sábado, 1 de março de 2014

A PRÁTICA DA CURA ESPIRITUAL NA CIÊNCIA CRISTÃ.

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De 5 a 8 de dezembro de 1995, realizou-se em Boston, nos Estados Unidos, um importante simpósio sobre o tema: " Espiritualidade e Cura na Medicina". Foi dirigido pelo Dr. Herbert Benson, sob o patrocínio da Faculdade de Medicina de Harvard e o Instituto Médico Mente/Corpo do Hospital Deaconess. (O evento foi financiado em parte pela Fundação John Templeton).

 

O ponto central do simpósio foi um profundo diálogo sobre a prática da cura espiritual realizada pelos seguidores de várias religiões importantes. O evento recebeu a cobertura de diversos órgãos da imprensa, inclusive a Rede de Televisão ABC, a revista Harper's e o The Christian Science Monitor, além de outros jornais. (Ver relato mais detalhado na edição do Monitor de 6 de dezembro de 1995, e no Christian Science Sentinel de 15 de janeiro de 1996.)

 

Harvard's seal sits atop a gate to the athletic fields at Harvard University in Cambridge, Massachusetts in this September 21, 2009 file photo. Harvard University is investigating allegations that approximately 125 undergraduate students cheated on a spring take-home final exam, school officials said on Thursday, disclosing what would be the largest cheating scandal in its recent history.  REUTERS/Brian Snyder/Files    (UNITED STATES - Tags: EDUCATION)

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A prática da cura espiritual na Ciência Cristã

 

colaboração de Virginia S. Harris e  Herbert Benson

 

 

Até poucos anos atrás, a maior parte das publicações sobre medicina e psicologia absolutamente não levava em consideração a religião e a espiritualidade como fatores importantes para a saúde. Alguns ensaios até argumentavam que a religião e a devoção a Deus podiam ser prejudiciais ao bem-estar mental, emocional e físico. Atualmente, entretanto, um número cada vez maior de respeitados profissionais da saúde e outros pensadores espirituais estão desafiando esse velho estigma e vêm pesquisando seriamente os efeitos curativos da oração, da espiritualidade e da religião.

De 5 a 8 de dezembro de 1995, realizou-se em Boston, nos Estados Unidos, um importante simpósio sobre o tema: " Espiritualidade e Cura na Medicina". Foi dirigido pelo Dr. Herbert Benson, sob o patrocínio da Faculdade de Medicina de Harvard e o Instituto Médico Mente/Corpo do Hospital Deaconess. (O evento foi financiado em parte pela Fundação John Templeton). O ponto central do simpósio foi um profundo diálogo sobre a prática da cura espiritual realizada pelos seguidores de várias religiões importantes.

O evento recebeu a cobertura de diversos órgãos da imprensa, inclusive a Rede de Televisão ABC, a revista Harper's e o The Christian Science Monitor, além de outros jornais. (Ver relato mais detalhado na edição do Monitor de 6 de dezembro de 1995, e no Christian Science Sentinelde 15 de janeiro de 1996.)

Em conseqüência do diálogo contínuo, de muitos anos, entre a Igreja da Ciência Cristã e o Dr. Benson, que vem pesquisando a cura em diversas religiões, foi aceito o convite para participar deste simpósio. Damos a seguir o texto da palestra proferida na ocasião, porVirginia S. Harris, C.S.B., presidente do Conselho de Diretores da Ciência Cristã. Também reproduzimos a introdução e as considerações finais do Dr. Benson.

 

TRECHOS DA INTRODUÇÃO DO DR. BENSON

Ao apresentar a Sra. Harris, o Dr. Benson contou que, com os anos, havia sido levado, por suas pesquisas sobre o valor terapêutico da meditação, em conjunto com o tratamento médico, a perguntar-se se a oração, como único recurso, poderia resultar em cura. "Vi que tínhamos um modelo a que poderíamos recorrer" disse ele, "ou seja, a Igreja da Ciência Cristã.. .. Isso aconteceu em fins da década de 70.. . .

"Paulatina e inexoravelmente, chegamos à conclusão de que há um terreno comum onde podemos trocar idéias, aprender uns com os outros. E foi necessária muita coragem, por parte da Igreja, para tomar essa posição, diante da animosidade que o assunto suscitou durante quase cem anos. E agora tenho a satisfação de dizer que estamos trabalhando juntos em prol de um entendimento de como o tratamento espiritual pode levar à cura."

 

PALESTRA DE VIRGINIA HARRIS

Boa tarde. É uma alegria e privilégio reunir-me com tantos sanadores e trocar idéias! Eu estava pensando, hoje de manhã, sobre como é forte o elo que nos une. Dei-me conta de que cada um de nós acorda todos os dias com o desejo de curar, consolar, aliviar o sofrimento, no maior número possível de casos e de circunstâncias.

Deus, Alá, Eloím, a Mente deífica. .. está sem dúvida abençoando este simpósio e todos os corações e mentes aqui reunidos. Todos viemos com a pergunta: Será que existe algum aspecto importante em nossa prática curativa, que talvez ainda nos falte conhecer? Será que existe um universo maior de saúde e sanidade, que precisamos compreender? E, em nossa busca de compreensão, poderemos apoiar-nos melhor mutuamente, para o bem da humanidade?

Creio que a humanidade chegou a um ponto, na pesquisa da relação entre mente e corpo, em que está ocorrendo uma transformação fundamental. As pessoas estão ansiando por um princípio curativo mais perfeito.

Não será acaso esta a aurora de uma mudança em nossa opinião sobre a relação mente/corpo, mudança essa tão significativa como a que ocorreu quando Copérnico lançou nova luz sobre nós e sobre o universo?

A cura espiritual é de importância vital para mim, pois lhe devo minha própria vida, literalmente. Espero poder compartilhar com vocês alguns vislumbres sobre o que estou aprendendo e vivendo no campo da espiritualidade e da cura, a partir de quatro pontos de vista distintos, a saber:

• como paciente, que desde a infância usufruiu dos benefícios da cura espiritual;

• como praticista e professora de Ciência Cristã, que pratica a cura e ensina os outros a curar;

• como membro do Conselho de Diretores da Ciência Cristã, com a perspectiva mundial de milhares de indivíduos que curam e são curados por meios espirituais;

• e como mãe, tendo criado três filhos saudáveis, utilizando apenas a forma de tratamento que hoje exporei. ____________________________

 

Gostaria de relatar o acontecimento que me tocou profundamente e solidificou minha confiança em Deus. Na verdade, foi o que me impeliu a abraçar a prática da cura como profissão.

Há dezenove anos fui vítima de um grave acidente automobilístico, numa via expressa de Detroit. Fui levada ao pronto-socorro de um hospital daquela cidade. Os médicos disseram a meu marido que não acreditavam que eu sobrevivesse. Queriam fazer uma cirurgia de emergência.

Nos breves intervalos em que estava consciente, eu ouvia os médicos e meu marido falando dos riscos da cirurgia. Eu não queria morrer. Naquele momento, dei-me conta de que meu marido e eu devíamos tomar uma decisão de suma importância quanto à forma de tratamento para mim: oração ou circurgia.

Pode parecer estranho, para a maioria de vocês, que uma pessoa que está sendo atendida num pronto-socorro nem sequer pense em algo que não seja a tecnologia e a técnica à sua disposição nesse lugar. Para mim, porém, havia uma decisão a ser tomada.

Eu queria viver. Tinha três filhos e queria vê-los crescer, terminar os estudos, formar uma família. Por isso escolhi o tratamento pela Ciência Cristã, pela oração. Vejam bem, eu havia, com êxito, me apoiado com confiança nas leis divinas da cura, durante toda a minha vida. Por isso, apoiar-me inteiramente em Deus, nesse momento, foi algo natural para mim. Não foi fé cega, mas sim a convicção que procede da experiência.

Meu marido telefonou a uma praticista da Ciência Cristã, pedindo tratamento, assinou os documentos que isentavam o hospital de toda responsabilidade, e eu fui levada para casa. Minha mãe e meu marido cuidaram de mim. Vizinhos e amigos ajudaram a cuidar das crianças.

Embora sentisse fortes dores durante os primeiros três dias, posso dizer com honestidade que foram dias de calma, repletos de oração por todos nós, preenchidos pela consciência do amor de Deus por mim. Eu sabia que eu era importante para Deus, não era insignificante nem estava longe dEle. Sentia-me em união com a bondade e o poder de Deus.

No segundo dia, porém, houve uma crise durante a qual pensei estar morrendo. O impulso mental para desistir da vida foi muito forte. Naquele momento, senti o amor e a presença de Deus de forma tangível, como que me segurando. Essa foi a força maior, a atração mais forte e, de fato, o único poder que havia. Compreendi que era a minha Vida!

O impulso de desistir, de morrer, diminuiu e depois cessou. Esse foi o ponto decisivo. Estava em terreno seguro e comecei a progredir rapidamente. Em duas semanas, eu estava curada, de pé, cuidando da família, levando as crianças para a escola.

Com essa cura, meu caminho estava traçado. Logo comecei a dedicar-me à prática pública da cura pela Ciência Cristã. ______________________________

 

A prática da cura pela Ciência Cristã começou cerca de 125 anos atrás, exatamente aqui, na região de Boston. Durante anos, Mary Baker Eddy procurou uma solução para sua saúde precária e enveredou por um caminho que não é estranho aos que hoje pesquisam a relação mente/corpo. Tentou a homeopatia, estudou a sugestão mental. Embora essas teorias a tivessem aproximado da medicina puramente mental, ela acabou deixando-as de lado, porque não incluíam a Deus.

