sábado, 28 de março de 2015

AS COXAS - o nome descoberto

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Comentário sobre relato bíblico:

 

 "... ficando ele só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia. Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem.

Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares."  Gênesis 32:24, 25

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As coxas: o nome descoberto

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

No texto bíblico, as coxas representam um dos lugares mais significativos das transformações interiores do homem que, nas trevas, está em luta consigo mesmo. O humano pode sair de seu infantilismo espiritual rastejante e de sua inconsciência. E o faz mediante tropeços que o levam a mancar. Caminhar mancando é um sinal de estar ciente de sua natureza incompleta, das dimensões interiores ainda não esposadas.

As coxas representam a possibilidade de tomada de consciência da fraqueza de nossa força e da força de nossa fraqueza. A expressão em português "se mancar" o homem capacita-se, convence-se  de que está sendo inoportuno, inconveniente ou com etendo erro ou engano. A falha ou esquecimento com relação a algum compromisso também é tratada como "dar uma mancada".

A coxa é a parte do membro  inferior do homem que vai desde as virilhas  até o joelho, e cujo esqueleto é o femur. A coxa é naturalmenrte associada com o quadril (cadril - cadeiril, cadeira), onde se situa a articulação de fêmur com ilíaco. é um lugar onde se unem força e erotismo. "Os contornos de tuas ancas são como, no  anéis, obra de mão de artista" diz o amado a sua amada, no Cântico dos Cânticos (Ct 7,2). Se na tradição cabalística os pés correspondem ao feto no ventre da mãe, os joelhos à criança em seu nascimento, com todo o seu poder vital e sua força emergente, as coxas evocam a adolescência e as passagens iniciáticas do amadurecimento.

No texto bíblico, as coxas e os quadris - onde se ata o cinto1, carrega-se a espada 2  atam-se as vestes que cobrem a nudez 3 - falam do Homem  de espírito em conflito com o Homem animal. Jacó é abençoado no dia em que é atingido e ferido por Deus no músculo 4 da coxa, bem próximo da genitália, e fica manco ( Gn 32, 25-26).

Como Jacó, nós também somos abençoados no dia em que tomamos consciência de nossa condição de coxos, de imperfeitos, de não-realizados. Como diz o profeta: "Desde que me vejo como sou, bato no quadril" (Jr 31, 19). Num dos epizódios mais significativos da Antiga Aliança, Jacó tem, no final dessa noite de luta com seu outro, o nome mudado. Ele descobre pela luta seu verdadeiro nome, Yisrael.

 

Qual o contexto dessa luta?

 

JACÓ_ANJO_COXA

 

Na plenitude  da dinâmica de TER, Jacó havia obtido de seu irmão Esaú o direito de primogenitura em troca de um prato de lentilhas ruivas e, por meio de uma série de ardis, a bênção sacramental de seu pai Isaac.  Esaú  promete matar Jacó após a morte próxima de seu pai (Gn 27,41). Rebeca, sua mãe, aconselha Jacó a fugir para a casa de seu tio Laban. Ele deixa seu irmão e seus pais e parte somente com seu bastão.

Durante a viagem, entre Beer-Sheba, onde vivia, e as terras de Harran, Jacó terá a visão da escada cujo topo atingia o céu. Nas terras do tio, Jacó casará com suas duas filhas, Léa e Raquel, e o servirá por sete anos. Entrará em conflito com Laban e seus filhos, viverá um complexo acerto de contas e finalmente retornará ao encontro d de Esaú.

Temeroso, ele (Jacó) se prepara para o reencontro com Esaú. A força de Esaú vai contrapor-se à força de Jacó. Esaú não fora capaz de deixar pai e mãe, de abandonar estas muletas, e vivia no labirinto parental. Um pouco como o irmão mais velho do filho pródigo na parábola de Jesus (Lc 15, 11-32).

Ao caminhar para si, Jacó constroi uma força ascensional para opor-se a Esaú. Expede mensageiros, toma preocupações, envia presentes ao acampamento do irmão e pede a proteção do Senhor: "Eu peço, salva-me da mão de meu irmão, da mão de Esaú, pois tenho medo dele" (Gn 32,12). Chegada a noite, Jacó passa o rio Yaboqco suas duas mulheres, seus dois  servos,  seus onze filhos e tudo o que lhe pertencia. Faz essa passagem duas vezes. Retorna e fica só. Um homem luta com ele até a aurora.

Em Jacó, o Homem em túnica de pele deixa a suas muletas parentais e torna-se Homem consciente, desidentifica-se do irmão e adquire uma outra força. Essa nova força começa a ser adquirida no campo energético do feminino. O modo de conhecimento do feminino é diferente do masculino e representa uma inspiração à qual o espírito masculino raramente tem acesso.

Ele descobre o feminino em primeiro lugar da forma mais elementar, ao desposar sucessivamente as duas filhas de Laban. Depois, a partir dessa experiência é que será capaz de assumir e esposar (sponsa 5 ), as dimensões femininas em seu ser, ao tornar-se responsável. Jacó adquire bens materiais e espirituais por seu trabalho exterior e interior. Por sete anos, um ciclo cósmico, um tempo de aperfeiçoamento, ele vive nessa dimensão "lunar", feminina. Laban em hebraico significa branco, mas também um dos nomes do astro da noite, a Lua.   

Deus diz a Jacó: "Retorna à terra de teus pais, a teu nascimento, Estou contigo" (Gn 31,3). Nesse retorno às origens, Jacó, Homem consciente e responsável, prepara-se para encontrar-se com o outro-ele  mesmo, seu irmão em túnica de pele.  Jacó prepare-se para esposar uma dimensão ainda mais difícil de si mesmo.  Jacó teme. Tenta ardís, como em outras ocasiões de sua vida. Seu irmão, indiferente, marcha em sua direção com quatrocentos homens. Isso exige de Jacó morrer para seus medos. Exige uma nova estatura, capaz de restituí-lo com relação a essa redutável dimensão do irmão gêmeo. Ele prepara-se para essa passagem.

Diante do rio Yaboq, de instigante toponímia, Jacó fará durante a noite, duas vezes a passagem desse vau com seus bens e familiares. No texto, a palavra hebraica Ever, o nome dos hebreus, Homens de passagem, é repetida duas vezes. ou seja, Jacó realiza a plenitude de seu nome, tanto como hebreu, como no jogo homônimo de palavras com o rio Yaboq, que também mimitiza o verbo hebraico lutar, yeavoq,   cuja raiz significa abraçar, apertar e pulverizar.

"Às trevas da criatura responde a noite da Transcedência" 6, nas palavras do místico S. João da Cruz (1542-1591). Anoiteceu. É a noite escura, a noite da alma. "Um homem luta com ele até elevar-se a aurora" (Gn 32,25). A tradição oral viu nesse homem um anjo, um mensageiro de Deus.  

Para Rashi, citado, "nossos sábios, de abençoada memória", era o anjo de Esaú. Pelo verbo hebraico, esse homem o abraça, até reduzi-lo a pó. Menahen ben Saruk, citado por Rashi, traduz essa passagem como "e empoeirou-se um homem".  Em sua noite escura, Jacó - que para os cristãos prefigura Jesus - dirá: "A noite penetra meus ossos e me estraçalha, meus nervos sofrem sem interrupção" (Jó 30,17). Rashi entende essa passagem de Jacó como "amarrado a ele, a seus laços. Porque esse é o meio de duas (pessoas) que se esforçam para derrubar uma à outra: uma abraça e enlaça (a outra) com seus braços" 7.

O texto hebraico diz Ish, um homem, no sentido de "esposo". Jacó entra no casamento místico consigo mesmo, no mais profundo e alto nível enegético, a fim de poder encontrar e "desposar" seu irmão. Esaú, homem vermelho, animal, grossseiro, não realizado, mas pelo qual passa a encarnação de Jacó.  Trata-se da dança do homem consigo mesmo e, enquanto vida, de sua dança com Deus 8. Uma dança noturna e dolorosa que deixa marcas. Nada podendo, o homem toca na palma da coxa de Jacó e ela se desloca. Quando o sol brilha, Jacó "coxeava da coxa" (Gn 32,32). No texto bíblico, vê-se o gesto de bater na coxa como gesto de dor (Ez 21, 17).

Ele fica coxo. Ele sempre fora coxo, como visto na simbologia dos pés, mas agora ele toma consciência de que ainda não esposou a totalidade de seu ser e caminha para sua verticalização.  Atingidos na coxa, estamos diante de um sintoma revelador: para atingir sua verticalização,  o Homem deve desposar todo o potencial de energia selada em seu feminino. Jacó, pressentindo a identidade do homem Ish, pede sua benção. 

