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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

ELISEU SEGUE OS PASSOS DE ELIAS

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Eliseu segue os passos de Elias

 

 

O movimento de Elias

A adoção do culto cananeu e da incorporação da forma Cananéia de administrar o Estado de Israel,  pela dinastia de Amri trouxe, entre outras, duas consequências  para o povo:

- Apagou, aos poucos, a fé no Deus que quer vida e liberdade para seu povo;

- Aumentou a opressão  e a violência sobre o campesinato.

Contra este desmandos, levantou-se em Israel um imenso movimento profético, uma forte oposição dos círculos fiéis a YHWH. O profeta Elias foi líder dessa resistência. Sua ação em defesa dos pobres marcou profundamente a vida do povo em Israel. Possivelmente, as narrativas sobre Elias já tiveram uma primeira redação no final do século 9 a.C. Posteriormente, foram enriquecidos com acréscimo e inseridos na obra deuteronomista (Js, Jz, 1º e 2º Sm e 1ºe 2º Rs).

Podemos dividir os textos referentes a Elias da seguinte forma:

- 1Rs 17-18; 2Rs1: a defesa da fé do povo de YHWH;

- 1RS 19: a mística do êxodo reanima o profeta perseguido;

- 1Rs 21: a defesa do campesinato violentado e empobrecido;

- 2Rs 2: 1-8: a passagem da missão de Elias para Eliseu. 

 

“YHWH é Deus, YHWH é que é Deus!  [1Rs 18:39]

Antes de mais nada, leia 1Rs 17-18!

Você pode perceber que o início dessas narrativas que você leu (17:1) e o final (18: 41-46). A questão é: Qual é o Deus que envia a chuva? É Baal ou YHWH? Para Jezabel e seus profetas, Baal tem esse poder.

Para os círculos fiéis ao Deus do êxodo, YHWH é o doador também da chuva e da fertilidade do solo. Um século mais tarde, o profeta Oséias se mostra discípulo fiel de Elias nessa mesma luta (Os 2:10-11,17 – Almeida  2:8-9; 15).

Todas as narrativas populares sobre a ação de Elias em defesa da fé no Deus do êxodo contidas nesses dois capítulos indicam na mesma direção: “YHWH é Deus, YHWH é que é Deus!” (1Rs 18:39). O próprio nome de Elias, quer dizer “meu Deus é YHWH”, define o programa do profeta. Vamos por partes.

O episódio junto ao córrego de Carit (Almeida = Querite) mostra que é YHWH quem sustenta os seus fieis, tal como na caminhada do êxodo. E Ele e não Baal quem controla a chuva, provocando  seca(1Rs 17: 2-7).

 

Na narrativa sobre a fome da viúva de Serepta  e do seu filho aprofunda a mesma questão. Serepta está situada entre as cidades fenícias de Tiro e Sidônia. Como se acreditava, aquela região estava sob o domínio de Baal. Nem na região da sua influência ele foi capaz de fazer chover para acabar com a seca. E o interessante é notar que foi lá que YHWH, o Deus de Israel, exerceu seu poder, tornando-se solidário com os mais pobres na pessoa do profeta Elias. E na solidariedade dos pobres, no  pouco que tinham, o pão não faltou em suas mesas (1Rs 17:8-16).

A cena em que Elias fez a criança voltar à vida (1Rs 17:17-24) também reforça a ação de YHWH, diferentemente da dinastia de Amri que promoveu a morte(1Rs 21). Nessa prática de Elias, a viúva reconheceu nele um profeta, “um homem de Deus”.

1º Reis 18:1-46 nos mostra o confronto entre dois projetos: o que traz fome e o sofrimento ao povo e o que promove a partilha e recupera a sua vida. A dinastia de Amri adotava a religião e os costume fenícios. A corte de Samaria legitimava seus sistema de morte com a religião de Baal. Para matar no povo o desejo de liberdade, foi necessário banir a fé em YHWH.

 

mt-carmel-elijah

Por isso, [Elias] enfrenteou o poder político, especialmente naquilo que lhe dava sustentação ideológica, isto é, a religião de Baal. Dessa forma, contraria os interesses da corte. E não foi por acaso que Acab e a rainha Jezabel o perseguiram, matando muitos profetas de YHWH.

Em 18:12 se diz que o espírito de YHWH conduzia o profeta de forma imprevisível. Você pode ler ainda a respeito em 2Rs 2:11-12;16. Veja também em Ez 3:12;8:3; 11:1 e At 8:39! Ao assim se referir  aos profetas e ao diácono Filipe, os autores querem dizer que esses mensageiros de Deus estavam totalmente disponíveis para cumprir sua vontade. Onde quer que Ele os quisesse, eles estavam a seu serviço.

 

A mística do êxodo reanima o profeta perseguido

Por  desmascarar a prática idolátrica da corte de Samaria, a vida de Elias correu perigo da mesma forma como seus companheiros de profecia. para salvá-la, ele fugiu. Estava desanimado. Muitos profetas de YHWH já tinham sido mortos pelo mesmo motivo . Elias se sentiu só. Perdeu as referências e perdeu seus companheiros.

elijah_corvo                                         Elias é alimentado pelos corvos

 

Da mesma forma como Moisés se dirigiu ao monte Horeb (Ex 3:1), onde tomou consciência de sua missão libertadora junto aos hebreus no Egito (Ex 3:7-11), também Elias se dirigiu à montanha, à mesma gruta (Ex 33:22). Foi, portanto, beber da fonte em que Moises bebeu.