Deus sempre fora parte essencial da vida da Sra. Eddy. A Bíblia era sua companheira constante, registro vital e lembrança clara da presença curativa e salvadora de Deus. Os relatos bíblicos de cura eram vivos e reais para ela: o menino epilético, a garota que estava à morte, a mulher que sofria de hemorragia havia doze anos, o oficial leproso e muitos, muitos outros.

No inverno de 1866, a vida da Sra. Eddy mudou completamente. Ela se machucou gravemente numa queda no gelo, na cidade de Lynn, Massachusetts. O médico que a atendeu achou que não havia esperança de recuperação. Ela pediu a Bíblia e leu relatos das curas efetuadas por Jesus. Seguiu-se um momento de profunda compreensão. Foi curada no mesmo instante.

Esse acontecimento mudou sua maneira de ver o mundo. Poderíamos dizer que foi para ela como passar da teoria de Ptolomeu para a de Copérnico. Acabou dando um direcionamento específico para suas pesquisas. Buscando uma explicação do Princípio da cura, ela aprofundou-se ainda mais no estudo da Bíblia. Testava o que aprendia, curando outras pessoas.

Um dia, por exemplo, recebeu um telegrama onde lhe pediam que fosse orar para uma mulher que estava morrendo de pneumonia. A paciente agonizava, respirando com muita dificuldade. A Sra. Eddy orou à sua cabeceira e a mulher foi curada. O médico que tratava do caso, o Dr. Davis, da cidade de Manchester, New Hampshire, que testemunhou o fato, instou com a Sra. Eddy que escrevesse um livro para explicar seu método de cura. 1

Seis anos mais tarde, em 1875, sua descoberta e sua explicação das regras da cura pela Ciência Cristã foram dadas a conhecer no livro ao qual deu o interessante título: Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras. Sua intenção era a de compartilhar liberalmente sua descoberta. Fundou mais tarde a Faculdade de Metafísica de Massachusetts, com alvará do estado para funcionar com finalidade médica. Também seguiu-se a organização de uma igreja com a missão de publicar a literatura da Ciência Cristã. Sua obra culminou com a fundação do jornal diário The Christian Science Monitor, tendo ela então oitenta e oito anos de idade.

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O último capítulo do livro Ciência e Saúde, com cem páginas, é uma compilação de relatos escritos por pessoas que foram curadas apenas pela leitura do livro. Desde 1880, curas do mesmo tipo vêm sendo registradas continuamente no The Christian Science Journal e, desde 1898, também no semanário Christian Science Sentinel. O número deste mês do Journal, por exemplo, relata curas da Austrália ao Brasil, desde ossos quebrados até cegueira e insônia.

Essas não são ocorrências fenomenais ou milagrosas. A Ciência Cristã as considera como ternos efeitos do Princípio da cura, que atua na vida de pessoas comuns, todos os dias, com naturalidade.

Há pouco tempo, um amigo me contou que acordou certa manhã com muita dor de cabeça e náusea. Nesse dia ele precisava dirigir um seminário sobre tributação societária. Mal e mal conseguiu levar avante as atividades da manhã.

Ao meio dia a dor era intensa e ele conseguiu encontrar um cantinho tranqüilo para orar. Usou umas poucas frases que lembrava, de Ciência e Saúde. Eram trechos daquilo que chamamos "a exposição científica do ser". Essa é uma declaração fundamental para a prática da Ciência Cristã. Começa assim: "Não há vida, verdade, inteligência, nem substância na matéria. Tudo é Mente infinita e sua manifestação infinita, porque Deus é Tudo-em-tudo." 2

Ele pensou cuidadosamente sobre cada palavra, enquanto as dizia, ansiando pelo poder curativo por trás das idéias. Se essa afirmação da totalidade de Deus era verdadeira, ele sabia que a dor e o mal-estar que o afligiam não tinham o poder de permanecer. A dor cessou. Ele sentiu-se bem e voltou a dirigir o seminário. Ao todo, a oração e a cura levaram uns trinta minutos.

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A cura que Mary Baker Eddy teve levou-a a descobrir uma maneira totalmente nova de ver qual é a relação existente entre Deus, a mente humana e o corpo.

Anteriormente, ela havia aceitado a idéia convencional de que a mente humana é produto do mundo físico. Descobriu, porém, que o mundo material é o produto da mente humana. Em vez de aceitar o pensamento como um fenômeno da matéria, ela se deu conta de que a matéria é um fenômeno do pensamento.

Antes de sua descoberta, o estado mental de um paciente que, por exemplo, estivesse sentindo dores, era apenas um dos fatores atuando no caso. Depois da descoberta, ela viu que o pensamento é o paciente.

Repetindo: Antes de sua descoberta, o estado mental de um paciente que, por exemplo, estivesse sentindo dores, era apenas um dos fatores atuando no caso. Depois da descoberta, ela viu que o pensamento é o paciente.

O pensamento é, portanto, o lugar onde a mudança deve ocorrer, para que haja cura. Essa mudança se fundamenta no fato de que só existe um Deus, que é a Mente divina, e desse mesmo fato procede a mudança. Mente é uma palavra que freqüentemente usamos como sinônimo de Deus. O livro de Daniel, nas Escrituras, inclui estas palavras, que indicam que Deus é a fonte da inteligência: "Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder." 3 O uso que fazemos da palavra Mente, dessa forma, não se refere à mente humana, mas à Mente divina, real.

 
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Vou exemplificar como esse método de tratamento curou um problema em que havia uma causa orgânica diagnosticada por médicos.

Quando aceitei o pedido de tratá-la, Linda tinha catorze anos. Ela sofria daquilo que os médicos haviam diagnosticado como malformação artério-venosa. Desde criança, ela sofrera de agudas dores de cabeça e faltava muito às aulas na escola. Recebera cuidados médicos excelentes, mas o prognóstico não dava muitas esperanças. A cada três meses era submetida a cuidadoso monitoramento de seu estado. Um médico disse que ela seria atormentada por essas dores por toda a vida e nunca poderia ter filhos.

Outro médico consultado pela família ofereceu a possibilidade de uma cirurgia experimental, com 50% de chances de sobrevivência. Seguir-se-ia uma segunda operação uma semana depois, sem garantia alguma de uma solução permanente para as dores.

A mãe de Linda trabalhava no prédio onde eu tinha meu escritório. Um dia ela reparou nas iniciais C.S. depois de meu nome e perguntou o que significavam. Expliquei que eu era praticista da Ciência Cristã e ela lembrou que ouvira falar da Ciência Cristã, na faculdade. Indagou se Linda poderia ser curada e eu lhe disse que teria prazer em falar com a menina.

Linda começou a vir semanalmente ao meu escritório, para conversar comigo. Ela tivera pouquíssima educação religiosa, por isso começamos pelo básico, ou seja, a Bíblia.

Juntas lemos na Bíblia os relatos que evidenciam a bondade e o poder de Deus, especialmente as curas e os atos de Jesus. Raciocinamos que, como Deus a amava, Ele era uma presença amorosa na vida dela. Também examinamos em profundidade quem ela era realmente, como filha de Deus, e o que significa, especificamente e na prática, ser a imagem e semelhança de Deus, como diz a Bíblia. Ela começou a compreender que podia confiar no poder que Deus tinha para curá-la.

Depois de algumas semanas, Linda já não estava tomando remédios para as dores. Ela e os pais decidiram não fazer as cirurgias e confiar exclusivamente no tratamento pela Ciência Cristã. Foi aí que eu comecei a tratá-la pela oração.

Como sanadora, meu papel é o de ajudar o paciente a aceitar no pensamento a presença da lei curativa da Mente divina e ceder a seu poder. O praticista ora humilde e persistentemente para compreender a capacidade infinita de Deus para sustentar Sua criação. Esse raciocínio espiritual alcança e modifica o pensamento do paciente, da doença para a saúde, restaurando dessa forma o corpo.

Esse tratamento metafísico, ou seja, a aplicação da espiritualidade à cura, faz com que o pensamento, ou seja, as crenças que estão governando o modo de pensar do paciente, cedam lugar a pensamentos mais santos, mais espirituais. É esse o efeito da oração guiada pela Mente divina. Realmente sente-se o Divino abarcando o humano, é uma conexão ativa, uma unificação com Deus.

Meu primeiro contato com Linda ocorreu em outubro. Pelo fim de novembro ela estava totalmente curada. Ela não tomou medicamentos, não se submeteu às operações e não teve mais dores de cabeça. Hoje, dezesseis anos depois, ela está casada e tem dois filhos.

Recentemente, perguntei-lhe se houve algum momento,durante o tratamento, em que ela se lembre de haver sentido uma mudança ocorrendo. Ela respondeu que foi quando compreendeu que estava a salvo, que não havia nada para temer. Disse que não teve nenhuma ansiedade no decorrer do tratamento. Estava confiante, e estas são exatamente suas palavras: "adquiri controle sobre meu corpo".

A propósito, quando ela voltou para o colégio, já curada, os amigos quiseram saber como, por que, o que fizera. Suas respostas e a cura em si impressionaram pelo menos dois amigos, que começaram a ler Ciência e Saúde. Um deles foi curado do vício das drogas pelo estudo e tratamento da Ciência Cristã.

