quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A riqueza não é dividida, a riqueza divide! (Lucas 12: 13-21)

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Dia Nacional de Ação de Graças

28 de novembro de 2013


Conheça a história sobre o Dia de Ação de Graças.
 clique na imagem.
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A riqueza não é dividida, a riqueza divide!
Lucas 12: 13-21


Maria Soave



A riqueza não é dividida, a riqueza divide!

Um homem pede a Jesus para intervir a respeito de uma briga entre ele e seu irmão sobre a herança. De novo no evangelho tem alguém que chama Jesus para resolver um conflito. Este alguém não tem nome próprio no texto. Provavelmente porque cada um, cada uma de nós é chamado a identificar-se com esta personagem. 
Na pergunta sobre a divisão da herança aparece uma grande ilusão. A pergunta ilusória é sobre a divisão da riqueza. Este texto nos diz que a riqueza não é dividida, a riqueza divide!

Jesus recusa, neste texto, o papel de mediador do conflito. Na perspectiva da grande ilusão da qual estes dois irmãos são vítimas, a de pensar que a riqueza que divide e violenta possa ser dividida, Jesus não quer ser considerado o juiz conciliador, mas o companheiro de caminhada que quer ajudar a entender e indicar os motivos que determinam o empobrecimento e os conflitos entre as pessoas. Estes motivos se juntam concretamente ao redor do egoísmo e da ganância.
São estes os dois sentimentos que habitam os irmãos deste texto do evangelho e Jesus fala deste sentimento de desejo sem entender o que é necessário desejar. A ilusão, de quem não conhece o que é verdadeiramente necessário e por isto pensa de encontrar no possuir a sua segurança.
Qual é nossa necessária necessidade? Esta é uma pergunta de fundo para a nossa vida. 
Desde os tempos antigos da caminhada de libertação no Êxodo, nossos pais e nossas mães na fé tiveram que responder a esta pergunta. No tempo do deserto, no tempo da divisão do poder e da profunda defesa da Vida, seguindo o Deus Libertador, o Povo das tribos no caminho de libertação teve que aprender como dividir algo que não sabiam nomear e por isto chamaram "maná". Tiveram que aprender a partilhar "segundo a necessidade".
Lembramos também que, no Primeiro Testamento, uma tribo, a de Levi, a tribo dos homens e mulheres errantes e mendicantes de tenda em tenda, esta tribo não recebia nenhuma herança, nenhuma terra, exatamente para poder testemunhar, na transparência do corpo e das relações, que única herança é Javé libertador.
Também no Segundo Testamento o contrário da ganância é a plenitude em Deus. Por isto Paulo, na carta aos Colossenses 3,5, nos diz que a ganância é idolatria!
A ganância faz o nosso coração se dividir entre diferentes desejos, e um coração dividido é um coração idólatra, uma alma, transparência de corpo que perdeu o necessário, o testemunhar em todo o respiro da Vida que única herança é Javé Libertador!

Os bens não nos livram da morte

Neste texto do evangelho de Lucas Jesus faz uma afirmação muito séria: "sua vida não depende de seus bens". Como para dizer que uma pessoa não é dependendo do que possui. Uma pessoa não é humana por causa de seus bens! A dignidade das pessoas não tem nada a ver com os bens que possuem! Para Jesus e seu movimento existe uma condição profundamente humana que é "outra" em relação ao possuir.
Viver do necessário, a capacidade de dividir para poder multiplicar, ser transparência comunitária e ecumênica que nossa única herança é Javé libertador de todos os pequenos e empobrecidos, é o nosso caminhar no seguimento de Jesus!
Para mostrar como a prática da ganância seja negativa, Jesus nos conta uma parábola. De um rico sem sabedoria, isto é sem a capacidade de olhar com os olhos do essencial que são os olhos de Deus no meio da História da Humanidade.
Este rico sem sabedoria acredita de estar no seguro por muitos anos tendo acumulado muitos bens e ao qual na mesma noite é pedida de volta a própria vida. Nesta parábola a abundância é muito presente. O homem é rico e a colheita é abundante. O homem rico pensa entre si sobre o que irá fazer da colheita abundante. Mas só pensar entre si e não partilhar o pensamento leva a uma decisão egoísta e insensata que faz da bênção da abundancia na colheita uma maldição. A bênção não pode ser de uso individual!
Uma reflexão individual que não é partilhada em comunidade pode nos levar, como no caso da parábola, a um programa de vida esvaziado de amor. Os bens não nos livram da morte e da nossa finitude. Aliás, podem nos impedir de viver na partilha e na condivisão, de aprender a viver do necessário para que ninguém passe necessidade.
Os bens podem não permitir que sejamos o que é nossa profunda vocação, desde os mitos bíblicos de criação da Humanidade... gente nua e sem vergonha deste "estado" primordial... a nudez... o que nos faz reconhecer o que gaguejamos com o nome de Deus(...)! Nossa única e verdadeira riqueza... Amém e amem... isto é: continuemos amando!
Para continuar a oração: Tome em sua Bíblia o salmo 89 (90) 


Nota: O comentário  bíblico A riqueza não é dividida, a riqueza divide!  não representa necessariamente a opinião deste blog nem das igrejas do Movimento da Ciência Cristã. Foi publicado para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  como objetivo de alcançarmos  o significado espiritual das escrituras.