Quando indaga o nome, o homem responde:  - Porque me perguntas?  Em realidade a resposta já tinha sido dada. Jacó havia combatido com Yisrael para se tornar Yisrael. "Teu nome não será mais dito Jacó mas Yisrael - lutador de El: sim, lutaste (saro) com Deus (EL) e com os homens (Ish), e prevaleceste" (Gn 32,29). Revelação do nome e de toda energia.

É no nível do lutar que a transformação foi feita de Jacó para Yisrael, reduzido a pó até atingir seu princípio (príncipe= sar, em hebraico).O homem atinge sua divinificação quando encontra a fonte ou o princípio pela qual ele integra-se a totalidade do cosmos. Todos nossos Nomes, germes da Vida, nos quais Deus soprou em Adâm - ou melhor  ainda soprou Adâm (Gn 2,7) - estão contidos no seu santo Nome, IHWH. 

Revestido da força divina, Jacó-Yisrael reencontra seu irmão Esaú. Fora de uma relação de forças. A experiência de Jacó junto a Laban  é homóloga à dos homens  junto ao Egito. O povo de Yisrael, nascido de Jacó, viverá a experiência de passagem, da luta consigo mesmo e da integração mística de suas dimensões masculinas e femininas.   Da criança Jacó nasceu um homem Yisrael. Com   Jacó devemos tomar consciência que, longe de sermos seres alados, somos todos coxos.

No interior da coxa de Júpiter (Zeus), Dionísio havia realizado uma segunda gestação, como numa árvore oca. Nas pessoas idosas, a ruptura espontânea da cabeça do fêmur 9 deveria ser uma última lembrança de nossa natureza coxa e da eminência do final desta segunda gestação.

Acidentes dessa natureza evocam a proximidade da passagem, da páscoa individual, a cruzar da Porta dos homens de TER para SER, para ver realizada a profecia do livro do Apocalipse: "Sobre seu manto e sua coxa ele traz inscrito um nome: Rei dos reis e Senhor dos Senhores" (Ap 19,16).  

 

1. " A justiça será o cinto de seus quadris e a fidelidade, o cinturão de seus rins." (Is 11,8)

2. "...cada um sua espada sobre os quadris para enfrentar o terror da noite" (Ct 3,8)

3. "Confecciona-lhes calções de linho para cobrir a nudez; irão dos rins às coxas" (Ex 28,42)

4. O corpo humano tem cerca de 640 músculos diferentes, todos voltados para empurrar e contrair. Os músculos da coxa cumprem também um papel na sustentação do esqueleto humano.

5. Esposa. Presente na palavra re-sponsa-bilidade.

6. São João da Cruz, Obras completas. Vozes, Petrópolis 1991.

7. Chumash. Bereshit. Bíblia. Com comentários de Rashi. Trejger Editores, São Paulo 1993.

8. Annick de Souzenelle. Le symbolisme du corps human, op.cit.

9. O fêmur é o osso único da coxa, o maior do corpo humano e mais resistente do que o concreto. É provável que a maioria dos humanos, ou pelo menos boa parte da humanidade, viva em casas menos resistentes do que seus fêmures! A estrutura interna e externa do fêmur, na forma de articulação na bacia, com a cabeça deslocad com relação ao eixo principal, serviram de modelos para a construção da torre Eifel em Paris.

 

Fonte: Corpo - Território sagrado de Evaristo Eduardo de Miranda, Edições Loyola, 6ª edição, 2010.

Autor: Evaristo Eduardo de Miranda é mestre e doutor em ecologia pela Universidade de Montpellier, França, profundo conhecedor da teologia espiritual, agente da pastoral da esperança. De sua aproximação às escrituras e ao hebraico nasceu este livro.

Nota: Este blog tem publicado, além de artigos de Ciência Cristã, escritos de pessoas situadas em diferentes religiões, que ao desafiarem sua inteligência, sem medo de ousar, procuram buscar a verdadeira essência dos ensinamentos dos textos da Bíblia. Apontando com suas produções, de algum modo, para aspectos ou características da teologia da Ciência Cristã.

Desta maneira, mantendo diálogo inter-religioso, participamos da elevação do pensamento do leitor a consciência de princípios universais, básicos para o cristianismo, importantes para o progresso da humanidade.

"A familiaridade com os textos originais e a disposição de abandonar as crenças humanas (estabelecidas por hierarquias e instigadas às vezes pelas piores paixões dos homens), abrem o caminho para que a Ciência Cristã seja compreendida, e fazem da Bíblia o mapa náutico da vida, no qual estão assinaladas as boias e as correntezas curativas da Verdade." Mary Baker Eddy

 

ATENÇÃO:   As coxas: o nome descoberto   não representa necessariamente o pensamento do Movimento da Ciência Cristã (A Igreja Mãe em Boston ou qualquer de suas filiais, sociedades ou grupos informais de estudos, existentes em diferentes países do mundo), foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia no contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica em que seus relatos foram escritos. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e a opinião de estudiosos do texto bíblico, como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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domingo, 8 de março de 2015

MULHERES E PROFETISMO NO PRIMEIRO TESTAMENTO

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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 

8 de março de 2015

 

 

" A falta de poder espiritual na demonstração limitada

 

do Cristianismo popular não reduz a silêncio o labor dos séculos.

É a consciência espiritual, não a corporal, que se faz necessária".

Mary Baker Eddy

 

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Comentário sobre relatos bíblicos:  

 

Mulheres e profetismo no primeiro testamento 

   

1. Iniciando nossa conversa

“...O profetismo é também o anúncio da esperança, da utopia que buscamos e que não nos deixa desanimar, porque temos a promessa o futuro, assim como já conduziu os passos dos profetas e pais que nos precederam na fé.” (CAVALCANTE, 1987)

Ao falar em profecia, profetas e profetismo imediatamente pensamos nos grandes nomes de Amós, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Elias; todos homens grandiosos que fazem parte do cenário profético das Escrituras Sagradas. Porém se olharmos atentamente os textos bíblicos numa perspectiva feminina veremos que, no percurso do agir profético, houve, como ainda há em nossos dias, a participação insubstituível da mulher.

No entanto, se a leitura bíblica que fazemos ainda é carregada de pré-conceitos e estereótipos masculinos, as mulheres profetisas não serão encontradas facilmente, mesmo por que a tradição judaico-cristã nunca fez questão de reconhecer esta participação na história da salvação. Mesmo hoje, parece que a lista de mulheres mártires e profetisas lembradas em nossas liturgias não enche uma página. Será que as mulheres não participam ou será que continuam propositalmente esquecidas?

02

  Rute estava disposta a trabalhar arduamente num serviço humilde para sutentar a si mesma e a Naomi, sua sogra. 

 

Hoje há milhares de mulheres, judias, protestantes e católicas que procuram fazer uma leitura bíblica no contexto do povo, enfatizando o papel das mulheres e de outros marginalizados na Bíblia. No entanto, a força da visão patriarcal da religião é tão universal, que milhares de mulheres ainda acreditam que Deus (um puro espírito sem gênero) é masculino e por isso sempre escolheu homens e continuará a escolhe-los como profetas, sacerdotes e governantes do povo por serem “melhores e moralmente mais fortes do que as mulheres”.

Mas isso não precisa continuar sendo assim, uma visão histórica e socialmente construída leva quase o mesmo tempo para ser desconstruída, é o que as mulheres, profetisas de nosso tempo estão tentando forjar. É o que nos mostra a afirmação de uma delas, num ensaio sobre mulheres na Bíblia:

“As biblistas feministas, em geral, são multidisciplinares em sua abordagem do texto bíblico. Elas trabalham com a análise literária, a antropologia, a sociologia, a lingüística, a filosofia e a psicologia. A interligação de todos esses campos permite penetrar o texto em seu contexto de povo de Deus num mundo abrangente. Essa leitura é importante para todas as religiões.” (Ana Flora Anderson, s/d)

Ao falarmos de profetismo feminino, logo de cara nos deparamos com o que alguns autores/as denominam ocultamento e nós concordamos com eles. Em nossas leituras e análises, observamos que as mulheres aparecem muito nos textos, mas em geral, mesmo quando sua presença é importante, seu nome é substituído ou acompanhado por sua função familiar: a irmã de Moisés, a mãe dos macabeus, a mulher do profeta; e hoje ainda- a mãe do padre Josimo, as mães da praça de maio, as margaridas, a viúva do Chico Mendes, etc. é por essas e outras que necessitamos de um olhar atento, vigilante, quando quisermos descobrir onde há mulheres atuando, fazendo, criando, lutando e proferindo uma palavra profética na história.