E essa fonte tem nome. Chama-se YHWH, aquele que está junto para libertar. É o Deus da Aliança, que quer uma sociedade justa solidária. Essa mística da profecia de ontem e de hoje. Não é assim também em sua vida?

Mas há algo de novo na experiência de Deus que Elias fez. Não foi mais nos sinais simbólicos tradicionais que o profeta percebeu a presença de Deus em sua vida.

Moisés fez referência à sua intimidade com Deus, dizendo que a ação de YHWH foi uma experiência marcante, como se passassem por sua vida um vento forte (Ex 14:21; 15:10; Nm 11:31, um terremoto (Ex 19:19) e um fogo ardente(Ex 32; 19:16, 18).

Elias não sentiu mais a presença de Deus nesses sinais. A razão provável é porque os teólogos do templo de Jerusalém, e possivelmente a corte real instalada em Samaria, apresenta o Deus da tradição com aquela linguagem. Em vez de fazer memória do Deus do êxodo para promover a liberdade, a dinastia de Davi domesticou a religião de YHWH para justificar o seu poder.

Elias fala de sua intimidade com Deus de um jeito novo (1Rs 19:12-13). Mas é o mesmo Deus que continua solidário com seus profetas e que renova sua vocação em crise. A forma é que é diferente.

Ainda hoje o mesmo Deus continua se revelando na vida e na história de diferentes e sempre renovadas formas.

 

Elias e a defesa do campesinato violentado

Antes de mais nada, leia 1Rs 21 e procure perceber:

- Os interesses do rei Acab, os seus planos em relação à terra do campesinato;

                                         O rei inveja a vinha de Nabot

 

- A posição de Nabot em relação à herança. Compare com Lv 25:23 e Nn 27:1-11; 36:1-12;

- A forma como a rainha Jezabel usou o poder régio para assassinar Nabot. Compare com o envolvimento Herodíades na morte de João Batista em Mc 6:17-29;

- A defesa que o profeta Elias faz de Nabot, bem como as ameaças que faz a Acab.

Como vimos acima, no caso de Nabot, o assassinato dele e o se deus filhos (2Rs 9:26), ilustra bem a relação entre Baal e a opressão. Aparentemente, o conflito entre os profetas de YHWH era uma disputa religiosa.

                                             Assassinato de Nabot

Mas, o fundo social do conflito entre YHWH e Baal era, na verdade, conflito por causa da terra do campesinato que era cobiçada pela corte e pelos amigos do rei.

 

Elias não estava sozinho

Você já leu que junto com Elias havia muitas pessoas que também profetizavam em nome de YHWH (1Rs 18:4). Em 1Rs 20:35ss, vocês podem acompanhar a ação de mais de um deles. Já no tempo do Profeta Samuel havia  comunidades proféticas.

elijah_corvo                                         Elias é alimentado pelos corvos

 

Havia também os profetas da corte que, para garantir seu ganha-pão profetizavam o que agradava ao rei, tornando-se coniventes com suas decisões.

Leia 1Rs 22:1-28 e perceba como entre esses profetas também havia os que se posicionavam de forma realista. Por isso, eram mal vistos na corte e sofriam perseguição. É o casa do profeta Miquéias (Almeida = Micaias), filho de Jemla, que apanhou de um colega profeta e foi preso a mando do rei Acab (1Rs 22:24-28). Os relatos do Livro de Miquéias se referem a outro profeta.

O profeta Eliseu também foi líder de uma comunidade de profetas. É o que você pode ler em 2Rs 2:1-18. Veja também 2Rs 4:1.30!  Eles podiam ser encontrados em Guilgal – 2Rs 2:1, Betel (2Rs 2:2-3), Jericó (2Rs 2:4-5.18), no Jordão (2Rs 2:6-7) e no monte Carmelo (2Rs 2:25).

 

Eliseu segue os passos de Elias

Antes de continuar seu estudo procure perceber como aparecem nas relações do profeta pessoas com fome, doentes , escravas, endividadas, especialmente mulheres e crianças.

Perceba também como há referências a situações do cotidiano, tais como: a casa, a comida, a água, utensílios de cozinha e instrumentos de trabalho, além é claro, do envolvimento do profeta na conspiração contra a dinastia de Amri [leia neste blog a postagem Joás rei de Judá: uma contextualização histórica e geográfica]

Possivelmente, as narrativas sobre Eliseu foram escritas no século 8 a.C. Como o ciclo de Elias, também as tradições sobre Eliseu foram escritas, com acréscimo, na obra deuteronomista.

Não deixe de ler:

▪ 1Rs 19: 19-21   vocação de Eliseu;

▪  2Rs 2-8 Eliseu e a luta pela vida cotidiana;

▪ 2Rs 9-10 apoio de Eliseu ao golpe que Jeú deu no rei Jorão;

▪ 2Rs 13:14-21 morte do profeta.  

