOS DE REIS

_________________________________________

Pictures1

Foto: Trilha na Floresta Atlântica -  atividade de lazer  da  

1ª Oficina Bíblica de Férias: “Como estudo a Lição-Sermão”

Janeiro de 2011 -  Garuva, SC, Brasil.

_____________________________

 Festejo de Reis

 I. Cultura: Terno de Reis.

II. Comentários sobre relatos bíblicos:

- As três gerações do Cristianismo primitivo

- O Evangelho Segundo Mateus

- Quem visitou Jesus primeiro? Os pastores ou os magos?

- Magos em Belém: culturas diferentes à busca de Deus (Mt 2:1-12).

III. Para pensar: citação do livro Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras de Mary Baker Eddy.

__________________

 

FESTEJOS DE REIS

 

I.Cultura

TERNO DE REIS

Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do Natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país.

t5707_ Mauro

Mauro Pereira - Terno de Reis (janeiro de 2008) acrílica sobre tela

 

Origens

Na tradição cristã, a passagem bíblica em que Jesus foi visitado por reis magos, converteu-se na tradicional visitação feita pelos três "Reis Magos", denominados Melchior, Baltasar e Gaspar, os quais passaram a ser referenciados como santos a partir do século VIII.

56034_Papel-de-Parede-Tres-Reis-Magos_1024x768

Fixado o nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro, adotou-se a data da visitação dos Reis Magos como sendo o dia 6 de janeiro que, em alguns países de origem latina, especialmente aqueles cuja cultura tem origem espanhola, passou a ser a mais importante data comemorativa católica, mais importante, inclusive, que o próprio Natal.

Na cultura tradicional brasileira, os festejos de Natal eram comemorados por grupos que visitavam as casas tocando músicas alegres em louvor aos "Santos Reis" e ao nascimento de Jesus; essas manifestações festivas estendiam-se até a data consagrada aos Reis Magos, 6 de janeiro. Tradição que mantém-se viva em muitas regiões do país, sobretudo nas pequenas cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Goiás, Santa Catarina, dentre outros.

 

 

Terno de Reis Estrela da Alegria

                  Terno de Reis Estrela da Manhã - Florianópolis, SC.

 

 O "Terno" de Reis ou "Folia" de Reis

No Brasil a visitação das casas, que dura do final de dezembro até o dia de Reis, é feita por grupos organizados, muitos dos quais motivados por propósitos sociais e filantrópicos. Cada grupo, chamado em alguns lugares de Folia de Reis, em outros Terno de Reis, é composto por músicos tocando instrumentos, em sua maioria de confecção caseira e artesanal, como tambores, reco-reco, flauta e rabeca (espécie de violino rústico), além da tradicional viola caipira e do acordeão, também conhecida em certas regiões como sanfona, gaita ou pé-de-bode.

Além dos músicos instrumentistas e cantores, o grupo muitas vezes se compõe também de dançarinos, palhaços e outras figuras folclóricas devidamente caracterizadas segundo as lendas e tradições locais. Todos se organizam sob a liderança do Mestre da Folia e seguem com reverência os passos da bandeira, cumprindo rituais tradicionais de inquestionável beleza e riqueza cultural.

Terno de Reis Família Fielsons             Terno de Reis: Família Fielsons - Florianópolis, SC.

As canções são sempre sobre temas religiosos, com exceção daquelas tocadas nas tradicionais paradas para jantares, almoços ou repouso dos foliões, onde acontecem animadas festas com cantorias e danças típicas regionais, como catira, moda de viola e cateretê. Contudo ao contrário dos Reis da tradição, o propósito da folia não é o de levar presentes mas de recebê-los do dono da casa para finalidades filantrópicas, exceto, obviamente, as fartas mesas dos jantares e as bebidas que são oferecidas aos foliões.

 

Grupos incrementados

Uma das formas de sobrevivência da manifestação folclórica, especialmente nas grandes cidades, foi a incorporação nos Ternos de elementos figurativos, com a finalidade de promover apresentações para turistas e para os próprios habitantes.Trazendo alegria para todos.