”Se houve todo um processo de ocultamento das mulheres por parte dos que escreveram a Bíblia, isso nos leva a uma leitura mais crítica. Lá onde alguma mulher aparece explicitamente numa posição louvável, especialmente se ela recebe o título de “profetisa” ou “juíza”, é porque sua liderança ultrapassa todas as barreiras patriarcais e se impôs como impossível de ser omitida” (Cavalcanti,1987).

2. Profetisas do Primeiro Testamento

2.1.Miriam ( Ex 15,20-21;Mq 6,4; Nm 12)

A Bíblia cita inegavelmente a profetisa Miriam como uma das envolvidas no projeto de libertação dos hebreus junto com Aarão e Moisés. O cântico de Miriam é um dos mais antigos escritos da Bíblia, o que denota que desde o começo houve a presença de mulheres na história de Israel acontecida e também na história escrita.

Miriam é aquela que puxa o cordão das mulheres, toca tamborim, dança e canta em homenagem a Javé, o libertador. Obviamente o texto menciona seu parentesco com Aarão, mostrando uma forma de não deixar a liderança de uma mulher sobressair sozinha. No entanto em Miquéias 6,4, Miriam aparece em pé de igualdade com Moisés, mas no capitulo 12 dos Números, ela é punida com a lepra por contestar Moises e só é curada com a mediação do mesmo.

Apesar das tentativas de diminuir sua importância, uma leitura do ponto de vista da mulher coloca Miriam em destaque e seu profetismo consiste na liderança das mulheres, no louvor e reconhecimento ao Deus que liberta e quer vida digna para todos e todas.

2.2. Débora (Jz 4-5)

Num momento de fraqueza e dispersão das tribos, a juíza Débora convoca o chefe Barac e todos os guerreiros para lutar em defesa do povo e sob a proteção de Javé. O texto fantástico de Juízes 4 deixa claro o brilho de Débora, assim como o de Jael em oposição à fraqueza masculina revelada em Barac e Sísara. É esse texto que ressalta o profetismo de Débora e seu papel: despertar as lideranças adormecidas, convocar as tribos para a união, levantar o ânimo de todos e sobretudo convocar à fé no Deus libertador. Essa é fé cantada em ritmo de festa e louvor, terminando com um grito confiante:

“Aqueles que te amam, Javé, que eles sejam como o sol quando se levanta em sua força”(jz 5,31)

Mais tarde, a carta aos Hebreus (11,33) fará menção ao tempo dos juizes, citando vários e até o covarde Barac,mas omite Débora. É preciso que as mulheres e também os homens de hoje desconstruam essas idéias de exclusão ou diminuição do papel da mulher contidas na Bíblia, analisando o contexto do escrito e pondo as cartas na mesa.

 2.3 Hulda (2 Rs 22,14-20)

No tempo da reforma de Josias, a infidelidade a Javé e a idolatria se tornam um perigo iminente, Josias pede seus homens de confiança para consultarem a Javé, no entanto eles se dirigem a Hulda, que prediz a desgraça de Jerusalém. Sua função é comparada a de muitos profetas que são consultados pelos reis em momentos difíceis e decisivos. Seu profetismo consiste em alertar a consciência de fé do povo, e tal consciência emerge, com o mesmo grau de agudeza, entre homens e mulheres.

  2.4. Agar (Gn 16; 21,8-21)

Desculpe-nos os biblistas tradicionais se não nos reportamos a matriarca Sara e sim a Agar. Acreditamos que devemos isso a ela e a todas as mulheres negras, escravizadas e espoliadas de nossa história. Os dois textos apresentam a história de Agar e seu filho Ismael, que mesmo diferentes entre si, revelam a resistência de Agar a submeter-se a uma situação de injustiça, na qual ela reivindica os direitos de seu filho, o primogênito de Abraão.

A história de Agar entra em sintonia com a história de milhares de mulheres, mães solteiras ou abandonadas pelos maridos, tendo que arcar sozinhas com a criação dos filhos. E o incrível é que vendo a história por essa ótica, Abraão, nosso pai na fé, fica em maus lençóis, foi omisso, deixou que seu filho fosse embora, viver em condições difíceis no deserto com sua mãe, tendo na casa do pai todo o conforto.

Porém Javé, que é o Deus da vida, recompensa Agar a ela se manifestando e anunciando a promessa de grande descendência. E ainda que Sara nos pareça vitoriosa, Javé não abandona Agar que foi oprimida, mas cumpre sua promessa, acompanha e protege dos desvarios de sua “senhora”.

2.5. Ana ( 1Sm 1, 1-2, 11)

Ana é encarada como a profetisa que inspirou o Magnificat. Sendo estéril, é agraciada por Javé com um filho, que consagra a Deus por toda a vida. Ela, humilhada por Fenena, outra esposa de Elcana, seu marido, representa a grande massa oprimida que não tem voz e nem vez e até o pão lhe é dado com indiferença e desprezo. Mas ela não se deixa subjugar e confia no Deus que dá vida, liberta e faz justiça. Seu cântico deixa a perspectiva individual de uma mãe que se rejubila com a gestação, e passa ao louvor do Deus cheio de sabedoria e justiça.

2.6. Rute e Noemi (livro de Rute)

O livro de Rute não enfoca especificamente o carinho filial de uma nora por sua sogra, mas aborda a questão da terra, da fome e da família de Israel. Duas mulheres em condições peculiares: uma viúva (Noemi) e a outra também viúva e estrangeira (Rute, a moabita). Ambas vão lutar pela sobrevivência numa situação precária na qual fazem valer a lei a seu favor.

O profetismo de Rute e Noemi consiste na afirmação da vida e da posteridade da família e do povo, num contexto de total desesperança.“Rute, cujo nome significa amiga ou saciada, é o símbolo da mulher por quem o povo renasce, porque sua fé foi agraciada e sua esperança tornou-se fecunda”.

2.7. Ester (livro de Ester)

A personagem de Ester surge ligada a um contexto de perigo iminente do extermínio do seu povo. O livro relata o episodio da historia dos judeus em que um alto funcionário da corte do Rei Assuero decreta o extermino dos judeus. Ester, esposa do rei, de origem judia, expõe sua vida na tentativa de impedir que o decreto fosse cumprido e consegue inverter o processo. Ela representa uma mulher aparentemente frágil, que assume a defesa do povo ameaçado, e para faze-lo convoca todos os seus ao jejum e a união de forças.

2.8. Judite (livro de Judite)

Trata-se de uma história fictícia que objetiva restabelecer a fé no Deus que “está conosco” e recuperar a confiança do povo, mantendo-o fiel ao projeto de Javé. Como Jael e Ester, Judite arrisca sua vida e usa seus encantos femininos para cativar e depois trair o general inimigo e assim salvar os filhos e filhas de Israel.

O bonito dessa narrativa é que não há negação da corporeidade feminina, claramente explicita no grau de erotismo e sensualidade presentes no texto. Mas o conteúdo mais profundo da atuação feminina,está no modo como Judite se dirige aos chefes da cidade para dizer-lhes que não se pode tentar a Deus, dando-lhes prazos de intervenção. De Javé só se pode esperar ação livre e gratuita.

Oração e ação caminham juntas no profetismo de Judite, que ora e jejua no tempo da provação e preparação, e canta e dança, enfeita-se e distribui ramos às companheiras para celebrar a vitória e a paz. Como Débora, Miriam e Rute, Judite também nos oferece um cântico de alegria contagiante que enriquece a escritura sagrada, esculpindo nela os contornos de nossa feminilidade.

No momento mais decisivo de sua atuação, sua oração faz lembrar aos homens e mulheres de nossa sofrida América latina que nosso Deus é nossa força, “é o Senhor quem protege o oprimido”:

“Teu poder não está no grande número, nem tua soberania entre os que tem força. És o Deus dos humildes, o socorro dos oprimidos, o amparo dos fracos, o protetor dos abandonados, o salvador dos desesperados” (Jt 9,11)

  2.9. A mãe dos Macabeus

Embora se trate de uma obra edificante, os fatos relatados devem ter algum fundamento histórico e o episódio relativo à mãe dos macabeus não deve ter surgido do nada. O livro refere-se às lutas dos Judeus, liderados por Matatias e seus filhos, especialmente Judas Macabeu, contra os reis selêucidas, que quiseram impor os costumes gregos na Judéia. No contexto apocalíptico colorido de terror, como se vê pela descrição do martírio dos sete filhos, a figura que mais se sobressai é a da mulher. Seui profetismo marca esse momento de modo especial. Gallazzi afirma que aquela mãe se torna o símbolo “do povo pobre que resiste, recupera sua memória e elabora uma contra-ideologia, que sustenta a resistência e a luta do povo. A mulher ‘produz’ uma nova mística de vida, num momento que reina a morte”.