 

Eliseu e suas comunidades proféticas continuaram a missão de Elias na defesa da fé do povo em YHWH e na luta contra os desmandos e as injustiças da estrutura monárquica.

Ao lançar sobre Eliseu o seu manto, Elias não só lhe transferiu sua missão, mas também adquiriu direito sobre ele, tornando-o participante de sua personalidade, uma vez que a roupa faz parte da pessoa (1Rs 19:19; 2Rs2:8-13-14. Veja casos semelhantes em 1Sm 18:4; 24:5-7!). O fato de Eliseu destruir seu arado e seu arado e seus bois confirma essa mudança em sua vida, pois significa sua renuncia à situação que vivia anteriormente (1Rs 19:20-21).

 

Da mesma forma como Elias, Eliseu também se ocupou com a vida cotidiana do povo e se envolveu profundamente na política. Acompanhe o quadro a seguir e veja como Eliseu está em continuidade e confirmação da ação profética dos oráculos de Elias.   

 

▪ Passagem da missão e personalidade de Elias para Eliseu [Elias 1Rs 19:19 / Eliseu 2:8.14.19-22].

▪ Ambos multiplicaram azeite  para viúvas [Elias 1Rs 17:14-16 / Eliseu 2Rs 4:1-7].

▪ A intervenção de ambos trouxe água [Elias 1Rs 18:21-46 / Eliseu 2Rs 3:9-20].

▪ Os dois fizeram meninos voltar à vida [Elias 1Rs 17:17-24 / 2Rs 4:18-37].

▪ Ambos multiplicaram farinha/pão [Elias1Rs 17: 14-16/ Eliseu 2R 4: 42-44].

▪ Elias criticou um rei de Israel que buscou sua cura num deus  estrangeiro [2Rs 1].

▪ Eliseu curou um estrangeiro que buscou sua cura no Deus de Israel [2Rs 5:1-19].

▪ Elias recebeu a missão de ungir Hazael, rei arameu Elias[1Rs 19:15 ]; mas foi Eliseu quem anunciou que Hazael seria rei [2Rs 8:11-13].

▪ Elias recebeu a missão de ungir Jeú [1Rs 19:16]; mas foi Eliseu quem enviou seu discípulo para ungí-lo [2Rs 9:1-3].

▪ Ambos conspiraram contra a dinastia de Amri e sua idolatria [1Rs 18:21 / Eliseu 2Rs 9 -10].

▪ Ambos foram ameaçados de morte [Elias 19: 1-2 / Eliseu 2Rs 6: 31].

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Fonte: Uma introdução à Bíblia: Reino Dividido, organizado por Ildo Bohn Gass, CEBI - Editora Paulus, 4ª Edição, 2007.

Nota: Eliseu segue os passos de Elias  foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia no contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica em que seus relatos foram escritos. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e a opinião de estudiosos do texto bíblico, como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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PARA REFLETIR:

Elias. Profecia; evidência espiritual oposta ao sentido material; a Ciência Cristã, pela qual se pode discernir o fato espiritual referente a tudo o que os sentidos materiais percebem; a base da imortalidade.

“De fato Elias virá e restaurará todas as coisas.” (Mateus 17:11.) CS 585: 9 

 Profeta. Um vidente espiritual; desaparecimento do sentido material ante a consciência dos fatos da verdade espiritual. CS 593:24

Milagre.  Aquilo que é divinamente natural, mas tem que ser apreendido humanamente; um fenômeno da Ciência. CS 591:23

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terça-feira, 24 de julho de 2012

COMUNHÃO TOTAL

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Memorial Ucraniano_Parque Tingüi_Curitiba_PR_Brasil_Edésio Ferreira Filho

Parque Tingüi – Memorial Ucraniano: Curitiba, PR, Brasil.

 

 

COMUNHÃO TOTAL

 

                    Albert Nolan

 

No contexto atual, caracterizado pela busca do sagrado e pela sede de Deus, Nolan mostra que sem um enraizamento profundo na experiência de Deus, não teremos nada a dizer aos nossos contemporâneos e seremos impotentes diante dos desafios atuais.

 

Deus não só está mais perto de mim do que eu próprio, mas também é um comigo e com você. Há uma misteriosa comunhão total, ou ser um com, entre Deus e o nosso verdadeiro eu,  e a consciência dessa comunhão total ocupa o centro de qualquer experiência mística. É descrita de muitas maneiras diferentes: como Deus morando em mim, como eu estar cheio do Espírito de Deus, como união com Deus, como união de vontades, ou com qualquer coisa comparável à experiência de comunhão sexual, uma união de corpos.

Finalmente, porém, os místicos acham, sempre, todas essas descrições inadequadas. Daí que se encontrem descrições tais como a nossa deificação ou divinização, a nossa transformação em Deus*. Mestre Eckhart irá ainda mais longe ao dizer que a base de nosso ser é a mesma que a base do ser de Deus **. Lá bem no fundo somos um.

* A afirmação de Irineu sobre a deificação, “Deus tornou-se homem para que os homens possam tornar-se Deus”, tem sido citada por teólogos e autores espirituais ao longo dos séculos. Ver, ainda, 2Pd 1:4.