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domingo, 6 de outubro de 2013

PAULO E PEDRO: DOIS PILARES DO CRISTIANISMO


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Comentário sobre relato bíblico



Paulo e Pedro: 
dois pilares do cristianismo

 Gilvander Moreira

Instituto Humanitas Unisinos (IHU)


1. Para início de reflexão.

Dia 29 de junho é festa dos apóstolos Paulo e Pedro, dois grandes pilares do cristianismo. Tempo propício para refletir sobre o legado espiritual-profético de Pedro e Paulo. Os dois se identificaram com o projeto do evangelho de Jesus Cristo e se doaram no seu seguimento, orientados pela boa notícia aos pobres.
Terminaram martirizados, segundo a tradição da igreja. No livro de Atos dos Apóstolos é possível descobrirmos uma paulinização de Pedro e uma petrinização de Paulo. Ou seja, para Lucas não é bom que aconteça um cisma entre as várias tendências de evangelização. A diversidade enriquece a unidade e não a anula.
Segundo Atos dos Apóstolos, o apóstolo Pedro foi quem fez o primeiro discurso após o primeiro Pentecostes (At 2,1-13), um discurso profético e corajoso (Cf. At 2,14-36), no qual Pedro denuncia de forma altaneira: "Vocês autoridades mataram Jesus, mas Deus o ressuscitou!"



                                       As viagens de Paulo

Pedro teve a grandeza de sair de Jerusalém - a igreja mãe - e ir conviver com comunidades consideradas impuras, heréticas, no meio dos excluídos (Cf. At 9,32-43). A convivência com os pobres se tornou a base do processo de conversão de Pedro, que o habilitou a experimentar o Espírito do Deus da vida atuando no meio dos gentios, tal como acontecia entre os cristãos (Cf. At 10,1-11,18).

Memorável também foi a participação do apóstolo Pedro no Concílio de Jerusalém, por volta dos anos 49/50, onde, ao lado de Barnabé e Paulo, lutou pela abolição da lei da circuncisão, que tinha se transformado em um insuportável fardo para os cristãos oriundos do meio dos estrangeiros.

Para não ficar muito longo esse texto, deixaremos a reflexão sobre o Ensinamento e Práxis do apóstolo Pedro, em Atos dos Apóstolos, para outro artigo. Convido o/a leitor/a a acompanhar comigo o Discurso do Apóstolo Paulo aos presbíteros, narrado em At 20,17-38. 
 Não é um discurso teórico, abstrato, moralista e nem desligado dos problemas principais da vida. O discurso de Paulo está grávido da realidade da vida das primeiras comunidades cristãs; está em profunda conexão com os desafios de ser cristão em tempos de Tribulação; quer gerar luz e força para as comunidades.
É o único discurso de Paulo no livro dos Atos dirigido aos cristãos, especificamente aos presbíteros, ou seja, aos anciãos (= coordenadores das comunidades). Todos os demais discursos de Paulo em Atos possuem como destinatário pessoas e grupos que estão fora da comunidade cristã. No entanto, as cartas paulinas são dirigidas aos cristãos, mas este discurso se dirige somente aos presbíteros.

O Gênero literário é o de TESTAMENTO-DESPEDIDA, um gênero muito conhecido na Bíblia. Lucas faz nesse discurso uma síntese do livro de Atos, principalmente dos capítulos 15-28. O discurso revela não tanto a morte de Paulo, mas como Lucas entendia Paulo no contexto de suas Igrejas, algumas décadas depois, nos anos 80 do século I. Assim esse discurso nos oferece chaves de interpretação
 do livro “Ato dos Apóstolos”.


2. Esquema do discurso de Paulo.

O discurso de Paulo é formado por várias partes com diversas etapas do pensamento. Os biblistas não chegaram a um acordo quanto ao plano e esquema do discurso de Paulo aos presbíteros de Éfeso, descrito em At 20,17-38. Pensamos que o texto pode ser dividido em quatro partes:

a) memória do ministério de Paulo na Ásia (At 20,18 - 21).
b) Presente ameaçador e perigoso (At 20,22-24).
c) Exortação aos presbíteros (At 20,25-31).
d) Testamento - Paulo deixa a Palavra e seu testemunho - (At 20,32-35).

3. Pontos fundamentais do discurso de Despedida de Paulo.

3.1. Trabalhar manualmente é problema?  "Estas minhas  mãos..." (At 20,34)

O apóstolo Paulo dá uma enorme importância ao trabalho manual. Assim ele se expressa: 

"Vocês mesmos sabem que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário para mim e para os que estavam comigo. Em tudo mostrei a vocês que é trabalhando assim que devemos ajudar os fracos, recordando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: 'há mais felicidade em dar do que em receber'." (At 20,34-35)