A profissão de fé daquela mãe corajosa assume uma conotação bem feminina, dirigindo-se a seus filhos na língua de seus pais, exortando-os e animando com ardor viril o seu raciocínio de mulher (2 Mc 7,21). Trata-se de uma confissão de fé explicita no ato criador de Deus que gera os homens através do seio da mulher e cujo poder é capaz de tirar da morte aqueles que foram assim gerados.

Como essa mulher que não tem nome, milhares de mulheres insurgem contra a ideologia vigente sendo protagonistas anônimas contra a violência do opressor que atinge mulheres e crianças indefesas nos conflitos de terra, na guerra urbana do dia-a-dia, nas favelas, becos e guetos de nossa espoliada América Latina.

 

3. Mulheres e Profetismo hoje: Para não concluir nossa conversa

Ler a Bíblia na ótica da mulher significa procurar o que cada texto diz às mulheres de hoje, de modo a impugnar qualquer interpretação distorcida pelo machismo. A interpretação da Bíblia sempre foi masculina, pois o masculino era tido como universal. Mas se a idéia de universal passa pela ótica de que todos somos iguais, embora diferentes, homens e mulheres devem se sentir incomodados cada vez que a leitura da Bíblia conduzir à desigualdades e discriminações de qualquer natureza.

As profetisas de hoje estão saindo do anonimato e rompendo a cadeia da exclusão. Não podem ficar de fora dessa reflexão, as milhares de mulheres que fazem história em nosso continente e no mundo afora, cada uma a seu modo, com sua cultura e expressão, vão rompendo “as algemas”e mostrando a cara e a voz. Não estamos falando da “revolta dos sutiãs”, mas de mulheres que não aceitam a ditadura da beleza imposta pela mídia e arrebentam as correntes da violência doméstica, do direito de escolha, libertas e provocadoras de mudanças. Estamos falando dasmulheres que assumem a defesa de seu povo com coragem e firmeza( Jz 5, 28-30) e não ficam passivas a esperar os homens voltarem da guerra com os despojos”.

Parece-nos costumeiro ouvir dizer que os profetas estão mudos, ninguém anuncia ou denuncia mais, talvez seja por que a voz dos homens que gritou durante séculos, inclusive abafando a voz das mulheres, esteja enfraquecida pelo egoísmo e falta de partilha na missão profética. Pare e pense: será que os profetas sumiram ou será que é a vez e a voz das profetisas que estão sobressaindo? As mães da praça de maio, as quebradeiras de coco babaçu, as rendeiras e doceiras reunidas em cooperativas, Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Maria da Penha, Doroty, as margaridas, as mulheres do MST e de outros movimentos populares, Oneide, Rosa, Ana Maria, Agostinha do Cebi, Tereza Cavalcanti, Inês, Catarina de Sena, Joana d’Arc, Anita Garibaldi, Ana Nere, e as milhares espalhadas por este mundo, incluindo todas as alunas das escolas bíblicas espalhadas pelos cantos desse pais, continuam como Raab, Séfora e Fuah, dentro do contexto de sua feminilidade a gerar vida e vida em abundância para todos e todas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2001.

BÍBLIA SAGRADA – Ed. Pastoral. São Paulo: Paulus, 2000.

COLEÇÀO: A PALAVRA NA VIDA. Mulher: Fermentando e Gerando Vida.Várias Autoras. nº 121.São Leopoldo,RS: Cebi, 2001.

CAVALCANTI.Tereza M. Mulheres e Profetismo no Antigo Testamento. In: Curso de Verão, Ano II. São Paulo: Paulinas, 1988.

STRÕHER. Marga J. (et al). À Flor da Pele: Ensaios sobre gênero e corporeidade. São Leopoldo,RS: Sinodal, Cebi, Est; 2004.

Fonte: Alexandre, Edicarlos,  Eliana, Elaine, Jucimar e Maria das Graças - da Escola Biblica Flor de Piqui  - Participantes da 1ª Etapa da Escola B. Flor de Pequi/2007 - CBI 

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Nota: É uma pena que, em meio a tanta produção acadêmica e reflexões sobre a Bíblia, pessoas de diferentes denominações ainda se contentem com a interpretação cotidiana ou de senso comum sobre textos bíblicos. Deixando de usufruírem, progressivamente, da profunda sabedoria contida nas Escrituras.

Este blog tem publicado, além de artigos de Ciência Cristã, escritos de pessoas situadas em diferentes religiões, que ao desafiarem sua inteligência, sem medo de ousar, procuram buscar a verdadeira essência dos ensinamentos dos textos da Bíblia. Apontando com suas produções, de algum modo, para aspectos ou características da teologia da Ciência Cristã.

Desta maneira, mantendo diálogo inter-religioso, participamos da elevação do pensamento do leitor a consciência de princípios universais, básicos para o cristianismo, importantes para o progresso da humanidade.

"A familiaridade com os textos originais e a disposição de abandonar as crenças humanas (estabelecidas por hierarquias e instigadas às vezes pelas piores paixões dos homens), abrem o caminho para que a Ciência Cristã seja compreendida, e fazem da Bíblia o mapa náutico da vida, no qual estão assinaladas as boias e as correntezas curativas da Verdade." Mary Baker Eddy

 

ATENÇÃO:   Mulheres e profetismo no primeiro testamento  não representa necessariamente o pensamento do Movimento da Ciência Cristã (A Igreja Mãe em Boston ou qualquer de suas filiais, sociedades ou grupos informais de estudos, existentes em diferentes países do mundo), foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia no contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica em que seus relatos foram escritos. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e a opinião de estudiosos do texto bíblico, como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

ORACIÓN EN ESTADO DE ALERTA

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Oración en estado de alerta    

 

 

"Interrumpimos esta programación para traerles un informe especial..." "Nos acaba de llegar..." "Ahora vamos en vivo a..." "Toda la atención está centrada en..."

Los mensajes que comienzan así, acompañados a veces de más información en la parte inferior de la pantalla del televisor, hace que nos demos cuenta instantáneamente de que, algo importante ha ocurrido. Incluso, aunque el volumen esté bien bajo, las imágenes pueden indicar urgencia, tensión, disturbios.

BIENAL DE SÃO PAULO_Foto Edésio Ferreira Filho 

Bienal de São Paulo, 2012 - Foto: Edésio Ferreira Filho

 

Respondamos a las noticias con inteligencia.

En esta era de comunicación instantánea, la información viaja a la velocidad de la luz, y los beneficios son enormes. Es bueno estar informado. Poder saber casi de inmediato lo que está ocurriendo es útil en todo sentido, ya sea para que una persona encuentre los últimos datos de la bolsa de valores o el resultado de su deporte favorito, o para que toda una ciudad pueda buscar refugio y escapar del paso de un tornado.

No obstante, se debería colocar una advertencia en la corriente de imágenes e información que ha llegado a ser parte de nuestra vida diaria. Podría decir algo así como: "Piensa por ti mismo". Especialmente, cuando las noticias son muy graves y aterradoras, hay una tendencia a que prevalezca la mentalidad que afecta a grupos masivos.

El miedo engendra más miedo. La ira promueve más ira. Y a veces, la información que produce perturbación se transforma en una entidad en sí misma, algo que se adueña de nosotros en lugar de servirnos. Parece decir: "Tienes la obligación de sentirte temeroso/perturbado/horrorizado". "Las cosas realmente están muy mal".

Aun cuando las noticias sean de una tremenda explosión en un lugar público o de amenazas terroristas para provocar pánico, es necesario distinguir entre lo que es ser informados y ser perturbados. La primera opción nos permite pensar con claridad y tomar buenas decisiones. La segunda, promueve la sensación de que estamos indefensos y que no podemos pensar por nosotros mismos ni ayudarnos los unos a los otros.