Em algumas regiões as canções de Reis são por vezes ininteligíveis, dado o caos sonoro produzido. Isto ocorre quase sempre porque o ritmo ganhou, ao longo do tempo, contornos de origens africanas com fortes batidas e com um clímax de entonação vocal. Contudo, um componente permanece imutável: a canção de chegada, onde o líder (ou Capitão) pede permissão ao dono da casa para entrar, e a canção da despedida, onde a Folia agradece as doações e a acolhida, e se despede.

 Grupo Eira - Terno de Reis                    Terno de Reis: Grupo Eira – Florianópolis,SC.

No Sul de Minas um grupo de Folia de Reis é composto da Bandeira ou Estandarte que é decorado com figuras alusivas ao menino Jesus, ou mesmo com palavras relativas à data. Outro componente importante é o Bastião que se veste de modo característico, mascarado e sempre porta uma espada, este tem a função de folião propriamente dito, levando alegria por onde a folia passa, e como que abrindo caminho para a passagem da Folia que de certa forma representa os próprios Reis Magos.

O Bastião tem também a função de citar textos bíblicos e recitar poesias alusivas. Na sequência o grupo de vozes se organiza em Mestre, Ajudante, Contrato, Tipe, Retipe, Contratipe, Tala, ou Finório. Na verdade esses nomes se referem a uma organização das vozes em tons e contratons, durante a cantoria, o que leva a formação de um coro muito agradável aos ouvidos.

O Mestre, por sua vez, tem papel especial de iniciar o canto, que é feito em versos e de improviso, agradecendo os donativos da casa visitada. Os outros componentes então repetem os versos, cada qual em sua voz, na cadência definida pelo Mestre, acompanhados pelos instrumentos que tocam.

A apresentação dos grupos, em Santa Catarina, é feita em três partes: chegada, anúncio e despedida. Normalmente, os principais cantadores formam um trio: o triplo ou tripa (que canta fino, de falsete), o repentista (que faz os versos de improviso) e o baixão (cantor solo, segunda voz). Além disso, três são os instrumentos que se destacam nas cantorias: viola, rabeca e pandeiro. Atualmente, alguns grupos incluem o acordeon nas apresentações.

Fonte: Wikipédia.

 

PRESERVANDO O FOLCLORE CATARINENSE

25022011_36

 ________________________________________

  II. Comentários sobre relatos bíblicos 

 

Os estudos bíblicos se constituem numa vibrante área de pesquisa que publica de forma intensa. Isso deve-se ao facínio que os textos antigos exercem sobre os leitores contemporâneos, seja como texto de saber histórico, seja como texto que sempre se mostra aos leitores de forma renovada.

Por isso, a Bíblia é estudada numa riqueza de perspectivas, abordagens, métodos  e hermenêuticas. Ao interesse pelo texto bíblico soma-se a busca por sua origem, da mesma forma que pelos textos que lhe são vizinhos: os apócrifos, pseudepígrafos, os Manuscritos do Mar Morto. (Gabrielle Boccaccini - leciona no Departamento de Estudos do Oriente Próximo da  Universidade de Michigan, EUA.)

 

As três gerações do Cristianismo primitivo

Comunidades cristãs primitivas, referem-se  às primeiras comunidades desde sua origem após a paixão, morte e ressureição de Jesus até a redação do último escrito do Segundo Testamento, em torno do ano 140. Todo esse tempo pode ser dividido em três etapas.

A primeira é conhecida como época apostólica. É a primeira geração de seguidoras e seguidores de Jesus de Nazaré. São aqueles que conheceram Jesus ou que aderiram a ele ainda nos primeiros anos do movimento cristão. A época apostólica vai  desde o ano 30 até em torno de 67, quando provavelmente os primeiros seguidores de Jesus já haviam morrido ou haviam sido mortos.

Esse período apostólico(entre 30 e 67) pode ser dividido em dois momentos claramente distintos. O primeiro é anterior à assembleia de Jerusalém em 49, também  conhecida por concílio de Jerusalém. Tal como do tempo de Jesus, não temos nenhum escrito bíblico desse período. O que sabemos, além das informações do historiador judeu Flávio Josefo, vem de escritos posteriores.