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Todos nós aqui reunidos, que lidamos diretamente com pacientes, sabemos muito bem quais são os efeitos negativos que o medo tem sobre a saúde e a recuperação da pessoa. EmCiência e Saúde, a Sra. Eddy instrui os sanadores: "Começa sempre teu tratamento acalmando o medo dos pacientes." Nessa mesma linha de pensamento, ela explica: "A causa promotora e base de toda doença é o medo, a ignorância ou o pecado. A moléstia é sempre provocada por um falso conceito mentalmente cultivado, não destruído. A moléstia é uma imagem exteriorizada do pensamento.. .. Tudo o que se abriga na mente mortal como condição física, projeta-se no corpo."  4

Na prática da Ciência Cristã, o medo é vencido pelo aumento da espiritualidade, da compreensão do poder do amor de Deus. O poder e a presença de Deus, aceitos no pensamento, não deixam espaço, na consciência humana, para o medo, a dor, ou a doença. Na Bíblia, o Apóstolo João prometeu: "Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.. .. No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento." 5

 

O que dizer de casos em que o problema é comportamental e a dor ou a angústia são claramente mentais? Como, por exemplo, o comportamento compulsivo ou autodestrutivo. Eu tratei um caso desses, não faz muito tempo, o caso de Paula.

Há dois anos, Paula se formou na faculdade. Tinha um metro e setenta e dois de altura e pesava pouco mais de quarenta e cinco quilos. Nada de estranhar, suponho, considerando que pretendia seguir a carreira de modelo em Nova Iorque.

Depois da formatura, viajou pela Europa por diversos meses e voltou para casa pesando ainda menos. Bebia uma quantidade excessiva de água. Os pais ficaram preocupados. Primeiro consultaram uma nutricionista, em busca de conselhos sobre alimentação. O consumo de água continuou a aumentar, e o de alimentos, a diminuir. Em pouco tempo, o peso da moça caiu para trinta e seis quilos.

Os pais decidiram interná-la numa clínica especializada em problemas de alimentação. Esperavam que a equipe clínica pudesse ajudar a filha em seus hábitos alimentares. Nos exames feitos na hora da internação, os médicos ficaram surpresos e contentes ao constatar que o cérebro da jovem não havia sido afetado. Mais ou menos a essa altura, Paula e seus pais pediram-me para orar por ela. A equipe clínica reconhecia a eficácia do tratamento pela Ciência Cristã e concordou em continuar com esse método, em vez de recorrer à medicação.

Os pais da moça a visitavam sempre que possível e o pessoal da clínica telefonava para eles quando as coisas não iam bem. O médico, que era muito receptivo à cura espiritual, avisava os pais sobre os aspectos que precisavam ser tratados pela oração.

Ali estava uma jovem que precisava desesperadamente de ajuda. Havia períodos em que tinha necessidade constante de apoio pela oração. Nesses períodos cruciais, ela me telefonava de hora em hora e eu orava constantemente por ela.

Ao tratar um estado mental desse tipo, acho essencial compreender que o paciente não é uma vítima fraca e vulnerável. Não existe poder oposto a Deus. A energia espiritual, ou seja, a atividade regeneradora de Deus, controla as ações humanas e pode corrigir um comportamento compulsivo.

Ao mesmo tempo, surge às vezes a necessidade de ajudar os pacientes a tomarem consciência de onde seu próprio pensamento os está levando. Lembro-me de um dia muito difícil, em que pedi a Paula para ver-se como quem está numa escada em espiral. Podia subir um degrau ou deixar-se puxar para baixo. As promessas inconsistentes, que tentam o pensamento a proceder compulsivamente, puxam o indivíduo para baixo. A convicção e a certeza do valor dado por Deus a cada pessoa espiritualizam o pensamento, capacitando-o a ceder ao poder de Deus, quebrando, dessa forma, o jugo do vício. Quando ela captou essa idéia simples, a mudança foi marcante. Ela dobrou a esquina, por assim dizer.

Seu peso aumentou para cinqüenta quilos e ela foi para casa. Certo dia, pouco tempo depois, ela acordou e disse: "Tenho de comer." Sentiu-se livre do desejo constante de beber água e logo recuperou o apetite normal. Ela pesa agora quase sessenta e seis quilos (mais semelhante à maioria das pessoas) e sabe que nunca mais será arrastada para um comportamento autodestrutivo.

O médico disse aos pais de Paula que o problema havia sido tão grave quanto uma toxicomania e que essa forma de desnutrição poderia ter sido fatal.

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Através dos tempos, mulheres e homens espiritualizados oraram e curaram a si mesmos e a outros, física, moral e emocionalmente. Existe um claro encadeamento de cura na religião e na Bíblia. O método de cura que praticamos na Ciência Cristã provém dessa herança, herança que inclui vidas modificadas e físicos curados. Em todos os casos que mencionei, a cura física foi de grande porte. Mas o efeito muito mais importante foi o de vidas transformadas, regeneradas e consolidadas na compaixão e na espiritualidade.

A revolução de Copérnico foi uma mudança fundamental de percepção. Os astrônomos nunca mais voltaram à visão anterior sobre o sistema solar. Da mesma forma, Mary Baker Eddy abriu uma nova fronteira, ao deixar a física em favor da metafísica, reconhecendo que a Divindade, Deus, a Mente divina, é o centro de Seu universo, e que o homem espiritual é Sua idéia mais elevada, o alvo de Seu cuidado. Ciência e Saúde explana completamente essa descoberta. (Nove milhões de exemplares vendidos, está traduzido em dezesseis idiomas e transcrito em Braille inglês.)

Muito embora uma descrição de meia hora do sistema de cura da Ciência Cristã seja forçosamente incompleta, eu gostaria de concluir, salientando os seguintes pontos principais:

• Primeiro, a Bíblia é um guia inspirado e confiável para a saúde física e mental.

• Segundo, a prática da cura pela Ciência Cristã se baseia num Deus único, amoroso e todo-poderoso, que está sempre presente.

• Terceiro, não somos vítimas fracas e vulneráveis; somos a imagem e semelhança de Deus, somos Seus amados filhos.

• Quarto, é no pensamento que deve ocorrer a mudança, para que haja cura. Essa mudança se fundamenta no fato de que há um único Deus, a Mente divina, e esse fato é o que propicia a mudança.

• E finalmente, a cura pela Ciência Cristã não é uma técnica sofisticada, não é milagrosa, não se baseia na fé cega nem na força de vontade. É antes um ato de graça e de confiança inocente naquilo que o Princípio divino, Deus, sabe a nosso respeito.

Em poucas palavras, esses cinco pontos resumem os elementos importantes da prática da cura pela Ciência Cristã.

Todos nós deixamos nosso trabalho diário para nos reunir durante estes três dias e examinar a espiritualidade e a cura. Em honra desses dias importantes e como encorajamento para os dias que virão, ofereço, à guisa de bênção, estas breves palavras de Ciência e Saúde: "Ao contemplar as tarefas infinitas da verdade, paramos — ficamos atentos a Deus. Depois investimos para a frente, até que o pensamento sem peias caminhe embevecido e se dêem asas à concepção ilimitada para que alcance a glória divina." 6

 

OBSERVAÇÕES DO DR. BENSON DEPOIS DA PALESTRA DA SRA. HARRIS

Após a palestra da Sra. Harris e um período de perguntas e respostas sobre a cura pela Ciência Cristã, o Dr. Benson disse: "Ao compreendermos melhor a relação entre espiritualidade, cura e medicina, acho que devemos nos perguntar: "Quais são os riscos e quais os benefícios da medicação atual? Quais são os efeitos colaterais? Quais são os efeitos de se usar. .. menos, ou nenhum remédio?". .. Acho que um dos resultados deste simpósio é levar-nos a examinar introspectivamente o risco de usarmos o tipo de cura de que falamos hoje, em comparação com os riscos e benefícios de se tomar os remédios que atualmente receitamos."

Ao concluir-se a sessão em que a Sra. Harris falou, muita gente logo se juntou à sua volta, representantes de muitas profissões e localizações geográficas. Nessa ocasião e em outros momentos, durante o simpósio, a Sra. Harris falou em particular com muitos dos quase mil participantes registrados no encontro. Esses pensadores pioneiros demonstraram grande interesse pela cura mediante a Ciência Cristã.

• Ficou evidente que a Ciência Cristã foi considerada um método confiável de cura. As pessoas perguntavam como poderiam entrar em contato com algum praticista da Ciência Cristã, buscando a cura para si ou familiares. Foi-lhes indicada a lista de praticistas, Salas de Leitura e igrejas filiais, publicada no The Christian Science Journal.

• Houve médicos que perguntaram sobre o tratamento pela Ciência Cristã e sua aplicabilidade à profissão deles. Um médico, por exemplo, que havia comprado um exemplar de Ciência e Saúde na área de vendas de livros, disse que ouvira falar da Ciência Cristã em sua família e queria saber o que precisava ler no livro, que o ajudasse a curar melhor. Esses médicos viram em Ciência e Saúde um livro de referência, para atender melhor seus pacientes.

• Houve participantes que pediram mais palestras sobre a Ciência Cristã para vários grupos do campo da saúde, grupos religiosos, faculdades e universidades.

Desse intercâmbio com médicos, enfermeiros, administradores hospitalares, psicoterapeutas, religiosos e outros que trabalham na área da saúde, surgiram diversos resultados, a saber:

• Interesse em encontrar mais pontos em comum onde a cura espiritual, especialmente como é praticada por estudantes da Ciência Cristã, possa ser útil aos que trabalham na medicina.

• Melhor compreensão sobre a Ciência Cristã e seu ministério de cura.

• O reconhecimento da importância da oração e da espiritualidade na cura, e de que esses fatores não devem ser escondidos, menosprezados nem forçados a se adaptarem a modelos materialistas.