Esta revista y sus publicaciones hermanas, entre ellas el diario The Christian Science Monitor, fueron establecidas sobre la base de que el público necesita saber la verdad para que, como ciudadanos, piensen y oren de una mejor manera, y tengan una papel activo en la resolución de los conflictos mundiales.

Hay una clara diferencia entre la actitud pasiva de ver y absorber imágenes aterradoras, y la actitud alerta que no ignora las noticias, sino que responde a ellas de una manera que contribuye a tranquilizar a toda la población, aportando iluminación, en lugar de echar más leña al fuego. Esto implica buscar el poder de Dios y saber que no hay situación en la cual Él no pueda ayudarnos.

La oración es una respuesta poderosa a las noticias inquietantes, es una actividad mental que tiene efectos sanadores en la vida de la gente individualmente y, en consecuencia, en las comunidades y naciones. La oración da resultado incluso cuando pasamos por momentos alarmantes.

En oración podemos ir a lo que la Biblia llama el "abrigo del Altísimo". 1 Cuando el propósito es prestar atención a la Mente divina, el sentirnos bajo ese abrigo puede ser para el bien de todos, y no solo para nuestro beneficio personal.

Jesús es un modelo de lo que significa orar incesantemente. La Biblia dice que en un momento dado él fue amenazado por la conspiración de sus críticos que querían destruirlo. Cuando Jesús se enteró "se apartó de allí". Pero él no lo hizo en vano. Las Escrituras continúan diciendo que "le siguió mucha gente, y sanaba a todos". 2

Esta respuesta orientada a encontrar soluciones a las malas noticias puede que a veces requiera un esfuerzo de parte nuestra. Puede que sea necesario sacrificar la pasividad de dejar que se nos informe y entretenga, así como la fascinación negativa que se siente al ver la gravedad de los sucesos mundiales. No obstante, podemos al mismo tiempo mantenernos tan informados como sea necesario.

Entre el ruido de los tambores de guerra y las crecientes amenazas terroristas, he aquí algunas preguntas que podrían ayudarnos, mediante la oración, a separar la cizaña, o sensacionalismo, del trigo, o evaluación inteligente de las noticias:

La información que recibo ¿me está exigiendo que me una al pánico colectivo, o me está motivando a encontrar soluciones?

¿Me siento culpable por apartarme de los titulares lo suficiente como para recurrir a Dios?

¿Me siento con la capacidad de desafiar las noticias amenazadoras que presentan los medios de comunicación, mediante la oración?

¿Tengo acaso que sacrificar el don de la guía divina individual en tiempos de temor colectivo generalizado?

¿Le dedico a Dios el tiempo suficiente, en comparación con el que dedico a la televisión y a los programas de entrevistas por radio?

El mundo nos necesita a todos ahora mismo. Necesita que estemos alertas, informados, y no manipulados por la información. Necesita lo mejor que tenemos para dar: nuestras oraciones.

 

Citações: 1 Salmo 91:1. 2 Mateo 12:14, 15.

Fonte:   Redator  " El Heraldo de la Ciencia Cristiana" - maio de 2005.

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sábado, 14 de fevereiro de 2015

MARY BAKER EDDY: DESCUBRIDORA, FUNDADORA Y GUIA

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“A oração, a meditação, o exame sôfrego e inquisitivo da Bíblia, tirou-lhe muito de sua energia desde a meninice.... As grandes ideias acerca de Deus, da imortalidade, da alma, de uma vida imbuída do cristianismo, nunca estavam longe de sua mente.”

Declaração de H. A.L. Fisher, ferrenho crítico de Mary Baker Eddy, citada por Robert Peel no livro Christian Science: Its Encounter with American Culture - Nova Iorque: Henry Holt and Company, 1958, p. 74.

 

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Mary Baker Eddy: Descubridora,

Fundadora y Guia

 

JEAN T. BOWMAN

 

Los Científicos Cristianos bien pueden preguntarse: “¿Qué representa Mary Baker Eddy para mí y para la humanidad como Descubridora y Fundadora de la Ciencia Cristiana* y como su Guía?” La respuesta a esta pregunta es de enorme importancia en la época actual en que se están haciendo más y más esfuerzos por hacer frente a los graves problemas de la humanidad de un modo cristiano, espiritual.

Como Descubridora, Mrs. Eddy nos ha dado el libro de texto de la Ciencia Cristiana, “Ciencia y Salud con Clave de las Escrituras.” Casi todo tipo de enfermedad y de pecado ha sido sanado por medio de la lectura de este libro.

Con el aparecimiento de la Ciencia Cristiana, para el mundo está alboreando un concepto nuevo acerca del hombre como espiritual, perfecto, individual, y eterno, porque Dios es el Espíritu perfecto. En la medida en que los hombres perciben esta realidad respecto al hombre y la practican, las relaciones con los demás se espiritualizan y de este modo son bendecidos los negocios, el hogar, la escuela.

La Ciencia Cristiana revela que el concepto mortal acerca del hombre es un concepto equivocado, una impostura que debe desecharse. La verdad acerca de Dios perfecto y hombre perfecto demostrada progresivamente, tanto individual como colectivamente, destruye por completo los asoladores y esclavizantes conceptos mortales de la contienda, el odio, el rencor y la venganza.

A medida que uno comprende la relación científica que existe entre Dios y el hombre, necesariamente se siente agradecido hacia aquel cuya conciencia pura y elevada pudo revelarle esta relación. Y no sólo se siente agradecido, sino que también está dispuesto para anular por medio de la oración devota, la oposición que el mundo hace a la Ciencia Cristiana y a su Descubridora. Discierne más del gran amor de Dios y de Sus propósitos y planes para todos Sus hijos, y se mantiene firme en favor de la Ciencia Cristiana en cualquier situación.

Los estudiantes de esta Ciencia no deifican a Mrs. Eddy, pero sí la aman y respetan por haberles dado una forma práctica y científica de seguir a nuestro Maestro, Cristo Jesús. Nuestra Guía fue una fiel seguidora de Jesús. En efecto, Mrs. Eddy declara en su obra Miscellaneous Writings (Escritos Misceláneos, pág. 214): “Mis estudiantes necesitan escudriñar las Escrituras y ‘Ciencia y Salud con Clave de las Escrituras’ a fin de entender las obras de Jesús en la carne que les aportará salvación.”

Jesús, el maestro Cristiano, consoló a sus discípulos en la tarde del día en que fue traicionado. Les dijo que les enviaría el Consolador; que su paz estaba con ellos y que ellos debían seguir morando en él. Muchos de los que han sido sanados por la Ciencia Cristiana al obtener un nuevo concepto de religión que incluye la curación de los enfermos, se sienten agradecidos de reconocer que el descubrimiento de Mrs. Eddy es el Consolador prometido.

El mundo necesita sentir más profundamente la salvación que la Ciencia ofrece libremente a la humanidad sufriente. Como estudiantes fieles cumplamos con nuestra parte. Podemos hallar inspiración en las palabras de Mrs. Eddy que aparecen en la página 30 de su obra “Retrospección e Introspección” donde se refiere a los pioneros de la Ciencia Cristiana que permanecen solos ante el conflicto con el error. Mrs. Eddy dice: “San Pablo declaró que la ley fué el ayo que lo trajo a Cristo. De igual modo, fuí llevada a los laberintos de la metafísica divina por medio del evangelio del sufrimiento, la providencia de Dios y la cruz de Cristo. Nadie puede apurar la copa que yo he bebido hasta las heces como Descubridora y maestra de Christian Science, ni puede ganarse su inspiración sin probar esta copa.”

Años atrás, cuando recién había comenzado a estudian asiduamente la Ciencia Cristiana, tuve una entrevista con una experimentada practicista y maestra, quien afectuosamente me dijo que si deseaba progresar en la Ciencia Cristiana jamás debía separar el descubrimiento de Mrs. Eddy de su fundación y que nuestra demostración de la Ciencia Cristiana tiene que ser hecha por medio del entendimiento espiritual de lo que significa la Iglesia. Por eso cuando pienso en Mrs. Eddy como Fundadora pienso también en La Primera Iglesia Científica de Cristo, en Boston, Massachusetts.

Jamás puede meditarse demasiado acerca de cada Estatuto del Manual de La Iglesia Madre por nuestra Guía. El Manual gobierna la Iglesia y este gobierno es divino. La sencillez del Cristo se hace patente en cada Estatuto del Manual, cuyos más mínimos detalles promueven la expansión infinita que se requiere para el desarrollo espiritual del Científico Cristiano individualmente, y de la Iglesia colectivamente.