** Eckhart #13b, 117; e em muitos outros lugares.

Afirmações como essas deram origem a acusação de heresia. Estarão negando a diferença existente entre o Criador e a criatura, entre o Incriado e o criado, entre Deus e o mundo? O que importa, para a nossa prática espiritual de hoje, é que os místicos experimentaram uma comunhão, um ser um com Deus tão avassalador, que não há palavras, por muito exageradas que possam ser, capazes de descrever devidamente essa experiência.

De que serve a nós, então, a experiência de Jesus de ser um só com Deus? Aquilo que os discípulos e amigos de Jesus achavam tão extraordinário nele não era apenas o fato de ele tratar Deus como o seu abbá,  mas o fato de ele identificar-se com Deus.

Há uma forma possível de identificarmo-nos com Deus que é egocêntrica ao máximo. Mas isso se deve ao fato de ela ter por base uma imagem de Deus como ditador egocêntrico, que domina o mundo. Jesus identificou-se com um Deus humilde, compassivo, cheio de amor e de solicitude no serviço, e teve ousadia suficiente para falar e agir à semelhança desse tipo de divindade… isenta de qualificações.

Os discípulos e amigos de Jesus nunca tinham testemunhados nada de parecido. Durante anos, a partir de então, esforçaram-se para encontrar palavras que descrevessem a sua experiência de pessoa humana que parecia identificar-se plenamente com Deus. As gerações seguintes continuaram a esforçar-se ao longo de vários séculos de debate teológico. A nossa preocupação neste livro, porém, é conseguir encontrar uma forma de imitar Jesus, não de explicar quem ele é. Precisamos, para isso, desenvolver uma consciência mais profunda do nosso ser um com Deus.

Agua no deserto

 

 

Nós somos amados

A convicção básica de Jesus não era apenas de que Deus está próximo de nós, mas também de que Deus nos ama. Como já vimos, o amor incondicional de Deus constitui o fundamento da espiritualidade de Jesus. No entanto, se Deus é o mistério que engloba todo o resto, qual será o sentido desse amor para nós? Que quererá dizer que somos amados pelo mistério deslumbrante que está intimamente próximo de nós? Por ventura eu posso ser amado por um mistério, ou pelo mistério?

Posso começar por reconhecer que o mistério  em que vivo, me movo e existo não é, nem pode ser, hostil para mim. Eu faço parte do mistério. O mistério deu-me à luz. O mistério deve, portanto, estar mais preocupado comigo do que eu próprio e, se nós somos real e profundamente um, então eu não tenho nada a temer. Eu serei amado em cada momento e para sempre, em todas as circunstâncias. Nada poderá realmente fazer-me mal e, aconteça o que acontecer, será tudo para meu bem. Eu sou amado sem medida, porque sou um com o mistério total da vida.

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À medida que vou tomando consciência da proximidade  do mistério ao qual chamamos Deus, também me  torno consciente da impossibilidade de ser odiado e rejeitado. Se o mistério de tudo o que existe me odiasse e rejeitasse, estaria a odiar-se e a rejeitar-se a si próprio. Assim como eu sou desafiado a amar o meu próximo como a mim mesmo, também posso chegar a reconhecer que Deus me ama como o próprio eu de Deus. Nós somos, em certo sentido misterioso, um só. 

 

Albert Nolan nasceu em Cape Town (África do Sul) em 1934. Teólogo católico renomado desempenhou um papel significativo na luta contra o apartheid. Em 2003, foi agraciado com a Ordem de Luthuli, concedida pelo governo sul-africano por sua luta em prol de democracia e dos direitos humanos. O texto desta página faz parte do seu livro Jesus hoje: uma espiritualidade de liberdade radical – Edição Paulinas.

 

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Et tunc erit finis

(está tudo consumado)

 

O cristianismo somente tem sentido se mantiver viva a consciência de que é uma emergência a partir da presença do Filho do Pai em nosso meio, na força do Espírito e na permanente atuação do Pai. Ele ganha relevância na medida em que não deixa arrefazer o sonho de Jesus, guarda a memória de sua verba et facta, de sua gesta gloriosa e trágica, tenta concretizar o sonho em bens chamados do Reino, feito de amor, perdão, justiça, cuidado para com os pobres e total entrega ao Pai-Abba como quem se senta na palma da mão, mas principalmente se conseguir suscitar nas pessoas a consciência de que são, de fato e não metafóricamente, filhos e filhas no Filho do Pai e, por isso, irmãs e irmãs uns dos outros.

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Haverá dignidade maior que esta, a de sabermo-nos membros da família divina e de sermos também Deus, por participação?

 

Leonardo Boff foi professor de Teologia no Instituto Franciscano de Petrópolis, galardoado em 2001 com o Prêmio Nobel Alternativo da Paz, conferido pelo parlamento sueco. O texto selecionado para esta página é de seu livro Cristianismo: O mínimo do mínimo da Editora Vozes, 20011.