Lucas, o autor de Atos dos Apóstolos, sabe que Paulo foi atacado porque trabalhava com as mãos. Alguns achavam no trabalho manual um sinal de que Paulo era um apóstolo de segunda categoria. Lucas quer justificar Paulo como um autêntico apóstolo e por isso afirma a nobreza do "trabalhar com as mãos": assegurar a própria subsistência e poder ser solidário com os empobrecidos.
O trabalhar manualmente foi uma postura tremendamente revolucionária e inovadora no ambiente helenista. Segundo a cultura helenista o trabalho nobre era o trabalho intelectual. Trabalhar manualmente era "coisa de escravo". Paulo questiona na prática esta concepção discriminatória da sociedade e aponta para a igualdade real entre as pessoas.
No fundo, ao "trabalhar com as mãos" para se auto-sustentar, Paulo estava colocando o dedo em uma das feridas da sociedade que sustentava a hierarquia de pessoas. E mais: Paulo estava inoculando nas comunidades cristãs um modo diferente de se relacionar com o mundo do trabalho. A postura de Paulo corroía como cupim o edifício da sociedade escravocrata greco-romana.
As comunidades paulinas estavam passando a acreditar progressivamente em uma Economia Popular Solidária, onde todos trabalhavam, de modo coletivo, partilhando os frutos do trabalho e da generosidade da Mãe natureza, atendendo às necessidades de todos a partir dos mais enfraquecidos.
Paulo sugeria, trabalhando manualmente, que o trabalho não devia ser para acumulação, mas para satisfazer as necessidades básicas da pessoa e da comunidade. As primeiras comunidades cristãs colocavam em prática o sonho de uma economia para satisfazer as necessidades básicas do povo e não para acumulação de capital.
Devemos recordar que a defesa do trabalho manual de Paulo dirige-se particularmente aos presbíteros. Naquele tempo de Lucas, década de 80 do século I, os presbíteros teriam deixado de trabalhar e seriam sustentados pela comunidade?

O exemplo de Paulo já apareceria estranho aos presbíteros a ponto de Lucas ter que enfatizá-lo? Recordar Paulo trabalhando para o auto-sustento deveria incomodar muitos presbíteros. Era mais cômodo ser sustentado pela comunidade. Mas Lucas percebe que isto não reflete a experiência original de Paulo.

Hoje é normal um padre ou pastor receber um salário pelo serviço prestado à comunidade. É justo alguém receber um salário sem ser cobrado pela qualidade do serviço e sem ter que "bater cartão de ponto"? Se padre ou pastor deve ganhar um salário, quem será o patrão deles? A quem eles devem prestar contas do serviço prestado?

3.1.1. E o trabalho manual nos nossos dias?

Em tempos de extinção de tantas espécies animais e vegetais, emprego é um "animal em extinção" no mundo globocolonizado, pois cada vez mais aumenta o exército de desempregados. Além da intensificação e a precarização do trabalho, a máquina que demite trabalhadores está funcionando a pleno vapor em todas as áreas do mundo do trabalho.

Infelizmente, continuam vivas em nossa sociedade as distinções entre os diversos tipos de trabalho. Muitos trabalhos intelectualizados são muito bem remunerados e reconhecidos, enquanto os trabalhos manuais são "reservados" para os pobres, pessoas consideradas "incompetentes".
Por exemplo, se compararmos os salários de um jogador de futebol, de uma apresentadora de TV, de um executivo de uma transnacional, de um médico, de um gari, de um ajudante de pedreiro, de um bóia fria, o que virá à tona?
Na sociedade capitalista, o lugar para as pessoas que sobrevivem do trabalho manual é reduzido cada vez mais. Basta olhar a maneira como setores empresariais e poder público vêm tratando os artesãos de rua, de cultura hippie, que sobrevivem da arte manual com arames, linhas e pedras. São expulsos da cidade e tratados com violência e descaso.

Também impressiona o desrespeito com os catadores de material reciclável. A catação é uma profissão antiga no Brasil e no mundo. Nos últimos tempos, o mercado descobriu que o lixo pode dar lucro e o trabalho manual dos catadores que retiram da reciclagem o seu sustento e de sua família tem sido ameaçado a cada dia pelas grandes empresas e pelos gestores públicos.


3.2. Lobos, não; Solidariedade aos pobres, sim!

Paulo apóstolo enfatiza no seu discurso a importância de vigiar contra os "lobos" e  de ser solidário com os enfraquecidos. Ele alerta: 

"Eu sei: depois da minha partida, aparecerão lobos vorazes no meio de vocês, e não terão pena do rebanho. E do meio de vocês mesmos surgirão alguns falando coisas pervertidas, para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, fiquem vigiando e se lembrem de que durante três anos, dia e noite, não parei de admoestar com lágrimas a cada um de vocês... Em tudo mostrei a vocês que é trabalhando assim que devemos ajudar os fracos." (At 20,29-31.35a).

Paulo prevê e exorta os cristãos a enfrentarem dois problemas que certamente fazem parte das preocupações das comunidades de Lucas:
1) "Lobos vorazes aparecerão..." (At 20,29). Estes lobos, muitos com pele de ovelhas, procedem de fora das comunidades, de pessoas estranhas, mas também de dentro delas, de pessoas que foram expulsas e que procuram manter uma certa liderança. De fora, lobos aparecem a partir de falsos pastores, judeus ou gregos, defensores do "fermento dos fariseus": um tipo de religião que exclui, de mãos dadas com o modelo político-econômico-cultural que gera opressão e exclusão. Estes lobos defendem a "Lei da pureza e da impureza", celebrações pomposas, rituais e formais.

2) "Cuidem dos enfraquecidos..." (At 20,35). É provável que nas comunidades de Lucas, no fim do primeiro século, um desejo grande de fidelidade ao passado estivesse gerando esquecimento dos pobres. Estes quase sempre não podem respeitar as regras e os regulamentos da comunidade. Na mente e no coração de Lucas, Paulo dava uma atenção especial aos empobrecidos. Para Paulo o sinal por excelência da autenticidade do ministério era o amor desinteressado e gratuito aos pobres.