Mrs. Eddy ha dado al mundo un arte muy elevado respecto a la curación, y dentro de los fundamentos de la Iglesia existe un ministerio santo dedicado a la curación del enfermo y del pecador. Este ministerio incluye practicistas y enfermeros así como un servicio de enfermeros en los Sanatorios de la Ciencia Cristiana.

Mrs. Eddy poseía un elevado concepto de lo que constituye la Iglesia construída sobre la roca, el Cristo. Pablo escribe: “Cristo es cabeza de la iglesia; y él es el que da la salud al cuerpo” (Efesios 5:23). El poder curativo del Cristo, sin acompañamientos materiales, es inherente a nuestra adoración de Dios. La Iglesia Científica de Cristo está destinada a probar que Cristo “es el que da la salud al cuerpo.”

Los Científicos Cristianos saben que esto no sólo se refiere al cuerpo físico de los individuos, sino también al estado mental del mundo que está relacionado con cada fase de la experiencia humana. Mrs. Eddy dió al mundo por medio de su Iglesia la comprensión de que Dios no es sólo Padre, sino Madre también. Para los Científicos Cristianos, La Iglesia Madre es la expresión visible del amor de Dios como Madre.

Cuando comencé a amar y a aceptar estos hechos concernientes a Mrs. Eddy, comprendí su importancia como Guía. Sus obras nos guían directamente al significado espiritual de la Biblia y especialmente en lo que se refiere al ministerio de Cristo Jesús que dijo (Juan 6:63): “Es el espíritu el que da vida, la carne de nada aprovecha: las palabras que yo os he hablado espíritu y vida son.”

Por medio de la Ciencia Cristiana estas palabras mantienen un propósito constante y son demostrables por medio de su Principio. ¡Cuán agradecida estoy por este estudio y por esta búsqueda! Cada estudiante sincero que ama a estos mensajeros — a Cristo Jesús y a Mrs. Eddy —, encontrará que su inspiración aumenta, que su amor a Dios se desarrolla, que su confianza en Su amor y cuidado es segura y firme, que su esperanza en el bien es constante, que su alegría es ilimitada y que su fe es más espiritual. Gran regocijo le aportarán las palabras del Maestro (Juan 8:31, 32): “Si permaneciereis en mi palabra, seréis verdaderamente mis discípulos; y conoceréis la verdad, y la verdad os hará libres.”

* Christian Science: Pronunciado Crischan Sáiens.

Fonte: Del número de julio de 1966 de El Heraldo de la Ciencia Cristiana. The Christian Science Publishing Society ©.

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The Mary Baker Eddy Library logo

 

A Biblioteca Mary Baker Eddy para o Progresso da Humanidade foi  inaugurada, em 2002, como um lugar para  pesquisa sobre a vida, idéias e realizações de Mary Baker Eddy. Estabelecida como  instituição cultural e histórica, esta biblioteca, de categoria  mundial,  e um Museu proporcionam experiências educacionais, programas e exposições.

A biblioteca também oferece fácil acesso a suas vastas coleções, através de pesquisa e serviços de referência. Como principal recurso a biblioteca inclui uma das maiores coleções  sobre uma mulher americana. Para saber mais, visite seu site marybakereddylibrary.org

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sábado, 7 de fevereiro de 2015

DISCIPULADO E ESPIRITUALIDADE A PARTIR DE LUCAS 5: 1-11.

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Alguém, certo dia, sussurrou-me timidamente: "... este blog não é de Ciência Cristã".

É uma pena que, em meio a tanta produção acadêmica e reflexões sobre a Bíblia, pessoas de diferentes denominações ainda se contentem com a interpretação cotidiana ou de senso comum sobre textos bíblicos. Deixando de usufruírem, progressivamente, da profunda sabedoria contida nas Escrituras.

Este blog tem publicado, além de artigos de Ciência Cristã, escritos de pessoas situadas em diferentes religiões, que ao desafiarem sua inteligência, sem medo de ousar, procuram buscar a verdadeira essência dos ensinamentos dos textos da Bíblia. Apontando com suas produções, de algum modo, para aspectos ou características da teologia da Ciência Cristã.

Desta maneira, mantendo diálogo inter-religioso, participamos da elevação do pensamento do leitor a consciência de princípios universais, básicos para o cristianismo, importantes para o progresso da humanidade.

 

"A familiaridade com os textos originais e a disposição de abandonar as crenças humanas (estabelecidas por hierarquias e instigadas às vezes pelas piores paixões dos homens), abrem o caminho para que a Ciência Cristã seja compreendida, e fazem da Bíblia o mapa náutico da vida, no qual estão assinaladas as boias e as correntezas curativas da Verdade."  Mary Baker Eddy

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Comentário sobre relato bíblico:

 

 
Discipulado e espiritualidade
a partir de Lucas 5:1-11

 

 

"Geralmente, o caminho da religião organizada faz com que a vida sirva à palavra. Também no barco de Pedro se presentifica a inversão desse vício. A palavra de Jesus de Nazaré é fascinante porque é palavra que serve à vida. Daí deriva a liberdade interpretativa de Jesus perante a Lei: "ouvistes o que foi dito aos antigos, mas eu vos digo...". Se o povo se aglomera junto ao lago de Genesaré (e em muitos outros lugares) para ouvir e dar assentimento a essa palavra fascinante que serve à vida, é porque já doíam as algemas de uma vida subserviente à palavra da religião. Portanto, essa palavra é fascinante porque é palavra libertadora e emancipadora." Paulo Nascimento

 

Introdução

Os Evangelhos canônicos podem ser vistos sob três pontos de vista distintos. Há quem os veja como produto artificial da fé dos primeiros crentes. Geralmente essa é a posição de uma fé mais intelectualizada, alimentada pelos resultados da exegese. Gente com iniciação teológica formal. Na contramão dessa posição, há aqueles para os quais os Evangelhos representam ipso facto a caminhada histórica de Jesus de Nazaré. Isto é, para esses, aqueles relatos correspondem aos fatos concretos de um determinado período de sua história. É o povo de fé simples, sem iniciação formal em teologia e que mal suspeita da existência de algo chamado exegese.

Numa posição que se poderia chamar de intermediária se situam aqueles que mesclam essas percepções e dizem que os evangelistas promoveram uma amálgama de elementos históricos com elementos não-históricos, frutos da fé. O símbolo dessa amálgama seria o próprio nome Jesus Cristo: Jesus representando os elementos históricos; Cristo representando os construtos não-históricos da fé.

Sem penetrar mais nessa discussão um tanto estéril, o que não se pode negar, qualquer que seja a posição assumida aí, é que os Evangelhos sejam produto da fascinação exercida por Jesus de Nazaré nas mentes das comunidades surgidas em torno do seu ideal. Em paralelo aos elementos da fé, da esperança messiânica, e mesmo dos ideais nacionalistas de Israel como motivadores para a redação desses escritos, os Evangelhos surgem também sob a força da fascinação provocada por Jesus de Nazaré naquelas testemunhas.

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A perícope de Lucas 5,1-11 que se irá observar aqui, além de ser juntamente com os demais relatos evangélicos, produto da fascinação exercida por Jesus de Nazaré, constitui-se como relato mínimo dos porquês e do como esse poder fascinante foi exercido pelo jovem nazareno. A nosso ver, ela sintetiza elementos que permanecem eficazes como fatores fascinantes a fim de informar e alimentar a caminhada das comunidades e dos homens e mulheres que insistem na senda do discipulado ainda hoje.

Jesus de Nazaré permanece fascinante. Seu legado, seu sonho, sua companhia revivida e atualizada na comunhão dos discípulos de hoje, permanecem fascinantes. Por outro lado, nenhum de nós pode negar que as instituições de todo tipo, mormente as religiosas, parecem reservar uma pulsão ontológica para a repetição acrítica como preservação da tradição.

Tal impulso acaba por embotar a caminhada comunitária e pessoal com o enfado inerente a toda ausência de novidade e de criatividade. A rotinização da fé é uma maldição para a fé. Talvez o fascínio que emana de Jesus de Nazaré ajude a todos e todas a recuperarem o fulgor de um seguimento vivo, alegre, celebrante e espontâneo. Se não for atravessado pela fascinação, o discipulado poderá ser expressão de opressão existencial, oculta sob as formas das obrigações religiosas e institucionais.