 

Nota: Os  textos COMUNHÃO TOTAL e ET TUNC ERIT FINIS  não representam necessariamente a opinião deste blog nem de nenhuma das igrejas do Movimento da Ciência Cristã. Foi publicado para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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PARA REFLETIR:

 

Criador. O Espírito; a Mente; a inteligência; o divino Princípio vivificador de tudo o que é real e bom; a Vida, a Verdade e o Amor auto-existentes; aquilo que é perfeito e eterno; o oposto da matéria e do mal, que não tem Princípio; Deus, que fez tudo o que foi feito e que não poderia criar átomo ou um elemento que fosse o oposto dEle mesmo. CS 583:2127

Jesus. O mais alto conceito humano e corpóreo da ideia divina, que repreende e destrói o erro e traz à luz a imortalidade do homem. CS 589:16-18

Cristo. A divina manifestação de Deus, que vem à carne para destruir o erro encarnado. CS 583:12-13

Deus.  O grande EU SOU; Aquele que tudo sabe, que tudo vê, que é todo atuante, todo-sábio, a tudo ama, e que é eterno; Princípio; Mente; Alma; Espírito; Vida; Verdade; Amor; toda a substância; inteligência. CS 587:6-9

Filhos. Os pensamentos e representantes espirituais da Vida, da Verdade e do Amor.  CS 582:29-30

Filho. O Filho de Deus, o Messias ou Cristo. O filho do homem, o rebento da carne. “O filho de um ano”.CS 594:16-17

 

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domingo, 15 de julho de 2012

RADICALMENTE LIVRE

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RADICALMENTE LIVRE

 

Albert Nolan

 

Para Gabrielle Boccaccini -  Departamento de Estudos do Oriente Próximo da  Universidade de Michigan, E.U.A., os estudos bíblicos se constituem numa vibrante área de pesquisa que publica de forma intensa. Isso deve-se ao fascínio que os textos antigos exercem sobre os leitores contemporâneos, seja como texto de saber histórico, seja como texto que sempre se mostra aos leitores de forma renovada.

Por isso, a Bíblia é estudada numa riqueza de perspectivas, abordagens, métodos  e hermenêuticas. Ao interesse pelo texto bíblico soma-se a busca por sua origem, da mesma forma que pelos textos que lhe são vizinhos: os apócrifos, pseudepígrafos, os Manuscritos do Mar Morto.

 

Radical significa chegar às raízes. A liberdade que Jesus experimentava chegava à próprias raízes do ser. Era a liberdade pela qual ele desafiava os seus discípulos a lutar, e é a liberdade que nos desafia hoje, nesta época em que nos encontramos à beira do caos.

Jesus era assombrosamente livre. Ele era capaz de contradizer declaradamente as ideias, costumes e normas culturais da sociedade em que vivia. Jesus interpretava as leis , sobretudo as  que  se referiam ao sábado, com toda a liberdade, e era suficientemente ousado para suplantar todas as tradições sagradas acerca do puro e do impuro. No âmbito dessa sociedade e sua religião, Jesus não tinha autoridade  alguma para fazer isso. O que ele tinha era a liberdade pessoal de fazer a vontade de Deus sem preocupar-se com aquilo que as outras pessoas pensavam ou diziam.

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  Baia da Babitonga, São Francisco do Sul, SC, Brasil.

 

Ele  tinha a liberdade de amar sem reservas, de amar também o mais pobre dos pobres como o jovem rico. Os piedosos ficavam escandalizados com o amor e a solicitude que ele demonstrava com as prostitutas. Os pobres deviam ficar estupefatos com a cordialidade com que ele tratava os odiados cobradores de impostos, que exploravam o povo. O fato de essas pessoas o chamarem de beberão e comilão não o impedia de comer e beber os alimentos e bebidas impuras dos pobres. De fato, até parece que ele se divertia com tais acusações (Mt 11:16-19).

A liberdade radical de Jesus tornava-o completamente destemido. Para expulsar os comerciantes e os cambistas do pátio do templo no auge das festas, quando as autoridades estavam em alerta máximo devido à possibilidade de ocorrência de motins ou rebeliões, Jesus teve certamente  de ter uma coragem extraordinária.

Jesus não tinha medo de ninguém. Quando o sumo sacerdote o interrogou acerca das acusações que lhe faziam, Jesus ficou calado (Mc:14:61). Tampouco mostrou medo de Pôncio Pilatos, o implacável procurador romano. Jesus tinha a liberdade de morrer, de desistir da sua vida pelo Reino. Ele não estava apegado a nada nem a ninguém, nem sequer à sua própria vida ou ao êxito de sua missão. A sua liberdade não tinha limites, porque a sua confiança em Deus também era ilimitada.

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A nossa liberdade

O resultado imediato de tentar viver a espiritualidade de Jesus  hoje é a liberdade. Nós aprendemos gradualmente a desprendermo-nos, a libertar-nos daquilo a que estamos apegados, a abandonar as nossas “muletas”, a ignorar a nossa necessidade de êxito e a libertar-nos das preocupações com a nossa reputação. Os medos, as preocupações, as obsessões e o comportamento compulsivo começam a dissipar-se à medida que vamos aprendendo a rir de nossos egos. Para alguns, o maior alívio de todos é a experiência de libertação do sentimento de culpa. Deus nunca usará os nossos erros para atacar-nos. Nós estamos perdoados. Nós somos livres.