Esta opção pelos pobres aparece de modo muito eloquente quando Paulo faz questão de dizer às comunidades de Antioquia que a única coisa que o concílio ecumênico de Jerusalém fez questão de alertar às comunidades foi: "Não esqueçam os pobres. Lembrem-se sempre deles." (cf. Gálatas 2,10).

No discurso aos presbíteros, Lucas alerta para o cuidado com os pobres, porque provavelmente os presbíteros estavam se preocupando menos com os pobres, como "os falsos pastores que apascentam a si mesmos e devoram as ovelhas" (cf. Ex 34,8-10). Estariam eles gastando mais energias com as obras do que com a promoção humana dos excluídos?


4. Por que um discurso aos presbíteros e não às comunidades?

As cartas paulinas eram sempre endereçadas a toda a comunidade. Mas os bons tempos do fervor missionário passaram. Lucas sente no ar sinais de clericalização, de hierarquização, de institucionalização. Neste novo contexto eclesial, os presbíteros terão a missão de transmitir a herança paulina e de defendê-la contra os perigos de corrupção.
É interessante que Paulo se despede das comunidades sem deixar estruturas; somente os recomenda "a Deus e à Palavra de sua graça que tem poder para construir o edifício" (At 20,32). O único poder da comunidade é a Palavra de Deus. Paulo, como um apaixonado missionário, se preocupa em deixar-se guiar pelo Espírito, em costurar relações e propostas geradoras de vida; ele não está preocupado em criar estruturas que podem, com o tempo, matar o vigor e o ímpeto do primeiro amor.

5. "Presbíteros": apóstolos, profetas, mestres, ...

Sendo o discurso de Paulo dirigido diretamente aos presbíteros, torna-se imprescindível entender bem quem são estes presbíteros e qual a função deles nas comunidades. Isto nos remete a discutir a diversidade de dons nas primeiras comunidades cristãs.
Em At 20,28 os presbíteros de Éfeso são chamados de "epíscopos", cuja função pastoral é a de vigiar e conduzir a comunidade. Epíscopo é um título grego que significa "supervisor"; aquele que tem a responsabilidade de acompanhar o desenvolvimento da comunidade para cuidar da sua continuidade com o espírito original e da sua sintonia com os critérios de continuidade.
Ainda não há aqui a noção de sucessão apostólica, pois Paulo não os apresenta como os seus sucessores, mas como pessoas encarregadas pelo Espírito Santo de manter as comunidades no bom caminho.
No tempo de Paulo não existia a diferença entre clero e leigos. Havia, sim, uma variedade, não orgânica de carismas, como apóstolos, profetas e mestres (At 13,1), evangelistas (Filipe: At 21,8), profetisas (as filhas de Filipe: At 21,9) etc. Os presbíteros são simplesmente os animadores de comunidades; nunca são chamados de "sacerdotes" no Segundo Testamento.
Nas cartas paulinas constatamos que no seio das comunidades há uma diversidade de dons que deve ser articulada pelo cimento que é a solidariedade. Isso é ótimo, pois o Espírito não se deixa encurralar e não aceita ser engaiolado; Sopra aonde quer, para onde quer, é livre, liberta e tem sede de liberdade. Paulo reitera diversas vezes: "Não percam a liberdade cristã!" (cf. 2 Cor 3,17). "Não entristeçam o Espírito Santo!" (Efésios 4,30).

O apóstolo Paulo percebeu que existia nas comunidades uma dificuldade de conviver de modo sadio com a diversidade de dons. Paulo pontua bem a diversidade de dons recordando que existe uma ordem de importância. A comunidade cristã não pode cair no subjetivismo e nem no relativismo de "tudo é igual a tudo", ou no "devemos respeitar tudo".
Para Paulo, em primeiro lugar estão os apóstolos, entendido no seu sentido original e etimológico: apóstolo/a é aquele/a que é enviado/a por Deus, é um/a missionário/a, um porta voz de uma mensagem do Deus solidário e libertador.
Na época descrita por Atos, das primeiras igrejas, antes do processo de institucionalização (hierarquização) o termo "apóstolo" não significa um título que dá status. O termo "apóstolo" passa a ser considerado um título mais tarde, depois do processo de hierarquização das igrejas, o que acorrentou a vitalidade do dinamismo inicial.
Em segundo lugar estão os profetas. A palavra "profeta" vem do verbo pro-ferir, que significa falar por antecipação. Etimologicamente a palavra "profeta" significa "aquele que profere uma mensagem em nome de Deus". O profeta escuta o Oráculo de Deus.
A palavra "oráculo", em hebraico, significa "sussurro, cochicho, de Deus no ouvido do profeta ou da profetisa". Para entender um cochicho, um sussurro, é preciso fazer silêncio, prestar muita atenção, estar em sintonia, ter proximidade, ser amigo etc. Portanto Deus não falava claramente aos profetas, como nós, muitas vezes pensamos que falava.
Do mesmo modo que falava aos profetas e profetisas Deus fala hoje a nós. Deus cochicha (sussurra) em nossos ouvidos a partir da realidade dos empobrecidos e excluídos. Precisamos colocar nossos ouvidos e nosso coração pertinho do coração dos excluídos para que possamos escutar Deus.
Mais do que fazer cursos de oratória, precisamos de cursos de escutatória . Para ouvir os clamores mais profundos dos excluídos é necessário conviver com eles.
Em terceiro lugar vêm os mestres, aqueles que devem ensinar a verdadeira mensagem de Jesus. Ensinar pelo testemunho e de preferência, através da pedagogia da maiêutica: conversando, dialogando e assim ajudando os outros a parir ideias e práxis libertadoras. Lá no final da escala vem o dom das línguas (cf. I Cor 12,28).
Em I Cor 13,1-13 Paulo faz um elogio do amor para nos mostrar que relações de amor é que deve ser a coluna mestra da vida das comunidades e Igrejas. Paulo nos alerta:

"Desejem os dons do Espírito, principalmente a profecia, pois quem profetiza fala às pessoas, é entendido, edifica, exorta e consola a comunidade.  Aquele que profetiza é maior do que aquele que fala em línguas. Quem fala em línguas edifica somente a si mesmo, fala só a Deus (cf. I Cor 14,1-6)." 

Em I Cor 14,19 o apóstolo Paulo afirmara: "Numa assembleia, prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em línguas".

Paulo e seus companheiros fundam e desenvolvem comunidades proféticas a partir da ação do Espírito. Quase todas as vezes que na Bíblia fala que "desceu o Espírito de Deus sobre..." diz também que os atingidos pelo Espírito de Deus começam a profetizar (cf. Nm 11,29; At 19,4-6).

A profecia é uma consequência direta da ação do Espírito. Logo, um bom critério para saber se estamos vivendo uma verdadeira experiência no Espírito de Deus é nos perguntar: Estamos nos tornando mais profetas ou profetizas? Se a maioria das pessoas que diz falar em línguas fossem também profetizas, teríamos um maior número de mártires e talvez o Brasil já estaria transfigurado por causa de tanta profecia.


6. Solidariedade, sim; mas COMO?

"É afadigando-se que devemos ajudar os pobres" (At 20,35). O apóstolo Paulo, segundo Lucas, não somente exorta os presbíteros e nós à solidariedade com os pobres, mas pontua também como ele pensa e como testemunhou que deve ser esta solidariedade.

Paulo cita uma frase de Jesus para defender a solidariedade com os pobres: "Há mais felicidade em dar que em receber " (At 20,35). O discurso revela que é impossível ser solidário aos empobrecidos e excluídos sem fatigar-se, sem cansar-se. Meter as mãos na massa, suando a camisa, em algum trabalho concreto e perseverante é condição sine qua non para o exercício da solidariedade gratuita e libertadora.

Solidariedade à distância, sem envolvimento pessoal, sem compromisso sério não passa de caricatura de solidariedade. Recai certamente em esmola, em paliativo, em assistencialismo, que gera dependência e subserviência em quem recebe a ajuda e tranquiliza a consciência de quem dá.

Paulo contestou as caricaturas de solidariedade trabalhando firme fazendo calos nas mãos para o seu sustento e para ajudar outros companheiros. Lucas quer retomar esta experiência original, da qual emana uma fidelidade genuína ao projeto do movimento de Jesus.

Por ironia da história, mudam-se os tempos, mas continua viva uma grande controvérsia sobre como ser solidário. É possível encontrar pessoas que trazem doações nas paróquias e dizem assim:

 "Levem para os favelados, pois eu não tenho coragem de ir à favela, senão não consigo dormir de noite". Ou: "Podemos dar esta sopa para os mendigos, mas não para os sem terra, pois estes são subversivos e agressivos".  Que estreiteza de visão!

7. Inconclusão.

Enfim, Paulo e Pedro, por terem feito opção pelos pobres, se inculturado e atuado de forma ecumênica, muito nos inspiram. Paulo e Pedro entraram para a História como dois grandes pilares do cristianismo.


Autor: frei e padre carmelita Gilvander Luís Moreira, mestre em Exegese Bíblica, professor do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, no Instituto Santo Tomás de Aquino - ISTA -, em Belo Horizonte, e assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina


Nota: O comentário  bíblico  Paulo e Pedro: dois pilares do cristianismo não representa necessariamente a opinião deste blog nem das igrejas do Movimento da Ciência Cristã. Foi publicado para  refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica. Conforme recentes  descobertas sobre fatos nela registrados e opinião de estudiosos do texto bíblico,  como objetivo de alcançarmos  o significado espiritual das escrituras. 

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PARA REFLETIR:

Espírito. A substância divina; Mente; o Princípio divino; tudo o que é bom; Deus; só aquilo que é perfeito, sempiterno, onipresente, onipotente, infinito. Glossário de Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras de Mary Baker Eddy [p.594, linha 19 a 21].

Profeta.  Um vidente espiritual; desaparecimento do sentido material ante a consciência dos fatos da Verdade espiritual. Glossário de Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras de Mary Baker Eddy [p.593, linha 4 a 6].

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Recomendação de leitura:  A CURA CRISTÃ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO.