Havia participantes de quarenta e sete estados dos Estados Unidos, bem como do Canadá, Japão, Malásia e diversos países da Europa e América Latina. Um espírito de pesquisa honesta e aberta se fez sentir em todas as apresentações e conversações informais. Nenhuma prática espiritual de cura e nenhuma idéia foi colocada em julgamento. Um comentário típico era: "Estamos buscando pontos em comum para o bem comum da humanidade."

Durante os três dias, estiveram à venda exemplares do The Christian Science Journal e do Christian Science Sentinel, bem como duas obras de Mary Baker Eddy, Ciência e Saúde e The People's Idea of God (A idéia que as pessoas fazem de Deus). Todos os dias, foram colocados à disposição dos participantes exemplares gratuitos do The Christian Science Monitor.

 

O Cientista Cristão genuíno ama protestantes e católicos, pastores e médicos, — ama a todos os que amam a Deus, o bem, e ama seus inimigos. Ver-se-á que, em vez de opor-se, tal pessoa serve os interesses tanto dos profissionais da medicina quanto da cristandade, e eles prosperam juntos, aprendendo que o poder da Mente é boa vontade para com os homens. Assim vem à tona o metal precioso do caráter, e o ferro da natureza humana enferruja e se desfaz; a honestidade e a justiça caracterizam aquele que busca e encontra a Ciência Cristā.  Mary Baker Eddy - The First Church of Christ, Scientist, and Miscellany, p. 4

 

1 Ver The First Church of Christ, Scientist, and Miscellany, p. 105.  2 Ciência e Saúde, p. 468.  3  Daniel 2:20.  4 Ciência e Saúde, p. 411. 5  1 João 4:16, 18.  6 Ciência e Saúde, p. 323.

 

Fonte: O Arauto da Ciência Cristã, agosto de 1996, The Christian Science Publishing Society, todos os direitos reservados.

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

DA FÍSICA PARA A METAFÍSICA - UMA JORNADA PARA PIONEIROS ESPIRITUAIS

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 [...] bons alunos costumam fazer muitas perguntas. Eles fazem perguntas construtivas, profundas, que demonstram o quanto estão interessados no assunto. Mostram que eles pensam por si mesmos, que não têm medo de desafiar velhos conceitos, velhos sistemas de crenças, antigos mitos, e que estão prontos para penetrar em territórios novos, avançar para novas fronteiras.

É exatamente isso que o pioneiro espiritual faz, também. Faz perguntas que precisam ser feitas. Pensa por si mesmo. Desafia velhos mitos, velhos conceitos, e avança para novas fronteiras do pensamento. Nunca, mas nunca mesmo, fica com medo de perguntar: "Por quê?"

Talvez seja algo assim que o renomado físico Stephen Hawking pede, em seu livro Breve História do Tempo. "Até agora", ele diz, "a maioria dos cientistas esteve por demais ocupada com o desenvolvimento de novas teorias sobre o que é o universo, e ainda não se perguntou por quê."

Segundo Hawking, não é suficiente desenvolver uma teoria unificada acerca do universo, como os cientistas estão prestes a fazer. Ele acha que devemos perguntar e responder alguns porquês muito importantes. Tais como: "Por que existe o universo, afinal de contas?" Quem ou o que estabeleceu o universo? O universo foi um "criador"? Nesse caso, existe algo que talvez tenha criado o criador? 1

Essas são perguntas difíceis. São perguntas fundamentalmente espirituais, que os físicos não podem responder sozinhos. Na opinião de Hawking, são "os filósofos" que têm de responder a essas perguntas."  [Ilustração: físico Stephen Hawking]

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DA FÍSICA PARA A METAFÍSICA -

UMA JORNADA PARA PIONEIROS ESPIRITUAIS

 

Mary Metzner Trammell

 

Era o primeiro dia de escola para minha filha. Segurando com firmeza sua lancheira vermelha, novinha em folha, ela estava de pé, entre mim e o irmão mais velho. A professora mandou que ela colocasse sua lancheira em baixo da mesa,ao lado de outras vinte e tantas lancheiras. A menina deve ter achado que não era muito lógico pôr a lancheira ali. Ela olhou para a professora e perguntou: "Por quê?"

O irmão, de oito anos, sentiu-se envergonhado. "Clara, você tem muita coisa a aprender", disse ele, pegando a lancheira da mão dela e colocando-a debaixo da mesa. Depois, deu-lhe um conselho fraternal: "Uma das coisas mais importantes, na escola, é NUNCA, MAS NUNCA MESMO, fazer perguntas!"

Agora essa filha é professora. Ela aprendeu, como eu aprendi durante meus anos de ensino, que afinal não é nada mau fazer perguntas. Muito pelo contrário, os bons alunos costumam fazer muitas perguntas. Eles fazem perguntas construtivas, profundas, que demonstram o quanto estão interessados no assunto. Mostram que eles pensam por si mesmos, que não têm medo de desafiar velhos conceitos, velhos sistemas de crenças, antigos mitos, e que estão prontos para penetrar em territórios novos, avançar para novas fronteiras.

É exatamente isso que o pioneiro espiritual faz, também. Faz perguntas que precisam ser feitas. Pensa por si mesmo. Desafia velhos mitos, velhos conceitos, e avança para novas fronteiras do pensamento. Nunca, mas nunca mesmo, fica com medo de perguntar: "Por quê?"

Talvez seja algo assim que o renomado físico Stephen Hawking pede, em seu livro Breve História do Tempo. "Até agora", ele diz, "a maioria dos cientistas esteve por demais ocupada com o desenvolvimento de novas teorias sobre o que é o universo, e ainda não se perguntou por quê."

Segundo Hawking, não é suficiente desenvolver uma teoria unificada acerca do universo, como os cientistas estão prestes a fazer. Ele acha que devemos perguntar e responder alguns porquês muito importantes. Tais como: "Por que existe o universo, afinal de contas?" Quem ou o que estabeleceu o universo? O universo foi um "criador"? Nesse caso, existe algo que talvez tenha criado o criador? 1   

Essas são perguntas difíceis. São perguntas fundamentalmente espirituais, que os físicos não podem responder sozinhos. Na opinião de Hawking, são "os filósofos" que têm de responder a essas perguntas.

E quem são esses filósofos? São os pensadores. Eles amam a sabedoria e vivem por ela. Eles questionam os sistemas limitados ou equivocados de crenças. Eles buscam leis unificadoras para interpretar e integrar o conhecimento. São pioneiros que não têm medo de ir além dos fenômenos físicos e descobrir a realidade dentro de um contexto de ordem superior, no contexto dos conceitos. Em última análise, dentro de um contexto metafísico.

 

São pessoas como estas de que vou falar:

• O cientista Edward O. Wilson, que acredita que o conhecimento físico, por si só, é parcial. Ele quer descobrir "uma unidade fundamental" entre " todas as formas de conhecimento" — uma "filosofia da ciência" ou, quem sabe, "uma teologia científica". 2

• O físico e místico oriental Fritjof Capra, que, há dez anos já advertia que "o conhecimento racional ... que mede e quantifica, classifica e analisa" é basicamente limitado. O que se faz necessário, argumentava ele, é contrabalançar esse conhecimento com um impulso para "a sabedoria intuitiva", "a religião" e a "cooperação". 3

• Os ganhadores dos prémios anuais da Fundação John Templeton, inclusive aqueles que planejam cursos universitários sobre a relação entre ciência e religião. Os cursos dados por esses ganhadores têm como título, por exemplo: "Ciência e religião na tradição ocidental" e "O papel espiritual das cosmologias em diversas culturas".4

• Milhares de participantes dos simpósios anuais (desde 1994) sobre "Espiritualidade e cura na Medicina", realizados pela Faculdade de Medicina de Harvard, que vêm estudando a correlação, muitas vezes documentada clinicamente, entre oração e cura.

• Milhares de pessoas no mundo todo que estudam regularmente a filosofia divina contida no livro de Mary Baker Eddy, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, que ousadamente anuncia, logo na primeira página do prefácio:

"E chegada a hora dos pensadores" (p. vii). Esse livro expõe uma Ciência totalmente espiritual, com base no fato de que Deus é o Princípio absoluto e intérprete único do universo. As leis dessa Ciência ditam que o puro amor de Deus por Sua criação predomina sobre todo sistema de crenças materiais. Essas leis divinas constituem uma Ciência metafísica aplicada, a "Christian Science", que pode curar dificuldades e males de qualquer espécie.

 Os pensadores mencionados acima são considerados os pioneiros de hoje. Todos eles têm a ousadia de nadar contra a correnteza do pensamento materialista prevalecente. Esses pioneiros, porém, não estão alienados da sociedade em que vivem. Ao contrário, eles ajudam a humanidade. O trabalho deles beneficia a todos. Eles estão vencendo barreiras que foram impostas a todos nós. E cada passo de progresso espiritual ajuda a nos libertar, para podermos ser aquilo que Deus quer que sejamos: o eterno fruto do Amor divino.

Este mês, estudantes e professores universitários, provenientes do mundo todo, estarão reunidos em Boston, sede da Igreja mundial que Mary Baker Eddy fundou para levar adiante os ideais expostos no livro Ciência e Saúde. Juntos, esses participantes pensarão, e repensarão, sobre sua missão como "Pioneiros do Milênio Espiritual".

O "milênio" de que vai tratar a reunião não tem nada a ver com o ano 2000. Ele tem a ver com o milênio espiritual, que a Sra. Eddy definiu certa vez como "um estado e um estágio de progresso mental, que se processa desde sempre" (The First Church of Christ, Scientist and Miscellany, p. 239).