A descoberta de verdade acerca de nós mesmos dá início ao processo de libertação pessoal. Descobrir a verdade acerca do mundo de hoje, um reconhecimento aberto e sincero daquilo que está acontecendo no mundo dos seres humanos e no universo em geral, pode ser uma experiência libertadora. A verdade nos libertará.

A experiência de comunhão total com as pessoas e com tudo o que existe no universo que temos explorado nesta parte do livro liberta-nos  da tirania dos nossos egos isolados. Podemos voltar a respirar. Podemos confiar em Deus e no universo, que fala de um Deus de amor. Podemos descontrair. Tudo resultará em bem e tudo se resolverá, como Julian de Norwich nos diz, de forma tão animadora. Nós somo livres.

A base da liberdade radical é a confiança. Nós nos tornamos livres à medida que vamos aprendendo a apreciar o amor de Deus por nós, que nos leva a render-nos e a colocar toda a nossa confiança em Deus. “Aqueles que confiam no Senhor renovam suas forças. Têm asas com águias” (Is 40:31). A confiança em Deus permite-nos ter uma abertura de espírito destemida, e ser livres para explorar novas vias de pensamento, não ortodoxas. Teremos até a liberdade de, por vezes, dizer com toda a honestidade: “Não sei”. Mais importante ainda será podermos dizer: ”Isso pouco importa”.

A liberdade interior que aprendemos de Jesus permite-nos   amar sem reservas, aceitando-nos tal como somos e aceitando todos os outros seres humanos – incluindo os nossos inimigos – tal como eles são. O processo gradual de desprendimento remove os obstáculos que nos impedem de amar e em breve descobrimos que temos a liberdade suficiente para amar todo o universo, à semelhança   de São Francisco.

Finalmente, a liberdade a que nos referimos permite-nos fazer tudo o que precisamos fazer em cada momento. Somo livres para falar sem medo, para exprimir as nossas ideias, para rir e chorar sem inibições, e para termos tanta humildade e capacidade de brincar como uma criança. Também nos liberta para desistir-mos de nossa vida em favor dos outros… se isso for necessário.    

 

 Albert Nolan nasceu em Cape Town (África do Sul) em 1934. Teólogo católico renomado desempenhou um papel significativo na luta contra o apartheid. Em 2003, foi agraciado com a Ordem de Luthuli, concedida pelo governo sul-africano por sua luta em prol de democracia e dos direitos humanos. O texto desta página faz parte do seu livro Jesus hoje: uma espiritualidade de liberdade radical.

 

Nota: O  texto RADICALMENTE LIVRE  não representa necessariamente a opinião deste blog nem de nenhuma das igrejas do Movimento da Ciência Cristã. Foi publicado para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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PARA REFLETIR:

Cristo - Cristo é a ideia verdadeira que proclama o bem, a mensagem divina de Deus aos homens, a qual fala à consciência humana. CS 332:9-11

Deus construiu uma plataforma mais elevada de direitos humanos, e a baseou sobre reivindicações mais divinas. Essas reivindicações não se fazem através de códigos ou de credos, mas pela demonstração de “paz na terra entre os homens” e de boa vontade para com eles. CS 226:20 

Ao discernir os direitos do homem não podemos deixar de prever o fim de toda opressão. A escravidão não é a condição legítima do homem. Deus fez livre o homem. CS 227:14-17

Cidadão do mundo, aceitai a “liberdade da glória dos filhos de Deus”, e sede livres! Esse é vosso direito divino. CS 227: 23-25

 

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domingo, 8 de julho de 2012

A REVOLTA DE CORÉ

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Conteúdo desta página

▪ Comentário sobre relato bíblico:

   A REVOLTA DE CORÉ, DATÃ E ABIRAM: Números 16 e 17

▪ Geografia bíblica: 

    RIO GIOM

▪ Para refletir:

   - Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras de Mary Baker Eddy

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Comentário sobre relato bíblico:

 

A REVOLTA DE CORÉ,

DATÃ e ABIRAM:   

Números 16 e 17

 

                                    Vicente Artuso

 

Números 16 e 17 -  trata-se de uma narrativa de conflito das lideranças(Nm 16) e do povo contra Moisés e Aarão (Nm 17), a qual termina com castigo dos revoltosos e a confirmação de Aarão como líder do povo. Essa narrativa deixa claro que sua intenção era atemorizar aqueles que ousassem ficar contra a autoridade de Aarão, o qual, nessa história, representa o sumo sacerdote pós-exílio. 

O enredo foi escrito do ponto de vista daqueles que estão no poder. E, ao contrário do que aconteceu em Ex 3:7-8, Deus aparece aqui do lado das autoridades e não escuta o clamor do povo. Enfim, as relações entre povo e lideranças mostram-se muitas vezes conflitantes, e nem sempre as soluções são justas e democráticas.

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Referência ao grupo que participou da revolta  de Coré

em Números 26: 33 e 27:1-7 

 

33.  …Zelofeade, filho de Hélfer, não tinha filhos, senão filhas.

1. Então vieram as filhas de Zelofeade,

2.  Apresentaram-se diante de Moisés, e diante de Eleazar, o sacerdote, e diante dos príncipes, e diante de todo o povo, à porta da tenda da congregação, dizendo:

3. Nosso pai morreu no deserto e não estava entre os que se ajuntaram contra o Senhor no grupo de Coré; mas morreu no seu próprio pecado e não teve filhos.