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domingo, 22 de setembro de 2013

A CRUZ (1905-1907) - Mary Baker Eddy: toda uma vida dedicada à cura,


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Mary Baker Eddy: toda uma vida dedicada à cura

[...] a Sra. Eddy escreveu ao Conselho de Diretores d'A Igreja Mãe, com relação à necessidade de orar acerca de fenômenos meteorológicos destrutivos: ... eu lhes faço esta proposta, para que pensem nessa possibilidade: que os melhores Cientistas Cristãos de Boston e das proximidades sejam convocados a orar uma vez por dia, sabendo que nenhum pensamento de terremoto, furacão ou raio destrutivo entra no pensamento para causar dano, e que Aquele que reina nos céus e guarda a terra, salva de todo mal. 7
Um ano e meio mais tarde, em 24 de setembro de 1907, a Sra. Eddy escreveu em suas anotações que, quando ela orou, "nuvens terríveis que cobriam o céu mudaram instantaneamente ... e caiu uma chuva suave, aparecendo o arco-íris.” 8
Continue lendo para saber mais como Mary Baker Eddy  vivia  a realidade espiritual.


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Esta série de artigos focaliza as curas que Mary Baker Eddy, a Descobridora e Fundadora da Ciência cristã, realizou. Elas começaram na infância e continuaram durante toda a sua vida. Algumas dessas curas nunca foram publicadas.



A cruz (1905–1907)

Yvonne Caché Fettweis e Robert Townsend Warneck



Em 1905, Mary Baker Eddy já era uma figura conhecida por todo o país. Os jornais da época cada vez mais voltavam sua atenção para ela, como Fundadora e Líder do movimento da Ciência Cristã. Boa parte desse interesse era um tanto hostil. Independentemente do que ela enfrentasse, porém, a cura espiritual continuava a ter a primazia em seu pensamento.
Em 25 de maio de 1905, a Sra. Eddy escreveu a um de seus alunos de longa data:
O que eu preciso para me ajudar na obra de minha vida, mais do que qualquer outra coisa, é de um sanador como eu era quando estava na prática... Quanto a ti, alcança esse único ponto, sê alguém que cura instantaneamente todo tipo de doença. Era o que eu fazia e é o que tu deverias fazer. Nosso grande Mestre fazia isso e ordenou a seus seguidores que fizessem o mesmo.

Tu também o podes fazer e deves fazê-lo, a fim de ser Cientista Cristão. Dedica-te agora a esse dever, vigia, ora, trabalha e tem fé! Sabe que tu podes ser aquilo que Deus requer que sejas e és agora — Sua imagem e semelhança — refletindo a Deus, supremo e único Sanador, refletindo a Deus, Vida, Verdade, Amor. 1

Quatro  meses  antes, a Sra. Eddy havia demonstrado exatamente o que ela queria dizer nessa carta. Em suas reminiscências, George Kinter, que trabalhava na casa da Sra. Eddy nesse período, conta o que aconteceu "numa noite de inverno, em janeiro ou fevereiro do ano de 1905".

A Sra. Eddy havia chamado diversas vezes seu secretário particular, Calvin Frye, que trabalhava para ela havia bastante tempo. Não obtivera resposta. Ela então pediu ao Sr. Kinter que fosse verificar o por quê. Ao entrar no quarto de Frye, George o encontrou afundado numa poltrona: "O Sr. Frye havia morrido, não tinha pulso, estava gelado e rígido."
Ao ser informada disso, a Sra. Eddy foi sem demora ao quarto do secretário e "começou imediatamente a dar-lhe tratamento ... Ela negou o erro, sem cessar, e declarou a Verdade com veemência e eloquência, durante uma hora. Eu jamais ouvira, em nenhuma ocasião, algo assim... Lembro-me muito bem de muitas de suas afirmações e ações":
Calvin, acorda e sê o homem que Deus criou! Tu não estás morto e sabes disso! Quantas vezes já deste provas de que não existe morte! Calvin, tudo é Vida! Vida! Vida sem morte. Dize: Deus é minha Vida... Declara: eu posso ajudar a mim mesmo... Levanta-te. Sacode esse pesadelo da crença humana falsa e do medo. Não permitas que o erro te mesmerize e te faça acreditar nas mentiras de Satanás acerca do homem criado à imagem e semelhança de Deus! A obra de tua vida não está completa. Eu preciso de ti. Nossa grande e abençoada Causa precisa de ti.