"O objetivo", diz a organizadora da reunião, Karen Bowen, "é o de ajudar os estudantes a se considerarem pensadores — e sanadores, pioneiros espirituais que reconhecem seu relacionamento com Deus."

"Cada pioneiro é necessário", diz Bowen. "Cada um tem sua própria maneira de ser um pioneiro. E à medida que eles trilham esse caminho, o tornam mais fácil para alguma outra pessoa. Eles movem para a frente o pensamento do mundo. É como uma onda que cresce cada vez mais, até se tornar uma maré de bênçãos!"

Os pioneiros precisam superar os limites, se quiserem ir para frente. E os pioneiros espirituais superam os limites da própria matéria. Questionam coisas que a maioria das pessoas considera inquestionáveis. Eles desafiam o inteiro sistema de crenças que diz que nossa identidade, nossa inteligência, nossa carreira, nossos relacionamentos, a própria vida, são materiais. Em vez disso, eles acreditam que o Espírito é supremo, que a nulidade intrínseca da matéria deve ser posta a nu, que a física deve dar lugar à metafísica.

Cada vitória, de cada pioneiro espiritual, é uma vitória para todos nós. Cada vitória, por menor que seja, aproxima-nos do inevitável milênio espiritual. Cada passo à frente ajuda-nos a responder definitivamente os grandes "porquês" que desafiam a humanidade. Cada passo ajuda-nos a compreender com mais exatidão quem somos realmente e por que estamos aqui. E finalmente, cada vitória faz com que se torne possível, para todos nós, "conhecer a mente de Deus", como diz Hawking. 5

 

Mary Metzner Trammell
Redatora Adjunta d
O Arauto da Ciência Cristã

 

1 Stephen Hawking, A Brief History of Time (New York; Bantam, 1996), p. 233.   2 Edward O. Wilson, "Back from Chaos", The Atlantic Monthly,março de 1998, pp. 41-62. 3 Fritjof Capra, TheTao of Physics (New York; Bantam, 1988), pp. xvi, 15. 4 M. S. Mason, "Classes Ponder Faith and Science", The Christian Science Monitor; 8 de dezembro de 1997.  5 Hawking, p. 233.

 

Fonte: O Arauto da Ciência Cristã, agosto de 1998, The Christian Science Publishing Society, todos os direitos reservados.

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domingo, 16 de fevereiro de 2014

COMO SE DEVE ORAR: UMA MEDITAÇÃO SOBRE O PAI NOSSO


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HISTÓRIA:

 

Como se deve orar:

Uma meditação sobre o Pai Nosso


 

Martinho Lutero

 

No presente escrito Lutero ensina os cristãos a compreenderem toda a sua existência como vivida diante de Deus. O escrito simples e sincero é um testemunho magnífico de uma grande confiança no amor de Deus para com o mundo dos pecadores. Lutero dedicou-o a Pedro Beskendorf, um amigo de muitos anos, que foi chamado, segundo a profissão que exercia, de Pedro Barbeiro.

O escrito foi publicado no início do ano de 1535. Algum tempo depois, Pedro, provavelmente embriagado, matou seu genro. Foi um acidente, como tudo indica; mas não deixou de ser uma morte violenta. Apesar disso, Lutero, em edições posteriores, não tirou o nome do criminoso da dedicatória do escrito.

Pois sempre afirmara que Deus aceita justamente os pecadores; justamente numa situação de pecado urge apelar à misericórdia de Deus. Os contemporâneos de Lutero apreciaram muito este pequeno escrito sobre a oração. Nos 11 anos entre 1535 e a morte de Lutero (1546), o escrito foi publicado em 11 edições, além da edição no dialeto do "baixo  alemão" e em latim (Joaquim Fischer).

 

martinho 

Em primeiro lugar: Às vezes sinto que, por causa de ocupações ou pensamentos alheios, fiquei frio ou perdi a vontade de orar. Pois a carne e o diabo estão constantemente dificultando e impedindo a oração. Nesses momentos pego meu pequeno saltério, vou para o meu quarto ou, conforme o dia e a hora, para a igreja, em meio às pessoas. E passo a falar para mim mesmo, oralmente, os dez mandamentos, o credo e, dependendo da minha disponibilidade de tempo, diversas citações de Cristo, de Paulo ou dos Salmos, tudo coisas como as fazem as crianças.

É bom que, de manhã cedo, se faça da oração a primeira atividade, e de noite, a última. E cuide-se muito bem desses pensamentos falsos e enganosos que dizem: Espera um pouco, daqui a uma hora vou orar, antes ainda tenho que resolver isto ou aquilo. Porque com esses pensamentos a gente passa da oração para os afazeres que prendem e envolvem a gente a ponto de não mais sair oração o dia inteiro.

Está certo que podem aparecer tarefas diversas tão boas ou até melhores que a oração, principalmente se a necessidade as exige. Corre um dito atribuído a São Jerônimo1: "Todo trabalho do crente é uma oração". E há um provérbio que diz: "Quem bem trabalha, ora em dobro", o que significa que uma pessoa crente teme e honra a Deus em seu trabalho, e se lembra do seu mandamento, para que não faça injustiça a ninguém, nem roube, engane ou defraude a ninguém. Essa atitude, sem dúvida, faz da sua ação, adicionalmente, uma oração e um sacrifício de louvor.

Por outro lado, também não é menos verdade que a obra de um descrente é pura maldição, e quem trabalha desonestamente impreca em dobro. Pois os pensamentos de seu coração durante o trabalho só podem ser tais que ele despreze a Deus, infrinja os mandamentos e faça injustiça a seu próximo, e procure roubar e defraudá-lo.

Esses pensamentos, seriam eles outra coisa senão pura maldição contra Deus e as pessoas, pelo que sua obra e trabalho também passa a ser dupla maldição? Com isso se amaldiçoa também a si mesmo. Daí se originam mendigos e ineptos.

Quanto a essa oração constante, entretanto, Cristo diz em Lucas 11.9s: Deve-se orar sem cessar, porque é preciso que a gente se acautele permanentemente contra pecado e injustiça, o que não pode suceder onde não se teme a Deus e tem ante os olhos o seu mandamento, conforme diz o Salmo 1: "Bem-aventurado aquele que medita de dia e de noite na lei do Senhor" (v. 2), etc.

Mas também precisamos nos cuidar para que não nos desabituemos da oração certa, e, em última análise, julguemos necessárias obras, que na verdade não o são, destarte ficando enfim relaxados e preguiçosos, frios e enfastiados em relação à oração. Haja vista que o diabo, ao nos assediar, não é preguiçoso nem negligente, e a nossa carne ainda está por demais viva e disposta para o pecado, inclinando-se contra o espírito de oração.

Depois de aquecido o coração por tal pronunciamento oral, encontrando-se assim a si mesmo, ajoelhe-se ou fique parado, com as mãos postas em oração e os olhos voltados para o céu, e fale ou pense tão brevemente quanto pode:

O Pai celeste, Deus querido, sou um pecador pobre e indigno, que não mereço levantar meus olhos ou minhas mãos para ti e orar. Mas como nos mandaste a todos orar, e ainda prometeste atender-nos, e nos ensinaste inclusive as palavras que devemos usar e a maneira como fazê-lo através do teu Filho amado, nosso Senhor

Jesus Cristo, venho obedecer a esse mandamento. E me fio em tua promessa graciosa, e, em nome de Jesus Cristo, oro com todos os teus santos cristãos na terra, como ele me ensinou:


1. "Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o teu Nome"

Em seguida repita uma parte ou quanto quiser, como a primeira petição, a saber: "santificado seja teu nome", e diga: Vem, Deus Senhor, Pai querido, santificar o teu nome tanto em nós mesmos como em todo o mundo! Destrói e elimina os horrores, a idolatria e heresia do turco, do papa e de todos os falsos doutrinadores ou espíritos sectários,1 que usam teu nome de forma enganosa e assim dele abusam de maneira descarada e blasfemam terrivelmente.

E afirmam tratar-se de tua palavra e do preceito da igreja. Mas não passa de mentira e dolo do diabo, com o que em teu nome transviam em todo o mundo tantas pobres almas rumo à miséria; e além disso ainda perseguem, matam e derramam sangue inocente, achando que assim estão prestando culto a ti.

Senhor Deus querido, converte e põe um fim. Converte aqueles que ainda precisam ser convertidos, para que venham conosco e nós com eles a honrar, santificar e glorificar o teu santo nome, com doutrina pura e genuína e com uma vida benigna e santificada. Não consintas, porém, que aqueles que não se querem converter, continuem a abusar, profanar e desonrar o teu santo nome e a transviar as pobres pessoas, amém.


2. "Venha a nós o teu Reino"

Diga: Ah, querido Senhor Deus e Pai, estás vendo que não é somente a sabedoria e entendimento do mundo que difamam teu nome e entregam a tua glória à mentira e ao diabo. Todo o seu poder e mando, sua riqueza e glória que lhes deste sobre a terra para governar no âmbito secular e com isto te servir, estão se opondo e resistindo a teu reino.

Eles são grandes, poderosos e em grande número, gordos, obesos e fartos, e atormentam, impedem e perturbam o pequeno punhado do teu reino, homens fracos, desprezados e insignificantes. Não os querem tolerar sobre a terra, e ainda acham que assim estão te prestando um grande culto.