800px-El_Lavatorio_(Tintoretto)

O lavatório – Tintoretto

O segundo momento da época apostólica vai desde o concílio de Jerusalém até em torno de 67. É o tempo áureo da missão de Paulo e sua equipe pastoral.

O segundo período das comunidades primitivas é a chamada época subapostólica. É o tempo da segunda geração de cristãos. Esse tempo corresponde aos anos que vão desde, mais ou menos, 67 até por volta de 97, quando então inicia o período pós-apostólico, isto é, a terceira geração de comunidades cristãs.

A primeira geração de cristãos pertencentes às comunidades    que mais tarde deram origem ao Evangelho de Mateus certamente viveram inicialmente na Judéia. Entre os apóstolos, Pedro é seu grande protagonista.

ANTHON~1

Anthonis van Dyck - Die Ausgießung des Heiligen Geistes

Entre os evangelhos, é  Mateus quem mais importância dá à figura de Pedro (Mt 16:17-19).  Ao copiar de Marcos a profissão de fé de Pedro (Mc 8:27-30), Mateus acrescentou os versículos 17-19. De fato, Mateus é o  Evangelho das comunidades de herança dos apóstolos e familiares de Jesus.

Chamados de comunidades de Tiago aquelas que foram fundadas pelos apóstolos como Pedro, ou que atribuem sua origem a eles. Um dos líderes importantes dessas igrejas foi Tiago, irmão de Jesus (Gl 1:18-19; 2:9; At 15:6-21). Quando ele foi martirizado em 62, seu irmão Judas o substituiu na direção das igrejas de Jerusalém.

Diferentemente das comunidades de herança paulina, eram igrejas em que as pessoas vindas do Judaísmo eram a grande maioria. A tradição judaica ainda ocupava um lugar central. Estavam ainda muito ligadas à observância da Lei.

Podemos classificar como herança das igrejas dos apóstolos e de Tiago o Evangelho segundo Mateus, a Carta de Tiago e a Carta de Judas. Tanto Tiago como Judas além de  familiares de Jesus(Mc 6:3) dirigiam as comunidades de Jerusalém. 

 

O Evangelho Segundo Mateus

Cada  evangelho teve sua   redação a partir da compreensão sobre a pessoa de Jesus de quem o escreveu. Mateus vê Jesus como Emanuel, o Deus-conosco no mundo e na história para nos ensinar o caminho da justiça. É, junto com o mestre da justiça, que podemos construir um mundo melhor.   

Data, local e destinatários

O Evangelho de Mateus foi escrito no final dos anos 80 d.C. Certamente, as comunidades que o editaram viviam na Palestina, talvez na Galileia, numa região em que predominavam igrejas formadas por pessoas de origem judaica.

Com a guerra judaico romana, muitos membros  dessas comunidades da Judéia mudaram-se para a direção da Galileia, Síria ou outros lugares. Essa imigração se intensificou com a perseguição sofrida por parte de lideranças das sinagogas nos anos 80 e 90.  Nessa época, os judeus-cristãos foram expulsos das sinagogas pelos rabinos fariseus que passaram a liderar o Judaísmo a partir de 70. Muitos cristãos da Judéia devem ter se estabelecido na Galileia e na Síria.

Observa-se também  no Evangelho de Mateus, além do conflito com a sinagoga, tensão com cristãos vindo de outras  culturas. Como no caso das comunidades paulinas que defendiam uma nova justiça divina, dada gratuitamente por Deus a quem crê em Jesus.

Confira ainda algumas das seguintes citações e perceba como as comunidades destinatárias de Mateus são formadas por pessoas sem terra (5:1-5), desempregadas(20:1-16), migrantes(2:13-23; 4:13-16 , 24-25; 19:1), perseguidas(5:10-12; 23:13-32) e pobres(11:25-26; 6:25-34; 15:32; 25:31-46).

Autores e fontes

Seus autores devem ser escribas judeus-cristãos, convertidos ao cristianismo (Mt3:52).  Em meados do segundo século, os pais da Igreja homenagearam Mateus(Mt 9:9; 10:3), atribuindo a ele este evangelho. Ao agirem desta forma, queriam colocar a obra sob a autoria de um discípulo de Jesus.