A vida é imorredoura como Deus mesmo é imorredouro, porque a Vida é Deus e tu és Seu descendente espiritual. Calvin, não existe morte para o cristão, Cristo Jesus aboliu a morte e este tratamento não pode ser invertido pelo erro.
Depois de uma hora, Calvin moveu-se um pouco e falou, bem baixinho: "Não me chame de volta. Deixe-me ir, estou muito cansado." Ao que a Sra. Eddy respondeu: "Sim, nós persistiremos em chamar-te de volta, pois nem fostes embora. Só estivestes sonhando e agora que acordaste desse sono irreal não estás cansado... Graças ao bom Deus, que é Mente, é o bem onipresente, tu não te submetes às pretensões dos sentidos materiais."
Depois de mais meia hora, Calvin havia se recuperado completamente. O restante da noite foi tranquilo e ele estava no seu posto na manhã seguinte, fazendo seu trabalho normal para a Sra. Eddy. 2
Um mês depois dessa experiência, a Sra. Eddy recebeu a carta de uma certa Mary Crane Gray, que acabara de conhecer a Ciência Cristã. O marido dela havia enlouquecido após perder uma fortuna considerável em especulações financeiras infelizes.
Os médicos haviam dito que o estado era incurável e recomendaram que fosse internado em um asilo. Em vez disso, a Sra. Gray escreveu à Sra. Eddy, suplicando-lhe que curasse o marido: "Derramei meu coração em uma carta de dez páginas para a Sra. Eddy. Eu não sabia que ela não estava mais aceitando casos. [Alguns dias] depois de ter enviado a carta, meu marido ficou curado." Ele nem se lembrava de ter estado doente. A esposa contou-lhe que ela escrevera à Sra. Eddy. Ele disse: "Vou imediatamente procurar um emprego.” 3
A razão de a Sra. Eddy não estar mais na prática pública da cura era que ela estava dedicando todo o seu tempo a ajudar a humanidade com seu trabalho de Líder da Causa da Ciência Cristã. Ela instava continuamente seus seguidores a deixar tudo por Cristo.
Em sua mensagem: "Escolhei vós", À Primeira Igreja de Cristo, Cientista, em Boston (escrita por ocasião da dedicação da grandiosa Extensão do Edifício Original que fora construído mais de dez anos antes), a Sra. Eddy lembrou os Cientistas Cristãos da passagem bíblica: "Quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim.” 4
E depois escreveu: "Quantos estão seguindo o Guia dessa forma? Somos seguidores da Verdade apenas quando seguimos verdadeiramente, em mansidão, paciência e espiritualidade, abençoando o santo e o pecador com o fermento do Amor divino que a mulher colocou dentro do cristianismo e da medicina.” 5
Para a Sra. Eddy, esse "fermento do Amor divino" era a cura cristã. Como havia escrito ao Primeiro Leitor d'A Igreja Mãe: "Acaso não é a cura do doente a coisa melhor e mais elevada que é feita no campo? Sim, é; nosso grande Mestre fez com que fosse assim”. 6
E a um conferencista da Ciência Cristã ela escreveu:
Vou dizer agora o que é necessário, mais do que qualquer outra coisa, para assegurar a perpetuação do atual êxito da Ciência Cristã e a continuação de seu progresso, a saber, cura mais elevada e mais prática.
Cura definida e imediata é a demonstração do que anuncias na teoria e a teoria sem a prática, na religião e na filosofia, é pior do que nada, pois decepciona aquele que a busca e destrói a evidência de sua veracidade, tornando a situação mais desesperada do que a simples ignorância. 7
A Sra. Eddy não limitava a cura apenas a seres humanos. Em maio de 1906, um Cientista Cristão das Filipinas escreveu-lhe sobre o tratamento para animais e recebeu a seguinte resposta:
... cura os animais assim como as pessoas. Quando eu estava na prática, curei animais e vi, em todas as ocasiões, que eles são receptivos à Verdade. Deus deu ao homem "domínio sobre todos os animais" e não temos autoridade alguma para supor que Ele tenha revogado esse dom ou tenha tirado do homem a herança espiritual que lhe cabe de direito. 8
Poucos dias depois de enviar essa carta, a Sra. Eddy escreveu ao Conselho de Diretores d'A Igreja Mãe, com relação à necessidade de orar acerca de fenômenos meteorológicos destrutivos:
... eu lhes faço esta proposta, para que pensem nessa possibilidade: que os melhores Cientistas Cristãos de Boston e das proximidades sejam convocados a orar uma vez por dia, sabendo que nenhum pensamento de terremoto, furacão ou raio destrutivo entra no pensamento para causar dano, e que Aquele que reina nos céus e guarda a terra, salva de todo mal. 7
Um ano e meio mais tarde, em 24 de setembro de 1907, a Sra. Eddy escreveu em suas anotações que, quando ela orou, "nuvens terríveis que cobriam o céu mudaram instantaneamente ... e caiu uma chuva suave, aparecendo o arco-íris.” 8
Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras era o livro texto que produzia curas, livro que a Sra. Eddy escrevera no início da década de 1870. Depois disso, havia trabalhado continuamente para torná-lo mais claro para os leitores.


“Um livro cuja mensagem mudou o mundo.”    Women’s National Book Association – EUA. 
[ e-mail: vendas@cienciaesaude.com ]