Querido Senhor, Deus e Pai, aqui converte e susta. Converte aqueles que ainda precisam tornar-se filhos e membros do teu reino, para que eles conosco e nós junto com eles te sirvamos em teu reino em fé genuína e amor autêntico e passemos deste reino iniciado para o reino eterno. E impede aqueles que não querem deixar de usar seu poder e capacidade para perturbar o teu reino, de sorte que, derrubados do seu trono e humilhados, tenham que parar com isso, amém.


3. "Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu"

Diga: Ah, querido Senhor Deus e Pai, tu sabes como o mundo, não podendo eliminar por inteiro o teu nome e acabar com teu reino por completo, lida dia e noite com ardis e peças malvadas, tramam toda sorte de estranhos atentados, ficam maquinando e conspirando, apoiam-se e se fortalecem mutuamente, ameaçam e se enfurecem, atentam com as piores intenções contra o teu nome, tua palavra, teu reino e teus filhos, procurando matá-los.

Por isso, querido Senhor Deus e Pai, leva à conversão e acaba com isso. Converte aqueles que ainda devem reconhecer tua boa vontade, para que junto conosco e nós com eles obedeçamos a ela e desta forma suportemos com paciência e alegria todo mal, cruz e vicissitude, e nisto reconheçamos, provemos e experimentemos tua vontade benigna, misericordiosa e perfeita. Acaba, porém, com aqueles que não querem renunciar à sua fúria, raiva, ódio, ameaça e má intenção de prejudicar. Aniquila e desmascara seus desígnios, atentados e tramoias malvadas. Que se voltem sobre eles mesmos, como canta o Salmo 7.16, amém.


4. "O pão nosso de cada dia dá-nos hoje"

Diga: Ah, querido Senhor Deus e Pai, concede tua bênção também para esta vida temporal e física. Dá-nos misericordiosamente a paz preciosa. Protege-nos de guerra e tumulto. Concede ao nosso caro senhor imperador boa sorte e sucesso contra seus inimigos; dá-lhe sabedoria e entendimento, que governe seu reino terreno com tranqüilidade e felicidade. Dá a todos os reis, príncipes e senhores o bom conselho e intento de manterem seus países e sua gente em pleno gozo de paz e justiça.

Principalmente ajuda e orienta nosso querido senhor territorial N., sob cuja proteção e tutela tu nos guardas: Que ele nos proteja de todo mal, e governe de forma bem-aventurada e a salvo de más línguas e gente desleal. Concede a todos os súditos a graça de servirem fielmente e de serem obedientes. Dá que todas as classes, todos os cidadãos e camponeses permaneçam devotos e manifestem amor e lealdade entre si. Concede bom tempo e frutos da terra; encomendo-te também casa e quinta, mulher e filhos.

Ajuda que eu os dirija bem e os crie e eduque de forma cristã. Rechaça e domina o perversor e a todos os anjos malignos que nisso causam dano e estorvo, amém.


5. "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores"

Diga: Ah, querido Senhor Deus e Pai, não nos leves ao juízo, porque perante ti nenhuma pessoa viva é justa (Salmo 143.2). Ah, não nos imputes como pecado o fato de sermos infelizmente tão ingratos por toda a tua indizível bênção, espiritual e corporal, e de tropeçarmos e pecarmos muitas vezes todos os dias, mais do que sabemos ou podemos perceber (Salmo 19.12). Não leves em consideração quão piedosos ou maus somos, mas sim a tua misericórdia insondável, a nós concedida em Cristo, teu Filho amado.

Perdoa também a todos os nossos inimigos, a todos que nos fazem sofrer ou nos fazem injustiça, assim como também nós lhes perdoamos de coração. Pois eles fazem o maior mal a si mesmos ao provocarem a tua ira através de seu comportamento em relação a nós; e a nós de nada adianta a sua perdição, mas sim em muito preferiríamos que tivessem a bem-aventurança conosco, amém. (E quem neste ponto sente que não pode perdoar facilmente, queira pedir a graça de poder perdoar. Mas isto faz parte da pregação.)


6. "E não nos deixes cair em tentação"

Diga: Ah, querido Senhor, Deus e Pai, conserva-nos resolutos e bem dispostos, ardorosos e aplicados em tua palavra e serviço. Que não nos sintamos seguros, preguiçosos e relaxados, como se agora tivéssemos tudo, e o diabo ferino nos assalte e tome de surpresa, e nos tire de novo a tua palavra preciosa ou provoque discórdia e sectarismo entre nós, ou ainda nos atraia ao pecado e à vergonha, seja espiritual ou corporal; mas dá-nos, por teu Espírito, sabedoria e força, para que lhe resistamos com bravura e obtenhamos a vitória, amém.


7. "Mas livra-nos do mal"

Diga: Ah, querido Senhor, Deus e Pai, esta vida miserável é tão cheia de aflição e infelicidade, tão cheia de perigo e insegurança, tão repleta de deslealdade e maldade (como diz São Paulo: "Os dias são maus" - Efésios 5.16), que bem deveríamos estar cansados da vida e desejosos da morte. Tu, porém, Pai amado, conheces nossa fraqueza.

Por isso, ajuda-nos a atravessar seguros esses múltiplos males e maldades. E quando chegar a hora, dá-nos um fim misericordioso e uma despedida venturosa deste vale de aflição. Que não nos amedrontemos diante da morte, nem desanimemos, mas, com fé resoluta, entreguemos nossas almas em tuas mãos, amém.

Por fim, observe que de cada vez você tem que fazer o amém bem forte, sem duvidar de que Deus o está ouvindo com certeza, com toda a graça, e diz sim à sua oração. E lembre-se de que não está sozinho ajoelhado ou parado. Toda a cristandade ou todos os cristãos devotos estão com você, e você entre eles, em oração unânime e concorde, a qual Deus não pode desprezar. E não largue da oração, a não ser que tenha dito ou pensado: Bem, esta oração foi ouvida por Deus, disso tenho certeza e o sei de verdade. Isso é o que significa "Amém".

Igualmente você deve saber que não quero que todas estas palavras sejam ditas na oração. Isso acabaria dando num palavrório e pura conversa vazia, recitado do livro ou da letra como o foram o rosário entre os leigos e as orações dos padres e monges. Muito pelo contrário, quero com isso ter estimulado e ensinado o coração, acerca dos pensamentos que se deve ter durante o Pai nosso.

E a esses o coração (quando estiver bem aquecido e disposto a orar) pode expressar muito bem com muitas outras palavras, também com menos ou mais palavras. Pois eu mesmo também não me prendo a essas palavras e sílabas, mas as falo hoje de um jeito, amanhã de outro, conforme estou propenso e disposto. Mesmo assim, sempre me atenho, o quanto posso, a este mesmo pensamento e sentido.

Muitas vezes acontece que, em alguma parte ou petição do Pai nosso, eu venho a me delongar em pensamentos tão ricos, que deixo esperar todas as outras seis. E quando vêm tais pensamentos ricos e bons, deve-se deixar de lado as outras preces e dar lugar a esses pensamentos e ouvi-los em silêncio, não os impedindo de modo algum; pois ali está pregando o próprio Espírito Santo. E uma palavra de sua pregação é melhor do que mil orações nossas. Assim também, frequentemente, aprendi mais em uma só oração do que poderia ter conseguido com muita leitura e reflexão.

Por essa razão é de suma importância que o coração fique livre e disposto para a oração. Como também o diz Eclesiastes: "Prepara teu coração antes da oração, para que não ponhas Deus à prova" (Eclesiastes 5.1s e Eclesiástico 18.23).

Que outra coisa é, senão tentar a Deus, se a boca fica tagarelando e o coração está distraído em outros lugares? - como aquele padre que reza assim: Deus, in adiutorium meum intende - peão, já atrelaste o cavalo? - Domine, ad adiuvandum me festina - criada, vai tirar leite das vacas; Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto. - anda, guri, que a peste te pega, etc. -; (as três passagens latinas citadas significam: "Deus, vem em meu socorro", "Senhor, apressa-te em me ajudar" e "Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo". Lutero aqui ilustra como a reza das horas canônicas sofre interferência dos afazeres diários).

Dessas orações ouvi e experimentei muitas em meu tempo no papado. E quase todas as suas orações são deste tipo, com que apenas se zomba de Deus. Seria melhor que ficassem brincando, ao invés, já que não podem ou não querem fazer nada de melhor. Eu mesmo orei muitas dessas horas canônicas em meus dias, infelizmente, de sorte que o salmo ou a hora se tinha passado sem que eu me desse conta se estava no começo ou no meio.

Nem todos se deixem levar, no que dizem, como o padre acima mencionado, misturando os afazeres com a oração. Não obstante procedem assim no coração com os pensamentos, perdem-se em mil fantasias, e ao chegarem no fim, não sabem o que fizeram ou por que partes passaram; começam dizendo "Laudate", e já estão no país das mil maravilhas.

Acho que ninguém acharia ludíbrio mais ridículo, se alguém pudesse ver os pensamentos que um coração frio e sem devoção vai misturando durante a oração. Mas, agora, louvado seja Deus, estou vendo que não é uma boa oração se alguém se esquece do que falou. Porque uma oração bem feita considera cuidadosamente todas as palavras e pensamentos do início até o fim da oração.

Assim, um barbeiro aplicado e competente tem que voltar seu pensamento, sua atenção e seus olhos, com muita precisão, para a navalha e os cabelos, e não se descuidar, não sabendo que esteja afiando ou cortando. Mas, se ele, ao mesmo tempo, quisesse fazer muita conversa ou ficar pensando ou olhando outras coisas, certamente iria cortar fora a boca ou o nariz, e até o pescoço.