Doravante, chamaremos de fascínio totalizante a esse poder que é concomitantemente destrutivo e construtivo. Porque somente à luz dessa idéia é que se pode compreender que Pedro, Tiago e João tenham "deixado tudo" (v. 11) a fim de que o discipulado lhe devorasse as vidas. O fascínio totalizante é destrutivo porque faz ruir antigas visões de mundo, junto com toda esperança que delas deriva. Mas é também construtivo, visto que no lugar disso edifica a esperança que se funda no sonho do Reino de Deus e em tudo que lhe é peculiar.

36618_all_051_02........ 01                                                                                          Jesus sobe ao monte para orar com Pedro, Tiago e João

 

1. O fascínio totalizante nasce de uma palavra cheia de vida e de amor (Lucas 5: 1-3)

A palavra é fio condutor das relações humanas. Ao mesmo tempo em que é veículo de significados, a palavra é a própria forma concreta com que o significado existe. De outra forma, nenhum significado é imparcial e totalmente estéril do ponto de vista afetivo. A palavra, qualquer que seja o contexto onde se dê, comunica e encarna afetos, para além do seu significado. Se digo "casa", não comunico apenas um significado que remeterá às imagens correlatas com as quais identificamos esse ente. Ao dizer "casa", além disso, evoco a afetividade apegada à imagem que a casa comporta para quem me ouve: afago, proteção, descanso, miséria, tormento, humilhação, e etc.

Fundamentalmente a palavra e o discurso podem se articular sob duas expressões: uma dirigida pelo caráter conceitual/digital, e outra dirigida pelo caráter imagético/icônico. Essas expressões da palavra e do discurso não são antagônicas. São derivações inerentes à própria comunicação humana. As culturas orientais, tais como a própria cultura judaica, sempre foram notoriamente caracterizadas pela articulação imagético/icônica da palavra.

Por exemplo, se desejo dizer quem é Deus, evoco uma imagem que melhor exprima minha percepção: Deus é o Leão da Tribo de Judá. Já a articulação conceitual/digital da palavra e do discurso, embora tenha fortes raízes entre os antigos gregos, é um dos desenvolvimentos da modernidade e particularmente do projeto positivista no que diz respeito à descrição do mundo. Por exemplo, se desejo dizer quem é Deus, faço-o por meio de conceitos objetivos, neutros e frios: Deus é o fundamento do Ser.

36618_all_051_05.... 03        Pedro, Tiago e João não conseguem orar com Jesus.

 

Logicamente a linguagem imagético/icônica comporta maior possibilidade de afetividade em relação à linguagem conceitual/digital. Dificilmente nos emocionamos perante a leitura de uma dissertação científica. As teses, dissertações e monografias, ao custo da eficácia, devem pagar o preço da frieza e da imparcialidade afetiva. Por outro lado, é comum que nos emocionemos perante um breve trecho de poesia, porque perpassado por imagens que fazem eco no interior de nosso ser. Acessam mais facilmente as "zonas quentes" de nossa personalidade.

Jesus de Nazaré, fiel à cultura do entorno, foi prolixo no uso de uma linguagem imagético/icônica cheia de vida e amor. No lago de Genesaré, no barco emprestado de Pedro (v. 3), exerce um dos papéis mais recorrentes de sua atividade: o de didáskalos - mestre das multidões.

A sua palavra carregada de vida e amor, ou a sua palavra que deriva de uma vida de amor, é uma palavra fascinante. É palavra fascinante capaz de aguçar o senso crítico perante outras palavras, pois é palavra dita "com autoridade", a despeito da palavra que diziam os teólogos (Mt 7,29). É palavra fascinante porque redescobre a santidade do cotidiano do povo pobre. À luz dessa palavra fascinante não é sacrílego que se compare o Reino de Deus, por exemplo, com uma mulher que perde e procura uma moeda dentro de casa (Lc 15,8-10).

Fascina, portanto, porque devolve ao povo pobre uma dignidade de dimensões inauditas: Deus e seu mistério lhe são tão próximos que podem ser a eles comparados. É palavra fascinante porque rejeita o logocentrismo e a verbolatria, vícios da religião organizada. O mistério de Deus e de sua vontade - para além do que informa a Lei - reverberam nas imagens proporcionadas pela natureza: entre as aves do céu e os lírios dos campos, por exemplo (Mt 6,25-33).

Geralmente, o caminho da religião organizada faz com que a vida sirva à palavra. Também no barco de Pedro se presentifica a inversão desse vício. A palavra de Jesus de Nazaré é fascinante porque é palavra que serve à vida. Daí deriva a liberdade interpretativa de Jesus perante a Lei: "ouvistes o que foi dito aos antigos, mas eu vos digo...". Se o povo se aglomera junto ao lago de Genesaré (e em muitos outros lugares) para ouvir e dar assentimento a essa palavra fascinante que serve à vida, é porque já doíam as algemas de uma vida subserviente à palavra da religião. Portanto, essa palavra é fascinante porque é palavra libertadora e emancipadora.

Por todos esses motivos a palavra e o ensino de Jesus de Nazaré são portadores do fascínio totalizante. É ela que, em primeiro lugar, fundamenta o "deixaram tudo" de Pedro, Tiago e João. É essa palavra, em primeiro lugar, que veicula e encarna o fascínio totalizante de Jesus de Nazaré.

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2. O fascínio totalizante cresce em meio ao milagre (Lucas 5: 4-7)

Definitivamente eu não desejaria me envolver numa discussão acerca da legitimidade dos milagres descritos nos Evangelhos. Sim, é verdade que a sociedade na qual viveu Jesus de Nazaré era uma "sociedade milagreira", como afirmava José Comblin. Se tomarmos a mentalidade de nosso tempo como referência, também é correto dizer com Bultmann que aqueles dias eram caracterizados pela hegemonia de uma visão pré-cientifica do mundo, onde os relatos de milagres e intervenções divinas faziam parte do cotidiano das pessoas.

Não obstante, nenhuma dessas opiniões é suficiente para obstaculizar a possibilidade do milagre. Mais ainda: a fé em Deus traz a possibilidade do milagre na sua raiz. Confessar a fé em Deus é, desde já, confessar que esse mundo está aberto à transcendência. Portanto, é contraditório confessar a fé em Deus e obstaculizar definitivamente a possibilidade do milagre.

Sendo assim, o que nos importa aqui não é tanto a legitimação da historicidade do fato. Nem os autores dessas narrativas se esforçaram para isso. Simplesmente narraram! A evidência dos fatos repousa sobre a própria força da narrativa. Então, o que nos importa aqui é o sentido que a narrativa evoca, e esse sentido é: o milagre reforça o fascínio exercido pela palavra dita por Jesus no barco!

Mas por que o milagre fascina? O que justifica dizer que o milagre também veicula um fascínio totalizante capaz de fazer aqueles pescadores "deixarem tudo"?

Uma resposta rápida seria a de que o milagre fascina por seu poder visual. É verdade! Eu também me fascinaria diante dos peixes transbordando de uma hora para outra no barco depois de uma longa noite de trabalho debalde no lago de Genesaré (v. 6-7). Eu babaria perante uma mão atrofiada que se recompõe à sua postura normal num segundo. Eu não saberia o que dizer perante alguém que diante de mim caminha sobre as águas. Eu permaneceria estupefato por uma semana se presenciasse a cura instantânea de um leproso, de um paralítico ou de um cego de nascença. O milagre fascina, portanto, já pelo poder visual que se diferencia de toda normalidade da vida. Mas isso não é tudo. É somente a dimensão superficial do fascínio que o milagre exerce.

 36618_all_033_04Pedro, Tiago  e João observam a transfiguração de Jesus

 

Mais profundamente, o milagre fascina por sinalizar a abertura de nosso mundo ao transcendente. O milagre não é a única maneira de dizer isso, mas é uma das possibilidades. A oração, mesmo aquela não atendida, é milagre, porque se funda na mesma lógica: a de que não há obstáculos em relação à transcendência! Em linguagem bíblica, tanto o milagre quanto a oração são vaticínios de que "o véu da separação se rasgou de alto a baixo". Por isso oro! Oro porque, conforme o milagre sinaliza, a cisão entre transcendência e imanência já não faz mais sentido.