4. Por que se tiraria o nome de nosso pai do meio da sua família, portanto não teve filhos? Dá-nos possessão entre os  irmãos de nosso pai.

5. Moisés  levou a causa delas perante o Senhor.

6. Disse o Senhor a Moisés:

7. As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente, lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai e farás passar a elas a herança de seu pai.

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Revelação de crise nas relações

entre povo e liderança

 

A  história da revolta de Coré, Datã e Abiram revelou fortes conflitos contra a autoridade e formas dramáticas de repressão a ponto de extinguir qualquer possibilidade de reação dos filhos de Israel que restaram do castigo.

A comunidade é organizada com líderes na base popular. Mas, como são classificados dentro de uma hierarquia, devem submeter-se a um poder centralizado que encontra sustentação no princípio de que o líder é o eleito que encontra sustentação no princípio de que o líder é o eleito de Deus.

A ideologia da santidade é interpretada como separação entre leigos, levitas e sacerdotes. Cada um desses grupos não pode violar seus espaço que delimita o campo de sua atuação. O sumo sacerdote é separado dentre os demais para aproximar-se de Deus sumamente santo e atuar no ministério da tenda do encontro como mediador entre Deus e a congregação.

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Nesse sistema, o culto se tornou instrumento para legitimar a posição e a função privilegiada do sumo sacerdote, o qual é colocado próximo de Deus e não deve ser ameaçado por murmurações e revoltas. Qualquer irregularidade fora dos espaços de atuação de cada ministério atrai a ira divina.

Essa era a ideologia dos membros da hierocracia[teocracia] pós-exílica para assegurar o governo sobre o povo. Somente a vara de Aarão, que representa o sumo sacerdote, é colocada na tenda do testemunho  (cf. Nm 17:25). Diante dele todos estão  prestes a perecer para sempre (cf. Nm 17:26-28). O final dessa história encontra uma semelhança significativa com o final do apólogo de Jotão, na voz do espinheiro que ameaça as árvores. Elas devem abrigar-se sob sua sombra, do contrário pode vir o fogo do céu e devorar até os cedros do Líbano(cf. Jz 9: 14-15).

Ninguém, por mais forte que seja, entre o povo (o cedro era a árvore mais forte) poderá enfrentar o poder do rei (espinheiro),  que invoca o fogo do céu para  queimar os insubmissos. Em nosso texto, a situação vivida pelos filhos de Israel no final da história também é  de submissão absoluta (cf. Nm 17: 26-28). A ênfase dada à debilidade dos filhos de Israel, sem força de reação, mostra como  o sumo sacerdote, simbolizado na vara de Aarão, tinha plenos poderes sobre a comunidade.

sacerdote

 

O poder parece consolidado sem perspectiva de mudança. Vence o grupo da instituição sacerdotal, na aposta sobre quem seria o escolhido.Tanto no relato do castigo de revoltosos, em 16:16-35, como em 17:9-15, Moisés e Aarão permaneceram sempre vivos na entrada da tenda do encontro e somente pessoas do povo pereceram como culpados. Portanto, na “queda-de-braço”, o poder dos grupos populares perdeu o confronto. Não se notam perspectivas de mudanças em favor de um diálogo com grupos de oposição ao poder. Os lideres de oposição foram aniquilados, permanecendo os filhos de Israel que sobraram muito enfraquecidos e vencidos pelo medo.

Do ponto de vista literário, Nm 16 e 17, inserido na parada do povo em Cades, forma um paralelo com Nm 12, que também apresenta a temática do conflito contra autoridade. Nm 16 e 17  e Nm 12 são textos que formam a moldura de Nm 13 e 14 que trata da revolta e conspiração do povo e morte daquela geração do êxodo. Esses blocos literários no centro da marcha do povo do Sinai, passando por Cades até Moab (cf. Nm 10; 21), relatam que a crise do projeto de uma sociedade mais igualitária do êxodo é essencialmente uma crise de autoridade.

Houve rebelião do povo em relação aos líderes Moisés e Aarão, como também Moisés e Aarão colocaram o projeto em crise, porque eles próprios se colocaram sobre a assembleia de YHWH (cf. Nm 16:3). Moisés é acusado de se transformar em príncipe totalitário sobre todos outros líderes (cf. Nm 16:13-14). Esse sistema revela características da dominação do Faraó, porque produz a morte no interior da comunidade. A situação é expressa na queixa irônica de Datã e Abiram contra Moisés: ”Nos fizeste subir de uma terra que mana leite e mel, para fazer-nos morrer no deserto?” (Nm 16:13).

O movimento da marcha do êxodo parou na crise de Cades, quando o povo não mais acreditava na autoridade de Moisés e também porque sua liderança se tornava um peso para alguns membros do povo.

Assim, o movimento que deveria avançar rumo à libertação acabou seguindo a direção contrária, retornando à situação de escravidão como no Egito. Moisés é acusado de se tornar príncipe sobre o povo  (cf. Nm 16:13). Aqui não foi o povo que pediu um líder para ser como as outras nações (cf. 1Sm 8:5). Na verdade foi o líder que adotou práticas autoritárias (cf. Nm 16:13b) à semelhança das nações que dominam.