Como resultado de seus esforços, haviam sido feitas seis revisões importantes. Em outubro de 1906, ela escreveu a um de seus auxiliares: "Tornou-se necessário publicar uma nova edição de Ciência e Saúde, pois as matrizes tipográficas estão gastas. Tenho pensado bastante, dia e noite, em revisar esse livro para tornar seu significado mais claro para o leitor que não conhece a Ciência Cristã.” 11
Nos oito meses seguintes ela devotou-se a essa tarefa e, ao terminar, acrescentou ao Prefácio: "Até 10 de junho de 1907 [a autora] nunca lera esse livro inteira e consecutivamente a fim de elucidar seu idealismo.” 12
Ciência e Saúde era o resultado da revelação que Deus fizera à Sra. Eddy acerca de Sua natureza e de Suas leis. Através dos anos, o livro tem dado provas de sua origem divina com seu poder de curar aqueles "que honestamente procuram a Verdade.” 13 e que o lêem.
 Em novembro de 1907, a Sra. Eddy lera uma entrevista que o fundador do Exército da Salvação, General William Booth, concedera a um jornal. O artigo dizia que a saúde dele não era boa. Isso fez com que a Sra. Eddy escrevesse a um Cientista Cristão da Inglaterra, pedindo-lhe que "encontrasse um meio" de presentear o livro ao general, acrescentando que "agora é a hora de curar este homem de fé”. 14
Em meio ao trabalho de revisão de Ciência e Saúde, surgiu um dos maiores desafios que a Sra. Eddy jamais enfrentara. Começou como uma competição de jornalismo sensacionalista entre a revista McClure's Magazine e um jornal importante, o The New York World. Culminou num processo judicial contra alguns auxiliares da Sra. Eddy e dignitários de sua Igreja, movido, de forma ardilosa, em nome dela, por pessoas que se autonomearam seus "curadores".
Esses "curadores" incluíam o filho dela, George, uma das filhas dele, um sobrinho e um primo da Sra. Eddy, além de seu filho adotivo, que se rebelara contra ela. Como "curadores", eles alegavam que a Sra. Eddy estava mentalmente incapaz e vinha sendo explorada por pessoas ao seu redor.
A abordagem metafísica com que a Sra. Eddy enfrentou o processo pode ser constatada nas instruções que deu a uma pessoa a quem pedira que orasse sobre esse caso:
"Ela queria que a crença em "processo judicial" fosse tratada do ponto de vista da metafísica absoluta. Não queria que eu determinasse qual seria o veredicto, mas que me ocupasse em saber que a Verdade prevaleceria e que a Mente divina dirigiria o veredicto — e realmente o dirigiu”. 15 Depois que a Sra. Eddy foi entrevistada por uma junta de “Peritos” 16 designados pelo juiz, o caso foi encerrado a favor dela.
Um acontecimento particularmente interessante, em conexão com esse processo, foi a cura realizada pela Sra. Eddy, de um repórter que tinha câncer na garganta e não podia mais falar. Ele havia chegado à procura de um escândalo e foi embora completamente curado. Mais tarde, ele se tornou Cientista Cristão e afirmou sentir "uma dívida de gratidão à Sra. Eddy por sua cura...” 17
No mesmo mês em que se encerrou o processo dos "Curadores", a Sra. Eddy convidou para uma visita a Condessa de Dunmore, Cientista Cristã da Inglaterra, que estava de passagem nos Estados Unidos com suas duas filhas. Uma delas, Lady Victoria Murray, relatou depois:
Minha visita a Pleasant View foi em [outubro de] 1907, com minha mãe e minha irmã, depois do falecimento de meu pai... Foi inigualável a bondade e a simpatia com que fomos tratadas na ocasião, especialmente minha mãe, que estava sofrendo bastante com o senso de perda.

A Sra. Eddy, "movida de compaixão", aliviou com ternura o pesar que minha mãe sentia, elevando-a a um reconhecimento maior da Vida. Depois, voltando-se para mim, ela perguntou se eu tinha alguma dúvida. "Sim", respondi, "gostaria de saber como a senhora cura os doentes." Recostando-se para trás na cadeira, ela disse, sorrindo: "Vou-lhe dizer. Eu curo hoje da mesma forma como curava quando comecei.

Meu sistema original era instantâneo. Os alunos não compreendiam mais do que um estudioso de inglês compreende um idioma estrangeiro sem tê-lo aprendido. Eles, portanto, colocavam as coisas em sua própria língua. O argumento usado na cura é simplesmente afinação. Se seu violino estiver afinado, não será necessário afiná-lo. Mantenha seu violino afinado." Essa última frase foi repetida em tom imperioso e com bastante ênfase. 18

Não importava o que o mundo material jogasse a seus pés, fossem doenças, tempestade, loucura, morte ou um ataque de natureza legal que punha em risco tudo o que ela trabalhara para construir, Mary Baker Eddy encarava tudo como oportunidade de cura. Para ela, eram oportunidades para mostrar ao mundo que Deus é um Pai-Mãe sempre presente, um Médico infalível, e um Juiz perfeito.

1 História da Igreja, documento H00094, Departamento de História da Igreja d'A Igreja Mãe.  2 Reminiscências de George Kinter, História da Igreja. 3 Reminiscências de Mary Crane Gray, História da Igreja. 4 Mateus 10:38. 5 The First Church of Christ, Scientist, and Miscellany, p. 4. 6 História da Igreja, documento L10930. 7  História da Igreja, documento L08548. 8 História da Igreja, documento L14627. 9 História da Igreja, documento V00698. Ver também Lyman B. Powell, Mary Baker Eddy, A Lifesize  Portrait (Boston: The Christian Science Publishing Society, 1991), p. 234, e Irving C. Tomlinson,Twelve years with Mary Baker Eddy (Boston: The Christian Science Board of Directors, 1966), p. 203. 10 História da Igreja, documento L15400.  11 História da Igreja, documento V03226. 12 Ciência e Saúde, p. xii.  13 Ibidem. 14 História da Igreja, documento L13998. O General Booth viveu até os oitenta e cinco anos, vindo a falecer em 1912. 15 Reminiscências de pessoas que conheceram Mary Baker Eddy, (Boston: The Christian Science Publishing Society, 1986), p. 115.  16  Os "Peritos" eram um juiz, um psiquiatra (na época chamado "alienista") e um advogado neutro. Eles foram encarregados de verificar a competência da Sra. Eddy na condução de seus próprios interesses financeiros.  17  Tomlinson, p. 65. 18 Reminiscências de Victoria Murray. História da Igreja.


Fonte: revista O Arauto da Ciência Cristã, edição de fevereiro de 1997. The Christian Science Publishing Society, todos os direitos reservados. 


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