Os autores deste Evangelho, isto é, a escola dos rabinos cristãos, naturalmente eram profundos conhecedores das Escrituras judaicas. O texto que usaram para fazer transcrições para seu escrito é da versão grega das Escrituras, a Septuaginta. Além  do Evangelho de Lucas e Marcos, como texto-base. Bem como a fonte “Q”, inserindo 230 versículos desta obra.

Fonte “Q”

Na pesquisa bíblica, existe uma hipótese de que houve na Galiléia uma corrente cristã que apresentava Jesus como um Messias sábio e mestre. Essa tendência valorizava seus ditos, suas palavras e seu ensino. Não davam tanto valor à sua paixão, morte e ressureição. Seria um movimento ligado a círculos sapienciais que, apesar de seu radicalismo em seguir de perto o mestre, apresentam um Jesus que não incomoda as instituições opressivas da época. 

Segundo a hopótese, e há evidencias literárias para isso, essa corrente cristã teria produzido o documento “Q”. É assim chamado, porque esta é a primeira letra da palavra alemã Quelle (fonte).

Até hoje, pelo menos, nada a respeito foi encontrado. Se existiu, está perdido. Essa fonte seria o segundo documento usado por Mateus e Lucas  ao escreverem nos anos 80  d.C. O primeiro foi o Evangelho de Marcos cujo material já era conhecido há uns 15 anos antes. O conteúdo da fonte “Q” seriam os textos comuns a Mateus e Lucas, porém ausentes em Marcos.

Comentário final

Convém destacar, que um dos objetivos de Mateus é deixar claro que o Evangelho é para todos os povos na medida em que o centro dessa universalidade seja o Judaísmo. Os demais povos devem “vir do oriente e do ocidente e se assentar à mesa do Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó” (Mt 8:11).

As igrejas mateanas estão abertas as pessoas de outras culturas, apresentando Jesus como Emanuel - “Deus  conosco” (Mt1:23).

Fonte:

1. BOCCACCINI, Gagriele. Além da hipótese essênica: a separação dos caminhos entre Qumran e o judaísmo enóquico. São Paulus, 2010.

2. STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Mateus. São Paulo: Paulus. (Série “Como ler a Bíblia”).

3. GASS, Ildo Bohn. As comunidades da segunda geração cristã. São Leopoldo: CBEI (Curso Bíblico por Correspondência: Módulo 12).

__________________

 
Quem visitou Jesus primeiro? Os pastores ou os magos?

 

Historicamente, não é possível determinar a questão.

O fato é que a comunidade de Mateus, que tem como intenção manifestar Jesus aos povos (epifania),  apresenta os magos estrangeiros  visitando  e  acolhendo  o  messias na criança de  Belém.  A comunidade de Lucas, no entanto, anunciando a boa-nova ao pobres, apresenta os pastores  como primeiros destinatários da notícia do nascimento do menino na manjedoura da gruta de Belém.

Na     sequência, apresentamos  um comentário  de Marcelo  Barros na forma de    uma  bela carta à comunidade do evangelista  Mateus.

 

Magos em Belém: culturas diferentes à busca de Deus

(Mt 2,1-12)
Marcelo Barros

O texto foi extraído do Livro "Conversando com Mateus".

 

Irmãs e irmãos da comunidade de Mateus,

Quero conversar com vocês como se estivéssemos uns diante dos outros e vocês fossem conterrâneos deste final de século conturbado e tão carente de esperanças. No começo, pensei em escrever uma carta pessoal a Mateus, mas nenhum livro da Bíblia é de cunho somente individual.

Além disso, embora desde os tempos mais antigos todos atribuam a Mateus a honra de ser o redator deste livro, nem ele assinou nem chama o texto de Evangelho (como Marcos inicia dizendo: "Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus"). Então, escrevo a vocês da comunidade, que participaram da experiência que gerou o texto de Mateus. (...)

Ao contar a visita dos magos a Jesus Menino, vocês não pretendiam narrar um relato histórico ou um fato jornalístico. Quiseram significar o encontro de Jesus com os outros povos e culturas.