Essa organização da comunidade é imposta por um grupo sacerdotal que se considera herdeiro  da promessa. Essa situação é vivida pela comunidade pós-exílica. Diante das revoltas do povo, o castigo é justificado por ideologias que culpam aqueles que se revoltam como os únicos responsávies pela crise, enquanto “o eleito” e seu grupo são imunes, pois estão mais próximos de Deus. É de Deus que o rei recebe o poder, e não do povo.

Por isso, qualquer revolta contra o rei é considerada uma revolta contra Deus, que o estabeleceu no poder, sem nenhum outro concorrente. Essa corrente teológica acaba por legitimar todos os atos do soberano sem o confronto com a comunidade, reproduzindo um sistema totalitário em nome de Deus. Isso contradiz o projeto do êxodo, pois acaba gerando escravidão, medo e morte.

No contexto mais amplo da marcha rumo à terra prometida, Nm 16 e 17 pode ser interpretado também como uma história de conflito de autoridade que nega a validade de forma autoritária de dirigir a comunidade por meio da repressão violenta contra os revoltosos. 

Com efeito, Nm 16 e 17 termina com a derrota absoluta dos opositores e a total submissão dos poucos que sobraram. E não consta nos relatos que houve paz no meio do povo, como se poderia esperar de um enredo de conflito-solução; o que houve foi pacificação com meios repressivos.  Esse detalhe desautoriza a prática autoritária para reprimir as revoltas. Com  efeito, os meios adotados para extinguir as revoltas contra autoridade foram apenas parcialmente eficazes. 

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Em Nm 20:2-3, o povo novamente voltou a revoltar-se contra Moisés e Aarão. A forma de repressão das revoltas ajudou a frear a marcha rumo à libertação e acentuou as crises. Nesse quadro sombrio da história, o povo não é livre, mas caminha sobre o regime do medo; os líderes maiores se colocam acima da assembleia; YHWH se revela ao lado dos líderes e contra aqueles que protestam. 

Trata-se de uma situação que destoa do projeto de uma sociedade mais igualitária conforme a proposta libertadora do êxodo. Nessa revolta quem venceu foi o mais forte; o mais fraco foi aniquilado, e aqueles que restaram se renderam enfraquecidos.

O leitor que se identifica com o grupo da resistência irá concluir que o medo venceu a esperança. Mas as medidas repressivas do castigo não devem ter aniquilados a força que ainda resta no meio do povo. A indignação ética mesmo oculta, em meio a grupos de menor expressão, poderá reiniciar nova luta, com a solidariedade dos dispersos que sobraram.

Se os fortes somam forças, os fracos criam outras forças e podem reagir a qualquer momento. Assim, uma leitura da história, na ótica dos grupos que se revoltaram contra Moisés e Aarão, revela a indignação ética dos oprimidos. Eles fazem valer seus direitos do povo liberto de se manifestar e de se levantar contra a postura autoritária dos líderes cuja prática era contraditória com os princípios de uma organização mais democrática. 

 

Vicente Artuso (1952), padre capuchinho, é  mestre em Ciências Bíblicas e doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica  do Rio (PUC-Rio, 2007),  autor de “A revolta de Coré, Datã e Abiram (Nm 16 e 17)”: Revelação de crise nas relações entre povo e liderança – Editora Paulinas, 2008.

 

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Geografia bíblica: 

 

Rio Giom

 De acordo com a Bíblia, o rio Giom  (na tradução de Almeida) rodeava a terra de Cush. Ele é o segundo dos quatro rios resultantes da divisão do rio que passava pelo Jardim do Éden, sendo os demais Pisom, Tigre e Eufrates.

Flávio Josefo identifica o rio Giom com o rio Nilo, e Pisom com o rio Ganges.

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Atualmente, não é possível identificar este rio com certeza. Não parece provável, pelo menos dum ponto de vista geográfico, que "a terra de Cuxe" mencionada aqui represente a Etiópia, conforme ocorre frequentemente em relatos posteriores.

Alguns lexicógrafos associam "a terra de Cus" de Gênesis 2:13 com os cassitas (em acadiano: kassu), um povo do planalto da Ásia central, mencionado em antigas inscrições cuneiformes, mas cuja história continua bastante obscura.

 

Bibliografia: Bíblia; Apostila de Geografia bíblica - ITB - Instituto Teológico Betel do ABCD; Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, página 223.


Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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PARA REFLETIR:

 

GIOM(rio). Reconhecimento moral, civil e social dos direitos da mulher. CS 587:4

Um só Deus infinito, o bem, unifica homens e nações; constitui a fraternidade dos homens; põe fim às guerras; cumpre o preceito das Escrituras: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”; aniquila a idolatria pagã e a cristã – tudo o que está errado nos códigos sociais, civis, criminais, políticos e religiosos; estabelece a igualdade dos sexos; anula a maldição sobre o homem, e não deixa nada que possa pecar, sofrer, ser punido ou destruído. CS 340: 23

CS = Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras – Mary Baker Eddy

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