Desta forma, cada coisa que é para ser bem feita, quer ter a pessoa inteira, com todos os seus sentidos e membros, como se diz: "pluribus intentus minor est ad singula sensus" - Quem pensa em muita coisa, não pensa em nada, também não faz nada direito.

Tanto mais a oração precisa ter o coração uno, por inteiro e exclusivo, se é que deva ser uma boa oração. Com isso está brevemente descrita a forma como eu mesmo costumo orar o pai-nosso ou qualquer oração. Pois ainda hoje me alimento do pai-nosso como um bebê, dele bebo e como feito um velho; não consigo me fartar dele, sendo para mim a melhor de todas as orações, mais ainda que os salmos (que realmente aprecio muito).

Na verdade, vemos que foi o bom Mestre que a criou e ensinou, e é profundamente lamentável que tal oração, de tão excelente Mestre, seja recitada sem qualquer devoção e assim desvirtuada em todo o mundo. Muitos há que rezam talvez mil pai-nossos por ano, e mesmo que rezassem durante mil anos, não teriam provado nem orado sequer uma única letra ou pontinho. Enfim, o pai-nosso é o maior dos mártires sobre a terra, (como nome e como palavra de Deus). Pois todo mundo o maltrata e abusa dele, sendo poucos os que o consolam e alegram com uso conveniente.

Fonte: Do Escrito Como se deve orar, para o Mestre Barbeiro ("Wie man beten sol, fur Meister Peter Balbirer") 1535; WA 38, 358-375.

 

"Como se deve orar: Uma meditação sobre o Pai Nosso" foi publicado para refletirmos sobre a importância do estudo da Bíblia em seu contexto histórico, nas dimensões política, social, cultural e econômica em que seus relatos foram escritos. Conforme recentes descobertas sobre fatos nela registrados e a opinião de estudiosos do texto bíblico. Com o objetivo de alcançarmos o significado espiritual das Escrituras.

O texto não representa necessariamente a opinião deste blog ou do Movimento da Ciência Cristã – A Primeira Igreja de Cristo Cientista, em Boston, ou qualquer de suas filiais, sociedades ou grupos informais de estudos, existentes em diferentes países do mundo.

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PARA REFLETIR:

 

"Seja-me permitido dar aqui o que entendo ser o sentido espiritual da Oração do Senhor: 

 

Pai nosso que estais no céus,

Nosso Pai-Mãe todo-harmonioso,

Santificado seja o Teu nome;

Único adorável.

Venha o Teu reino,

O Teu reino já veio; Tu estás sempre presente.

Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;

Faze-nos saber que - como no céu, assim também na terra - Deus é onipotente, supremo.

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje;

Dá-nos graças para hoje;  alimenta as afeições famintas;

E perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós temos  perdoado aos nossos devedores;

E o Amor se reflete em amor;

E não nos deixe cair em tentação; mas livra-nos do mal;   

E Deus não nos deixa cair em tentação, mas livra-nos do pecado, da doença e da morte.

Pois Teu é o reino, o poder e a glória para sempre.

Pois Deus é infinito, todo poder, toda Vida, Verdade, Amor; está acima de tudo e é Tudo."

 

Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, por Mary Baker Eddy 

 

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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O TRIUNFO DO PODER ESPIRITUAL

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O triunfo do poder espiritual

 

George Zucker

 

Vivemos em um mundo em que as coisas podem ser pequenas demais para serem vistas, numerosas demais para serem contadas e estar longe demais para serem medidas. Preocupamo-nos com os trilhões de dólares em déficits orçamentais. Deslumbramo-nos com as fotos que o telescópio Hubble tirou do espaço sideral, de um universo que brilha com biliões de estrelas e planetas a anos-luz de distância. [Imagem: Hubble visto de dentro do ônibus espacial Atlantis]

                                                                     hubble-2_Hubble visto de dentro do ônibus espacial Atlantis - Cópia

 

Não podemos compreender plenamente tal imensidade. Entretanto, sabemos que Deus, que criou tudo e enche todo o espaço, é magnificado por essa vastidão. Somos consolados pela promessa da Bíblia de que Deus conhece cada fio de cabelo da nossa cabeça, controla o voo de cada pardal e derrama bênçãos sobre nós em um número muito maior do que os grãos de areia ver Mateus 10:29,30.

As curas inumeráveis realizadas por Eddy, e as realizadas por seus seguidores, comprovam que a oração inspirada por Deus pode vencer até mesmo os maiores desafios.

Tal como o Salmista, orando maravilhado diante do reino celestial de Deus, perguntamos: “Que é o homem, que dele te lembres”? Salmos 8:4. Homens e mulheres sempre ficaram boquiabertos diante do incompreensível. Imaginem a admiração que o homem primitivo sentia ao contemplar o esplendor do firmamento estrelado. Para compreender a imensidão do mundo, nossos antepassados inventaram um mundo fantástico, repleto de espíritos bons e maus.

A mitologia grega representou deuses imortais brincando com o homem mortal para sua própria diversão; uma raça gigante de Titãs que culparam Pandora, a primeira mulher mortal, por ter aberto uma caixa proibida que infestou o mundo com todo tipo de dificuldades. A literatura clássica vê o homem como uma vítima infeliz do destino, com pouco ou nenhum poder sobre sua própria sorte na vida. O grande poema épico de Homero, a Ilíada, cantava: “Os imortais não têm nenhuma preocupação, porém o destino que eles engendram para o homem é cheio de tristeza”.

Também na peça “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare, somos tentados a concordar com o personagem Puck, quando olha para baixo e declara: “Senhor, mas que tolos são esses mortais”!

Alguns incluíram entre os tolos Mary Baker Eddy, uma escritora e teóloga do século XIX que fundou a Ciência Cristã. Ela foi ridicularizada como uma pregadora da apostasia, quando as mulheres de sua época não podiam sequer votar, muito menos fundar uma religião tão oposta às crenças convencionais.

Eddy ensinava que Deus criou o homem semelhante a Ele, puramente espiritual e eterno como Ele mesmo, não como o produto de macacos ou do pó, nem de um mundo criado em seis dias, nem da evolução Darwiniana ao longo dos milênios. Em sua principal obra, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, Eddy escreveu:

“A descrição do homem como puramente físico, ou ao mesmo tempo material e espiritual - mas em ambos os casos dependente do seu organismo físico - é a caixa de Pandora, da qual saíram todos os males, especialmente o desespero”  p. 170.

Eddy, a Descobridora da Ciência do Cristo, ensinou que a alegoria de Adão e Eva não era a verdade com relação à nossa origem real como ideias espirituais, assim como a história de Pandora não era a realidade a respeito da desgraça humana.

Os ensinamentos de Eddy estavam fundamentados no primeiro capítulo do Gênesis, o qual declara que homens e mulheres, criados à imagem e semelhança de Deus, são ideias espirituais e perfeitas, não constituídas de sangue e ossos e, portanto, não poderiam ser menos do que seu Criador, uma vez que não existe nenhum Deus imperfeito que possam refletir.

As curas inumeráveis realizadas por Eddy, e as realizadas por seus seguidores, comprovam que a oração inspirada por Deus pode vencer até mesmo os maiores desafios. Anos mais tarde, quando um de seus alunos perguntou como ele poderia aprender a curar como ela o fazia, Eddy respondeu:

“Quando tu acreditares naquilo que dizes. Eu acredito em cada declaração que faço a respeito da Verdade”  Robert Warneck e Yvonne von Fettweis, “Mary Baker Eddy, Uma Vida Dedicada à Cura, [Edição Ampliada]” p. 101.

O cristianismo foi fundamentado sobre o domínio que Jesus tinha sobre todos os males, incluindo a morte. Entretanto, o Salvador nunca reivindicava nenhum poder pessoal além daquele que todos nós desfrutamos como filhos de Deus. Jesus disse aos seus discípulos:

“Se tiverdes fé e não duvidardes... se a este monte disserdes: Ergue-te e lança-te no mar, tal sucederá; e tudo quanto pedirdes em oração, crendo, recebereis”  Mateus 21:21, 22.

O mundo da matéria talvez pareça vasto, mas Deus é maior. Nada é difícil demais para Deus ou, por reflexo, para Seus filhos. Com fé e compreensão sobre Deus, todos podemos ter a expectativa de nos maravilharmos diante do triunfo do poder espiritual sobre as condições materiais.

Fonte: The Christian Science Monitor [ www.csmonitor.com ], 02 de maio de 2013.

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domingo, 19 de janeiro de 2014

A VIDA APÓS A MORTE: QUE DIFERENÇA FAZ?

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A vida após a morte: que diferença faz?

 

Michael D. Rissler

 

Os pontos de vista teológicos mudam. A preocupação com a eternidade, especialmente quando associada a um céu ou a um inferno longínquo, é, muitas vezes, minimizada diante dos incríveis prazeres e castigos terrenos.

Entretanto, homens e mulheres estão profundamente influenciados por sua concepção de vida eterna. O ideal de justiça e as considerações sobre o caráter e as decisões da nossa própria vida ainda estão no âmago de nossa luta por um mundo melhor.

Se a vida pudesse ser manipulada de tal modo que o céu e o inferno se tornassem meramente uma reação adiada para atos e omissões terrenas, então, bem poderia ser que consignássemos a preocupação com a vida após a morte para a obscuridade e deixássemos que "as coisas seguissem sua ordem natural".

Porém, se chegarmos a perceber que a vida sobrevive e excede as limitações da matéria, então, começamos a sentir espiritualmente um pouco da natureza divina da Vida, ou Deus. É essa Vida que sustenta a verdadeira habilidade para pensar, amar e agir de modo corajoso. Entender que a Vida divina, nossa Vida verdadeira, não finda, abre nosso pensamento à força espiritual que, antes de mais nada, solapa e finalmente vence o mal.