Fizeram isso comentando textos bíblicos como Isaías 60, o salmo 72 e a profecia de Balaão (Nm 22-24). Vocês os comentam como os rabinos faziam, contando histórias (midrash), e nos presen­tearam esse relato tão bonito.

Pictures3

O poema do discípulo de Isaías (Is 60) e, talvez, mesmo o salmo vêm de uma época na qual Jerusalém estava sendo reconstruí­da. Os recursos eram poucos e, em comparação ao que era antes de ser destruída pelos babilônios, era uma aldeia.

O profeta vê o sol nascer sobre a cidade e proclama a promessa de Deus de que, um dia, Jerusalém será luminosa e cheia de glória e os reis das nações a ela acorrerão trazendo presentes.

Num contexto de sofrimento e de revalorização da identidade do povo pobre, aquela visão nada tinha de etnocentrismo. Era universalista. Aplicando essa profecia aos magos que vêm homenagear a criança pobre que nasceu em Belém, vocês a tornam mais universal ainda.

Embora não tenham dito que os magos eram reis e santos, como a tradição soube acrescentar, vocês contaram que eles gostavam das estrelas e vieram de longe, do oriente, atrás de uma estrela e em busca do Rei dos judeus que acabara de nascer neste mundo.

Com esse novo comentário narrativo de textos bíblicos (mídrash), desde o início do Evangelho, vocês associam as culturas e religiões diferentes à busca de Deus, ao reconhecimento de Jesus como "Rei dos Judeus" e ao acolhimento do Reino de Deus (ou dos céus, como vocês o chamam).

Na cultura judaica na qual a comunidade estava inserida, não deve ter sido fácil para vocês reconhecerem que até a astrologia e a interpretação dos sonhos podem conduzir pessoas como os magos ao Senhor. (Chouraqui chama os magos de "astrólogos'' ¹¹).

Na região da Síria e da Ásia Menor era praticada a religião do deus Mitra. Era um sincretismo de antigos cultos ao sol. Os fiéis de Mitra contavam que o seu deus nasceu numa caverna na noite de 25 de dezembro (solstício do inverno e festa do sol que renasce do frio e da escuri­dão das noites cada vez mais longas).

Masaccio_adoration 

Adoração – Masaccio

Aliás, por acaso, os sacerdotes de Mitra se chamavam "magos", porque eram homens que lidavam com os astros e com os mistérios da vida.

Será que, ao contar a bela história dos magos que vieram a Belém adorar o menino Jesus, vocês quiseram assumir algo da história de Mitra e transpô-la para o contexto cristão? Hoje, falamos muito de inculturação. Mas ainda há muitos bispos e pastores que têm preconceito contra sincretismo. Será que, nessa história, vocês da comunidade de Mateus queriam nos ensinar que há um tipo de sincretismo que é válido e compreensível?

 

Nota: O artigo Magos em Belém: culturas diferentes à busca de Deus não representa a opinião deste Blog nem de nenhuma das igrejas do Movimento da Ciência Cristã.  Foi publicado para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  com o objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

_________________________________________

III. Para pensar

 “Para os que se apóiam no infinito sustentador, o dia de hoje está repleto de bençãos. O pastor vigilante avista os primeiros tênues clarões da aurora, antes de surgir a plena radiação do novo dia. Foi assim que a pálida estrela brilhou aos pastores-profetas; e assim atravessou a noite e chegou onde, na obscuridade do berço, estava o menino de Belém, o arauto humano do Cristo, a Verdade, que iria esclarecer à compreensão toldada o caminho da salvação por Cristo Jesus, até que, através da noite do erro, despontasse a aurora e brilhasse a estrela-guia do ser. Os Magos foram levados a ver e a seguir essa estrela d’alva da Ciência divina, que ilumina o caminho da harmonia eterna”.

“É chegada a hora dos pensadores. A Verdade, independente de doutrinas e sistemas consagrados pelo tempo, bate ao portal da humanidade.”

Ciência com Chave das Escrituras - vii:1-15, Mary Baker Eddy.

 

ESTRELA DE BELÉM

Estrela de Belém,  ilustração de James F. Gilman

para o  poema Cristo e o Natal de Mary Baker Eddy.