Outra questão sobre o milagre necessita ser dita.Tornou-se senso comum entre crentes de todas as confissões (e mesmo entre teólogos notáveis!) a idéia de que o milagre é um recurso de última instância. Em outras palavras, o lugar do milagre estaria na incapacidade humana, no extremo das suas impossibilidades. O milagre ocorreria quando já não houvesse recursos disponíveis no plano habitual das coisas. Dietrich Bonhoeffer se opunha a essa idéia ferrenhamente. Dizia ele que aí se trata de um deus ex machina, ou seja, de um "deus que sai da máquina" quando a força humana termina. Também dizia que Deus (e o milagre) deve sair dos extremos e vir para o centro da vida. O milagre, enquanto a abertura do mundo à transcendência, não se dá somente nos extremos das impossibilidades humanas, mas também se dá nos interstícios do cotidiano a fim de fascinar, de reforçar a confiança e de legitimar a parceria de Deus junto ao ser humano.

O milagre da perícope que nos ocupa ratifica essa noção. Ocorre no centro da vida, e não nos extremos das impossibilidades humanas. Embora o trabalho de toda uma noite não tivesse logrado sucesso, Pedro, Tiago e João não estavam definitivamente impossibilitados do sucesso da pescaria. O fracasso de uma noite poderia ser sucedido pelo sucesso da próxima. Não se trata, portanto, de algo "impossível" o milagre que Jesus realiza. Trata-se de algo perfeitamente "possível" e até "provável".

É justamente por causa dessa parceria incondicional - nos possíveis e nos impossíveis da vida - que o milagre é fonte de um fascínio totalizante e arrebatador. Os discípulos "deixam tudo" justamente porque o milagre de Jesus aponta para uma inserção de Deus em todo o cotidiano, e não somente nos extremos da vida. Junto com o fascínio de uma palavra cheia de vida e amor, o milagre faz crescer esse poder arrebatador que temos adjetivado de fascínio totalizante.

36618_all_033_02   Jesus fala com Moisé e Elias - Monte da Transfiguração. 

 

3. O fascínio totalizante se consolida no seguimento e no discipulado (Lucas 5: 8-11)

O seguimento e o discipulado surgem como efeitos diretos do fascínio exercido por Jesus de Nazaré por meio da palavra e do milagre.

"Deixar tudo" é uma profunda decisão existencial. É normal que "deixar tudo", qualquer que seja o caso, seja uma atitude tomada com muita ponderação, como resultado de extensa reflexão pessoal. Mas nada disso esteve implicado no episódio, posto que não houve tempo. Então, o mais correto seria dizer que Pedro, Tiago e João foram "arrebatados" por isso que temos chamado de fascínio totalizante presente em Jesus de Nazaré.

Todavia, o texto também indica que essa não foi a reação súbita daqueles pescadores. Certamente marcados pelo imaginário religioso popular, a reação súbita é um senso de indignidade diante de alguém tão especial. Dessa forma, Pedro pede que Jesus se afaste dali (v. 8). Talvez essa atitude corrobore a suspeita posterior de Rudolf Otto, de que ninguém atravessa a experiência do sagrado sem o sentimento de estar diante de um mistério tremendo e fascinante. Ao mesmo tempo em que o sagrado atrai por meio de um fascínio peculiar, ele também repele por meio de um assombro peculiar, psicologicamente traduzido num sentimento de auto-depreciação. Também Isaías parece ter experimentado a dimensão de mistério tremendo do sagrado: "estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo impuro" (Is 6,5).

Todavia, o que recebem como resposta é algo de fato surpreendente. O fascínio antes exercido por meio da palavra e do milagre se plenifica no interesse pessoal que Jesus de Nazaré expressa por aqueles pescadores.

Mas a adesão ao discipulado e o seguimento súbito e incondicional não reservam um poder per se. Isso porque estão imbricados aí um elemento objetivo e um elemento subjetivo nesse ato. O elemento objetivo é a própria causa à qual estão sendo arrastados. É o fator externo da questão. Esse elemento é objetivo porque não procede dos próprios pescadores. Antes, está dado a eles de fora. O elemento subjetivo, por sua vez, é a possibilidade de "encontro com o sentido da existência" que se caracteriza como uma pulsão universal, embora encontre as mais diversificadas respostas. Em outras palavras, se Pedro, Tiago e João são capazes de "deixar tudo e seguir a Jesus", é porque essa exigência de suas personalidades (a busca de sentido) foi aplacada mediante o fascínio totalizante que Jesus de Nazaré havia exercido sobre eles.

É inegável que encontrar o sentido para a existência humana é uma exigência de nossa personalidade. Mesmo o sujeito que diz "a vida não possui sentido" acabou de professar um dos possíveis sentidos para ela. Quer acreditem que o sentido da vida seja uma responsabilidade de cada pessoa (como os filósofos existencialistas), quer acreditem que o sentido da vida é objetivamente verificável em alguma religião, filosofia ou ideologia, viver em conformidade com isso é um poderoso elemento de integração da personalidade. A anomia de viver num "mundo sem sentido" ou de "perder o sentido da existência" é sempre um fator de desintegração do ego. O suicídio, em média, permanece como um ótimo exemplo disso.

O seguimento de Jesus, para além de seus aspectos objetivos, resolve um dilema subjetivo ao posicionar Pedro, Tiago e João num lugar específico no mundo: "vocês serão pescadores de homens" (v. 10). O peculiar do episódio narrado é que esses pescadores já exerciam o que hoje chamamos sociologicamente de papéis sociais. Eram pescadores. Entretanto, como podemos ver, os papéis sociais nem sempre se prestam a integrar a personalidade e aplacar a sua exigência por sentido. Se assim fosse, Pedro, Tiago e João teriam permanecido no exercício de sua atividade. Abandonaram-na porque foram expostos a um apelo maior que relativizou tudo o mais. Abandonaram-na porque foram fisgados por um fascínio incomum e extra-ordinário, porque totalizante.

 

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Conclusão

O caminho de Jesus é uma proposta para encher a vida de encanto. É um caminho que nasce do encanto, do espanto, e de uma fascinação que chamamos de totalizante, e que se traduz numa entrega existencial capaz de "deixar tudo" a fim de segui-lo.

A maioria daqueles que entre nós abraçou o caminho de Jesus e se inscreveu na vereda do discipulado, o fez pelas diferentes vias institucionais. E eis aqui um dilema não confessado, mas presente e real. Pois o próprio Jesus de Nazaré fez seu caminho histórico desatrelado das formas institucionais da religião em seus dias. Seu movimento foi periférico, marginal, desviante e subversivo. A palavra servindo à vida, o discipulado de iguais (mulheres e homens), a intimidade não-mediada com o Abba, a legitimidade da experiência de fé dos "pagãos", a percepção de um Deus visível no cotidiano do povo pobre, e muitos outros elementos da práxis de Jesus de Nazaré são todos exemplos claros do caráter subversivo de sua proposta.

O elemento fascinante de sua práxis compõe a arché (o princípio) do discipulado daqueles que iam abraçando seu caminho. Uma vez que nesse caminho não existem os rigores e as obrigações institucionais (lembremos, é esse o espírito que mantém viva a dinâmica institucional), o fascínio acaba sendo uma das forças que mantém viva a esperança do Reino de Deus. Nesse sentido, os Evangelhos constituem o testemunho de como Jesus de Nazaré manteve coeso por meio de atos fascinantes um grupo de homens e mulheres crentes.

Nossa confissão sincera é a de que não é nada fácil atualizar essa experiência no interior da instituição. A lógica desta é outra. Seus vícios são poderosos e seus ranços já mortificaram boa parte daquilo que deveria ser expressão espontânea de um discipulado vibrante e alegre, cheio de vida e de amor verdadeiros.

A despeito disso tudo Jesus de Nazaré e seu caminho permanecem fascinantes. Homens e mulheres, ainda que na realidade institucional de suas igrejas, podem à luz de tamanho poder encher sua espiritualidade de amor, de vida e de alegria. O fascínio totalizante mediado pela palavra e pelo milagre (entre os quais o maior de todos é o da Graça) pode infundir nova vitalidade ao caminho que abraçaram. Homens e mulheres cujos papéis sociais não satisfazem a exigência de suas personalidades por sentido, ainda podem dar nova e plena orientação às suas existências.

Autor:  Paulo Nascimento - Mestre em Psicologia e professor universitário. Teólogo por vício. Apesar desses rótulos institucionais, gosta de pensar a partir das fronteiras entre os diferentes saberes.

 

Nota: Discipulado e espiritualidade a partir de Lucas 5:1-11 não representa necessariamente o Movimento da Ciência Cristã (A Igreja Mãe em Boston ou qualquer de suas filiais, sociedades ou grupos informais de estudos, existentes em diferentes países do mundo), foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia no contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica em que seus relatos foram escritos. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e a opinião de estudiosos do texto bíblico, como objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

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