Certamente podemos ver esse poder em ação nos anais de Cristo Jesus. A Vida divina preservou a vida de Jesus, mesmo quando foi muito odiado e atacado. E a Vida divina deu-lhe poder para curar, até mesmo quando a doença parecia incontestável. Essa Vida divina deve tornar-se reconhecível e exequível para nós, aqui e agora, do contrário não percebemos a realidade divina que é a fonte desse poder. [Ilustração: A incredulidade de Tomé - Caravaggio]

Caravaggio_-_The_Incredulity_of_Saint_Thomas_Cópia                                                                                               

 

Uma epístola de João nos diz: "Deus é amor." Ele é também Vida. Deus é Vida onipresente. A totalidade de Deus é o que dá substância e valor à nossa vida. A Bíblia fala do homem como descendente de Deus, Sua imagem e semelhança espiritual.

No momento em que começamos a sentir a inerência e a premência dessa verdade, algo que já não pode ser impedido, começa a ocorrer em nossa vida diária. Nossa existência torna-se menos finita, nossa visão, menos limitada e, conscientemente, começamos a entrar no reino dos céus, onde as leis divinas governam até mesmo o detalhe externo aparentemente inconsequente das experiências humanas.

Essa ação espiritual transforma-nos. Cristianiza o propósito de nossa vida e mostra que, em última análise, não estamos submersos na matéria, prisioneiros de uma lei brutal e material.

O Apóstolo Paulo foi radicalmente transformado quando irrompeu em seu pensamento a realidade de que Deus era sua Vida. Mais tarde, escreveu: "Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

Essa era sua explicação metafísica para a nova vida que ele estava descobrindo em Cristo. Sua visão espiritual teve consequências práticas em suas atividades e decisões diárias. Disse ele: "O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros.... Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.... Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem."

Os concisos vinte e um versículos do décimo segundo capítulo dessa carta aos cristãos de Roma são um compêndio sobre a vida eterna, ou seja, a vida após a morte, pois sustam os interesses mundanos aqui e agora.

Para o sentido espiritual, que testifica o valor eterno do homem como filho de Deus, a questão da vida após a morte está no centro de tudo. A forma como reagimos a essa questão configura nossa existência.

A fronteira finita da existência humana, chamada morte, que, para o sentido material, faz pressão para envolver tudo, como uma parede ameaçadora, pode ser transposta com a vida dedicada inteiramente a Deus, a Vida e o Amor divinos.

É a força espiritual dessa maneira de viver que sempre deu ao cristianismo vital a força para prevalecer diante da oposição e da materialidade, que termina em morte. Com essa transposição, surge a vida contida no Cristo, que cura a doença e vence o mal com o poder do bem que se estiver vivendo.

A Ciência do Cristo preserva o conhecimento de que a vida é eterna e que não pode ser destruída. Tal entendimento espiritual desenvolve a mentalidade espiritual que é atraída para as coisas de Deus, vida espiritualmente dedicada, amor altruísta, uma sede de maior compreensão espiritual, um desejo de curar e de servir ao sagrado propósito de Deus.

Ciência e Saúde, de autoria da Sra. Eddy, explica as consequências práticas decorrentes do apegar-se à vida imorredoura: "Um momento de consciência divina, ou compreensão espiritual da Vida e do Amor, é um antegozo da eternidade.”

Essa visão sublime, que se obtém e retém quando a Ciência do ser é compreendida, preencheria com a vida discernida espiritualmente o intervalo da morte, e o homem estaria na plena consciência de sua imortalidade e harmonia eternas, onde o pecado, a doença e a morte são desconhecidos". 1

Tal verdade faz alguma diferença, aqui e agora? Sim, torna os homens e as mulheres obreiros de Deus aliados da humanidade e revela nossa verdadeira natureza como Sua imagem espiritual, livre para expressar e sentir Sua bondade. Essa vida jamais morre, mas traz renovação de propósitos, de esperança e de saúde aqui na terra - agora.

1 Ciência e Saúde com Chave das Escrituras, Mary Baker Eddy, p. 598

 

Fonte: O Arauto da Ciência Cristã, edição de abril de 1990, número 04, volume 40. The Christian Science Publishing Society, todos os direitos reservados. 

 

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O SIGNIFICADO DE MANDELA PARA O FUTURO DA HUMANIDADE

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Mensagem para 2014



“Ninguém caminha sem aprender a caminhar,
sem aprender a fazer o caminho caminhando,
refazendo e retocando o sonho
pelo qual se pôs a caminhar”.


Paulo Freire

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“Ao vencedor, que guardar até o fim as minhas obras eu lhe darei a autoridade sobre as nações, [...]
assim como também eu recebi de meu Pai,
dar-lhe-ei a estrela da manhã”


Apocalipse 2: 26, 28

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O significado de Mandela para
o futuro da humanidade


Leonardo Boff

Instituto Humanitas Unisinos (IHU)


Nelson Mandela, com sua morte, mergulhou no inconsciente coletivo da humanidade para nunca mais sair de lá porque se transformou num arquétipo universal, do injustiçado que não guardou rancor, que soube perdoar, reconciliar polos antagônicos e nos transmitir uma inarredável esperança de que o ser humano ainda pode ter jeito.

Depois de passar 27 anos de reclusão e eleito presidente da África do Sul em 1994, se propôs e realizou o grande desafio de transformar uma sociedade estruturada na suprema injustiça do apartheid que desumanizava as grandes maiorias negras do pais condenando-as a não-pessoas, numa sociedade única, unida, sem discriminações, democrática e livre.



E o conseguiu ao escolher o caminho da virtude, do perdão e da reconciliação. Perdoar não é esquecer. As chagas estão ai, muitas delas ainda abertas. Perdoar é não permitir que a amargura e o espírito de vingança tenham a última palavra e determinem o rumo da vida. Perdoar é libertar as pessoas das amarras do passado, é virar a página e começar  a escrever outra a quatro mãos, de negros e de brancos.

A reconciliação só é possível e real quando há a admissão completa dos crimes  por parte de seus autores e o pleno conhecimento dos atos por parte das vítimas. A pena dos criminosos é a condenação moral diante de toda a sociedade. Uma solução dessas, seguramente originalíssima, pressupõe um conceito alheio à nossa cultura individualista: 

o Ubuntu que quer dizer: "eu só posso ser eu através de você e com você". Portanto, sem um laço permanente que liga todos com todos, a sociedade estará, como na nossa, sob risco de dilaceração e de conflitos sem fim.

Deverá figurar nos manuais escolares de todo mundo esta afirmação humaníssima de Mandela: 

"Eu lutei contra a dominação dos brancos e lutei contra a dominação dos negros. Eu cultivei a esperança do ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas e em harmonia e têm oportunidades iguais. É um ideal pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas, se preciso for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer".



Por que a vida e a saga de Mandela funda uma esperança no futuro da humanidade e de nossa civilização? Porque chegamos ao núcleo central de uma conjunção de crises que pode ameaçar o nosso futuro como espécie humana.

Estamos em plena sexta grande extinção em massa. Cosmólogos (Brian Swimm) e biólogos (Edward Wilson) nos advertem que, a correrem as coisas como estão, chegaremos por volta do ano 2030 à culminância desse processo  devastador. Isso quer dizer que a crença persistente no mundo inteiro, também no Brasil, de que o crescimento econômico material nos deveria trazer desenvolvimento social, cultural e espiritual é uma ilusão. Estamos vivendo tempos de barbárie e  sem esperança.

Cito o insuspeito Samuel P. Huntington, antigo assessor do Pentágono e um analista perspicaz do processo de globalização no término de seu O choque de civilizações:

"A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da civilização; em grande parte no mundo elas parecem estar evaporando; numa base mundial, a civilização parece, em muitos aspectos, estar cedendo diante da barbárie, gerando a imagem de um fenômeno sem precedentes, uma Idade das Trevas mundial, que se abate sobre a Humanidade"(1997:409-410).

Acrescento a opinião do conhecido filósofo e cientista político Norberto Bobbio que,  como Mandela, acreditava nos direitos humanos e na democracia como valores para equacionar o problema da violência entre os Estados e para uma convivência pacífica. Em sua última entrevista declarou:

"não saberia dizer como será o Terceiro Milênio. Minhas certezas caem e somente um enorme ponto de interrogação agita a minha cabeça: será o milênio da guerra de extermínio ou o da concórdia entre os seres humanos? Não tenho condições de responder a esta indagação".

Face a estes cenários sombrios Mandela responderia seguramente, fundado em sua experiência política: sim, é possível que o ser humano se reconcilie consigo mesmo, que sobreponha sua dimensão de sapiens à aquela de demens e inaugure uma nova forma de estar juntos na mesma Casa.

Talvez valham as palavras de seu grande amigo, o arcebispo Desmond Tutu que coordenou o processo de Verdade e Reconciliação:

"Tendo encarado a besta do passado olho no olho, tendo pedido e recebido perdão e tendo feito  correções, viremos agora a página - não para esquecer esse passado, mas para não deixar que nos aprisione para sempre. Avancemos em direção a um futuro glorioso de uma nova sociedade em que as pessoas valham não em razão de irrelevâncias biológicas ou de outros estranhos atributos, mas porque são pessoas de valor infinito, criadas à imagem de Deus".

Essa lição de esperança nos deixa Mandela: nós ainda viveremos se sem discriminações concretizarmos de fato o Ubuntu.



Feliz 2014

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